<90-01-10-di> - diário de um idiota – o meu ódio incurável contra a medicina - deve ter saído na cpt mas não vou perder minutos a confirmá-lo: mais uma boa merda que tive o cuidado de passar no scan, só para passar o tempo
GRIPES
10/1/1990 - A notícia tem que ser lida ao contrário: não foi a epidemia de gripe-com-vómitos-e-tudo que apareceu primeiro, por aí, aproveitando a queda do Muro de Berlim e uma aberta de tempo seco frio.
Primeiro do que a gripe, havia um stock já antigo de vacinas que ficaram de outros invernos inesperadamente quentes e húmidos, stock que era preciso escoar, e então os órgãos de Comunicação Social, sempre em sintonia perfeita com a Madame do cabelinho branco - Dr.ª Ayres - apregoaram aos cinco ventos que vinha aí uma epidemia das antigas, uma epidemia e peras.
O vírus era novo, acabadinho de fabricar algures nos subterrâneos da "Securitate", mas as vacinas, embora do ano passado, ainda podiam servir, de emergência, enquanto não se procedesse a nova importação vinda da Grã Bretanha (a da outra senhora mas sem cabelos brancos).
A vacina antiga esgotou-se nas prateleiras - obviamente - num ápice.
Este é o discurso que o consumidor aceita porque lho impingem, porque é o discurso que lhe impõem.
Por isso o "consumidor tem o que merece" e "a verdade a que tem direito".
Agora que, no meu computador, figura o directório "Sazonais" é muito mais rápido trazer ao ecrã a retórica que todos os anos se repete igual sobre todas as gripes sempre iguais, embora os "media" finjam (com grande esforço, diga-se) que é diferente e nos façam crer, portanto, que há notícia.
Não há. A notícia já foi dada. Histórias da Carochinha sobre gripes e vacinas, a gente já sabe de cor.
"Incêndios de Verão", "Inundações de Outono", "Gripes de Inverno" e "Alergias da Primavera" já não deviam, em boa verdade, constituir notícia, já que são quase tão banais como as greves ou as falhas humanas nos desastres rodo e ferroviários.
De tantas vezes repetidos, estes temas classificados de sazonais no meu computador pessoal, já cheiram mal.
A retórica que os acompanha, nos meios de Comunicação Social, já não se pode ler, ver e ouvir. Saturaram a nossa paciência, com o propósito de escoar os stocks.
Não chegam os médicos para mandar os doentes comprar as vacinas que querem vender? Porque tem sempre a Comunicação Social que ser chamada, à borla, para estas campanhas de venda dos stocks?
Que diz a isto o Sindicato das Notícias e Artes Correlativas que é o nosso sindicato?
Depois da remodelação, o País e os jornais suspiravam à míngua de notícias, à míngua de assunto. Ora quando falta a notícia política, lá vem a retórica sazonal do pró-Eucalipto, a retórica do "combate à gripe", a retórica do "combate ao cancro", a retórica do "combate aos incêndios."
Ontem à noite, (9/1/1990), em rede com 8 países europeus, a RTP comprovou a veracidade deste provérbio e a sua maternal vocação de nosso Pai Celeste, repetindo, pela bilionésima vez, que o cancro vem do tabaco. Do álcool também, mas nas horas vagas, é muito menos importante. E de algumas gorduras saturadas.
O resto do ambiente químico-cancerígeno e químico-radioactivo que nos enfiam todos os dias ou que nos fazem enfiar pela boca abaixo, aquele bando de especialistas a soldo da CEE ignora.
Só o tabaquinho é que é mau. A questão - muito equiparável ao neo-racismo da sida - satisfaz estes garimpeiros da nossa paciência e do nosso perfeito juízo, da nossa sanidade mental.
O tecno-discurso europeu contra o Cancro devia ser proibido como todas as retóricas que se produzem para camelos. É um insulto à inteligência mínima média que se espera de um qualquer cidadão de um qualquer país mesmo periférico e do Quarto Mundo como o nosso.
A instituição médica insiste não só em nos adoecer e matar - iatrogenicamente falando - mas em nos tomar por parvos.
Aliás, os temas sazonais, incluindo gripes, estão incluídos nessa "twit light" zona quimicamente muito semelhante ao esterco de cavalo.
São espantosos os meios dos media que se mobilizam para vender "stocks" e para difundir o estalinismo do discurso médico-farmacêutico.
Mas se o estalinismo a Leste está caindo (e até ao lavar dos cestos é vindima), nós, os que resistimos na barricada do bom senso e da lógica, também havemos, um dia destes, de ver por terra os estalinismos mentais e os fascismos quotidianos.
Haja esperança, que a Securitate não é eterna.☻