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A MAIORIA SILENCIOSA QUE FALE
Se ninguém diz «basta», se não há um Ministério da Energia que tutele e coordene
a superactividade produtiva que está a verificar-se – das eólicas aos
biocombustíveis e aos PIN - , talvez não fosse má ideia que ao nível da
informação se criasse um Directório, ou uma Alta Autoridade reguladora , não
para pôr ordem na desordem instalada (impossível!) mas para que o excelentíssimo
público esteja minimamente informado dos projectos que nos vão afectar a todos
de forma drástica e irreversível.
Leitor de jornais por profissão, confesso que estou a ficar um pouco cansado de
ter que acompanhar, de maneira avulsa, as novidades que todos os dias emanam do
sector e dos lobbies do sector. Que, evidentemente, vão bater e bater forte no
Ambiente ou, se preferem, no Meio Ambiente porque de Ambiente é coisa que já não
se pode falar em território português.
Os jornais fazem o impossível para acompanhar a «grande farra» mas por vezes não
conseguem: têm as suas prioridades e não podem só falar de empresas
fosforescentes e de projectos energéticos redentores. Se nem os muitos diários e
semanários de economia já não conseguem acompanhar a passada, muito menos o
podem fazer os jornais generalistas e a agência Lusa.
No estado a que chegámos, com os governos a assobiar pró ar, este avulso de
notícias é que não pode ser. Já que não temos direito a uma política energética
decente, inteligente, coordenada, viável, humana, sensata, equilibrada, ao menos
reivindiquemos uma informação sistemática e coordenada que nos mantenha em dia
com os paraísos que nos prometem, a electricidade a pataco, os amanhãs que
cantam e as belas flores de girassol a ilustrar as notícias.
+
Um documentário sobre o PIN de Mira foi apresentado, quarta-feira, 20 de Junho
de 2007, no programa Biosfera, da RTP 2, tecnicamente impecável e
ideologicamente correcto. Teremos que agradecer este verdadeiro serviço público.
Afinal, da imensa maioria silenciosa a que estamos reduzidos, outra vez, com os
33 anos da chamada democracia, já se ouvem gritos de «basta» por parte de
organizações responsáveis e militantes civicamente empenhados no interesse
público e já que não existe governo em Portugal
O caso de Mira – uma estação de aquacultura que quer ser a maior do Mundo – é
emblemático mas não é único, antes pelo contrário, os PIN proliferam como
cogumelos pelo que resta do chamado território português transformado em terra
de ninguém, geograficamente o faroeste da Europa.
Mas é também emblemático pela resposta que está a ter por parte de duas
organizações empenhadas em dizer «basta»: a Quercus da parte portuguesa e a
ADEGA da parte da Galiza que também conhece bem o peso da colonização espanhola.
Estas duas organizações estão a fazer impossíveis para não deixar cair no
silêncio o que ali se está a passar com a maior unidade de aquacultura do Mundo,
já com equipamento instalado mesmo antes de estar licenciada e de se saber o
resultado do estudo de impacto ambiental. Se alguém as ajudar, talvez a Quercus
e a ADEGA consigam levar o caso a tribunal europeu para que, no mínimo, se faça
cumprir a legislação europeia. Não seria muito, mas seria alguma coisa. Depois
de arrombado...
Nós, maioria silenciosa, o mínimo e o máximo que podemos é dizer que não
colaborámos na loucura e na destruição.
Se o tempo é de apocalipse, como os adoradores da chuva insistem em predizer,
que se afundem eles. Eu e os meus gatinhos vamos emigrar para os Himalaias – a
minha Pátria -, onde já temos um apartamento reservado, quando chegar o dilúvio.
Entretanto e mesmo aceitando que o País que nos resta é para estragar – assim o
desejam as carpideiras do Juízo Final – há uma coisa que se chama consciência e
que nos obriga a dizer, em silêncio, trinta mil vezes basta.
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