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23-5-2007

Post Scriptum: As declarações, a posteriori (24 de Maio de 2007), do PM e do PR sobre a ocorrência a seguir comentada, não alteram uma vírgula ao que escrevi, no dia anterior, e que só hoje decido publicar. Antes pelo contrário: o discurso do poder e o poder do discurso continuam inalteráveis a dominar e a dirigir os acontecimentos. Até parece que cria arquétipos no subconsciente colectivo. Por definição, o poder é sempre poderoso.
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O DISCURSO DO PODER

A tentar mostrar que o discurso do poder é a principal componente que modela, estrutura e deteriora o nosso ambiente (assim transformado em meio ambiente), vou apontar dois eventos, algo anedóticos mas que, curiosamente, ou por isso mesmo, levantam questões de fundo no mínimo exemplares e que nada têm de anedóticas mas que fazem parte da tragicomédia à portuguesa.
Já sabemos que o poder tem a tendência de usar e abusar do poder que tem. Mas nos dois casos em apreço, acho que os protagonistas se excederam para lá do razoável e do previsível. E do conveniente para salvaguardar a imagem pública que é suposto terem de manter.
Já sabemos que andamos todos a trabalhar para pagar impostos, os que trabalham é que pagam impostos e que três meses de trabalho de um português (no activo ou na reforma) vai para o fisco, a financiar um grande regabofe de gastos.
Mas agora a coisa começa a tornar-se mais notória à medida que os responsáveis pelas decisões são convidados mais vezes a falar para jornais e telejornais, pois nem só de aquecimento global vive o homem.
Anotem, fazem favor, porque devem andar distraídos como eu e de vez em quando convém acordar. Se estavam a sonhar cor-de-rosa, fazem favor de passar ao pesadelo. Um minuto só.
1. «É dever do Estado financiar as campanhas eleitorais» - disse ao DN o deputado Ricardo Rodrigues, vice-presidente da bancada e coordenador dos deputados do PS na Comissão de Assuntos Constitucionais (In «Diário de Notícias», 23 de Maio de 2007).
Vamos lá confessar que já não estávamos lembrados de mais esta.
Quando se fala de Estado e tratando-se de Finanças, somos nós todos que temos a honra de ser Estado, do que às vezes também nos esquecemos.
2. Na página anterior do mesmo dia e do mesmo jornal, lia-se mais uma pérola do
pensamento ideologicamente correcto, ainda de um ilustre do PS:
«Quando os políticos são achincalhados na rua é preciso fazer alguma coisa» disse Fagundes Duarte, coordenador do PS na Comissão de Educação.
Tratava-se, como calculam, da anedota sobre a anedota que há-de fazer passar à posteridade o nome de Fernando Charrua, suspenso da Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) por causa de um comentário jocoso à licenciatura de Sócrates e que confessa:
«Gosto de brincar, de contar anedotas: é a minha maneira de ser, sem boa disposição a vida é uma chatice.»
Fernando Charrua, 57 anos, natural de Chaves, professor de inglês, deu no vinte: este ambiente é de facto uma grande chatice, e é só meio não chega a ambiente completo.
O poder não gosta de graçolas e não perde uma ocasião de mostrar (exibir) o poder que tem. O poder impõe o seu lema: «Trata do teu negócio e bico calado.»
Estes são dois pequenos casos do tedium vitae actual. Os grandes chamam-se, por exemplo, TGV ou OTA. E já se chamaram Alqueva, Sines, etc. Mas todos, grandes, pequenos, intermédios, se alimentam na mesma matéria seca:
1. O discurso do poder que amplia e reforça o poder do discurso (terminologia trai ideologia)
2. O financiamento pelo Estado da «grande bouffe» que todos pagamos sem um gemido.
3. Os jornais e telejornais que se encarregam de difundir e ampliar este anedotário para que todos saibam e fique o aviso e fiquem quietinhos e de bico calado. Acções exemplares, murmura-se então nos corredores de S. Bento, uma das sedes centrais do Poder.
Depois do convite expresso à delacção, vem o convite à hipocrisia.
A seguir o que virá, minha Nossa Senhora ? Vai criar-se o vácuo de Poder.
Eu sugiro a melhor solução final, que fui buscar ao Adolf Eichmann e que recomendo aos poderes estabelecidos para resolver de vez os delitos de opinião, as graçolas soezes, as liberalidades na fala e nos pensamentos, as rebeldias contra o discurso monocromático, chato e mercenário dos poderosos.
É simples: à frente de uma fila de rebeldes, um pelotão de fuzilamento pronto a disparar. Devem começar pelos mais idosos, pois também ajudaria a poupar nas prestações da segurança social.
Acho que facilmente entrariam num consenso: PM, PR, partidos com assento, autarquias, enfim, os detentores do poder e do discurso do poder.
Força, amigos. Ainda estão a tempo, o 12 do 12 de 2012 é só daqui a 5 anos. Poderiam acabar a farra em paz.

Quanto aos dorminhocos que nós somos (todos os que contribuímos para sustentar as elites do Poder), também já não vale a pena acordar: pesadelo por pesadelo, é preferível um cor-de-rosa: pensar por exemplo que o 25 de Abril nos deu a liberdade e a alegria de viver. E um ambiente mais habitável.
Quanto aos insultos, nem queiram saber os nomes que eu já hoje chamei a todos os ilustres que me insultam com o seu poder, o seu discurso do poder e as suas eructações do poder, eufemismo que podem ir ver num dicionário de sinónimos.

AFONSO CAUTELA, jornalista, 74 anos, reformado e pagador de impostos desde que nasceu

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Última modificação: 22/06/07