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Terça-feira, 10 de Abril de 2007
NA TRAVESSA DO FALA SÓ (AINDA)
Confesso que contava com os especialistas que navegam na Ambio Archives para me
ajudarem a coligir as informações que eu tenho uma grande preguiça em pesquisar.
Mas perante o facto consumado – a Ambio permaneceu muda e calada, como a Manuela
me disse, - lá teve que ser.
E recorri ao meu inseparável e querido amigo Google que nunca me faltou em
momentos de aflição.
E pronto, em catadupa surgiram as notícias que me faltavam para entretecer de
argumentos (como se o óbvio precisasse de argumentos) a teia de banalidades de
base que a consciência me impunha divulgar face ao silêncio dos cemitérios que
circunda o espectáculo dos poderes institucionais em cortejo fúnebre e de braço
dado com os senhores empresários da biomassa.
Não esqueçamos, como foi dito e repetido, que «eólica, hídrica e fotovoltaica»
são do passado (Ferreira de Oliveira (da Galp) dixit).
+
Reafirmo aqui, à falta de melhor, o que disse anteriormente e saiu publicado na
Ambio Archives.
Com o prefixo «bio» ocorre, actualmente, no panorama mediático, uma das técnicas
de manipulação que fizeram famosos os surrealistas dos anos 60 e que os
surrealistas tornaram famosa: é a «técnica do amálgama» como eles diziam.
Mistura-se tudo, solar com biomassa, agita-se e torna-se a dar.
Como os surrealistas também diziam, todo o burro come palha, a questão é saber
dar-lha.
Mais recente, é a técnica das estratégicas omissões, do que não interessa ao
negócio.
Se não se fala sequer da energia das marés, como é que o respeitável público
pode saber?
E se quase não se fala no biogás, como se pode saber que o sector agrícola podia
ser auto-suficiente em energia eléctrica vinda dessa fonte?
A internet permite ainda o uso e abuso de uma outra técnica manipulatória: o
comentário alegadamente dos «leitores», neste caso os cibernautas.
Tal como nas antigas cartas ao Director, nos jornais, a maior parte desses
comentários, se não todos, são forjados. O que está, também, perfeitamente
integrado nas técnicas (em uso e em apreço) de lavagem ao cérebro. A grande
barrela. «La Grande Bouffe».
+
Resumindo e concluindo sobre o episódio Ambio.
Tenho de confessar que fiquei um bocado frustrado mas tranquilo com o silêncio
(fúnebre) que se abateu sobre a minha prosa publicada na Ambio.
Várias hipóteses se podem colocar para compreender tão compreensível silêncio.
1.
Os guardas do Gulag estavam a dormir e não deram pelo intruso que se aventurou
no campo de concentração por eles guardado.
2.
Afinal a questão da biomassa é, na perspectiva de especialistas e académicos que
se passeiam na Ambio, uma questão de lana caprina, acessória, marginal, nada
relevante como dizem os advogados de profissão, uma ninharia que não pode
interessar os crânios que afincadamente estudam os grandes e altos problemas do
País.
3.
Afinal e crendo na teoria da conspiração, devo ter caído definitivamente em
desgraça nos meios ambientalistas bem comportados e ideologicamente correctos.
Como se estivessem todos combinados e obedecessem a uma só voz, decidiram
deitar-me ao desprezo. De uma vez por todas não sou digno de comparecer nas
fileiras de universitários e profissionais qualificados do Ambiente, muitos
deles à espera que o Durão Barroso os chame para acessores.
4.
Muito provável, também, é que estou literalmente desfasado das novas correntes
ambientalistas: «em tempo de empresários verdes» (ver elkington) estranho não é
que sejam eles a liderar a «política energética» (como sempre aconteceu),
estranho é que fosse o Governo a desempenhar essa tarefa, que aliás nunca
desempenhou.
Quem está a ver a fita ao contrário sou eu, portanto, e ninguém podia discutir o
que é óbvio e que eu coloquei sob a forma de três perguntas algo simplórias:
afinal quem manda, o governo ou os empresários verdes?
5. Se, mais uma vez, me senti a falar sozinho, nada tem isso de estranho ou de
diferente.
Na Travessa do Fala-Só continuam a ser as minhas incursões no meio ambiente,
ontem no campo da «deep ecology», hoje no campo da ecologia alargada ao estilo
de Etienne Guillé.
6.
Mesmo tomando as precauções de auto-censura que a Manuela me aconselhou, ainda
me escapuliu aquela da era zodiacal do Aquário. E vá lá que desta vez não
elogiei o Canal Infinito. Nem o calendário maia.
Quando falo aos amigos e conhecidos de Etienne, de Macrocosmos, de era zodiacal,
de calendário maia, de valores e certezas não devidamente avalizados pela classe
dominante, pela cienciazinha ordinária, pela ideologia do número e do
quantitativo.
Como não me compete fazer pedagogia com gente tão abalizada e competente e
entendida, resta-me apenas cumprir um dever de consciência.
Como também não me agrada o papel de denunciante, deixo a tarefa aos militantes
do Ambiente.
A classe intelectual (outrora baptizada de intelligentzia nos tempos do
marxismo-leninismo reinante) tem as suas regras nobres de comportamento e é ela
que dita as regras do jogo.
Se eu apareci a querer fazer batota, é muito compreensível, lícito e justo que
me tivessem expulsado do templo.
São eles quem lá manda e a verdade é que a Ambio me parece um tempo bem guardado
de cães de guarda.
Quem está lá a mais, evidentemente, sou eu. Nem me poderei queixar de que me
fizeram censura: eu já a tinha feito e até me publicaram a prosa.
7.
Aliás, hoje ninguém se pode queixar de que ninguém lhe publica as prosas.
O congestionamento do espaço virtual onde ninguém se distingue de ninguém, é
suficiente censura global: tudo se submerge sob a mesma cor, num monocromatismo
ideal, o «homem unidimensional» profetizado por Herbert Marcuse.
Mas todos podemos publicar. É só querer.
8.
Nunca ninguém irá fazer-me respeitar a autoridade do poder académico: mas a
verdade é que também ninguém me obriga.
É evidente também que os académicos da Ambio (e nem só) não estão incomodados
com isso e, portanto, com as minhas confissões de ignorante implorando quem me
ensine o que eu não sei. Por isso ninguém respondeu.
9.
Com a falta de resposta ao meu desesperado apelo, nem me posso vangloriar de ter
sido criticado, mordido, perseguido, nem sequer me posso vangloriar de ser uma
pobre vítima de um bando de guardas armados. Estavam mesmo a dormir e eu entrei
sem ninguém dar por isso.
Antes pelo contrário: foram impecavelmente delicados.
10.
Agora, pós mortem, posso desempenhar o papel de vítima e dizer-me um pobrezinho
que tem a pouca sorte de só gostar das coisas que os poderosos intelectuais
desprezam.
Que culpa tenho eu, pobrezinho de mim, de amar os grandes povos do mundo:
a) aborígenes da Austrália (que há 40 mil anos resistem à civilização e à
tecnologia)
b) os maias
c) os tibetanos
isto para só falar dos que conseguiram sobreviver a todos os massacres, a todas
as Chinas, Espanhas, Portugais, Romas, Inglaterras, Bélgicas, toda a trampa de
impérios e de imperadores?
Que culpa tenho eu, coitadinho, de adorar gatos em especial e animais em geral,
de árvores em geral e de árvores multimilenares em especial?
De flores e outras maravilhas?
Que culpa tenho eu, desgraçadinho, de adorar místicos e santos?
Que culpa tenho, infeliz criatura, ignorante e desdiplomado, de considerar irmãs
as grandes almas dos grandes nomes mas também as grandes almas de tantos
humildes e anónimos?
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