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<66-01-19-el> terça-feira, 10 de Dezembro de 2002-scanO ROMANESCO
CONTRA O REAL(*)
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «República», Lisboa, na coluna do autor «comentário à margem», em 19-1-1966
[19-1-1966] - Querer um romance realista é querer um quadrado redondo.
O romanesco, no melhor e no pior sentido, o de ontem e o de hoje, serviu e serve (até quando?) para vendar a realidade aos olhos dos homens, como convém.
Histórias não são a História e é curioso como os que dizem prezar a realidade (pois só destes importa falar, já que os outros, por definição, não contam) tão preocupados andam em preconizar formas românticas ou clássicas, realistas ou neo-realistas, do romance. Teorizar o romance (seja de que perspectiva filosófica for) já é teorizar a frivolidade e a fuga ao real que o romance (sempre!) pressupõe ou subentende.
Se reconhecer isto equivale a rejeitar, em bloco, romance e romancistas, literatura e literatos, ficções e ficcionistas, intrigas e enredos, - porque não o fazer, em nome da realidade-verdade que se preza (ou diz prezar)?
Quantas vezes o respeito pela realidade acaba afinal, entre os teorizadores do romanesco (na literatura, no teatro, no cinema) pela defesa das fórmulas que a idealizam, mistificam, desvirtuam? Psicológico e burguês, naturalista e neo-realista, romance do olho ou romance do objecto, velho romance e romance novo, - «romanesco» opõe-se ao real. E se optamos por um, rejeitamos o outro.
Falar de realismo já é, por princípio, prestar pouca atenção ao real e à realidade. Esta pesa e absorve demasiado para permitir a evasão dos «ismos». E conta cada vez mais, com ou sem ficções (comédias, dramas, tragédias e etc.), com ou sem camadas mistificadoras, com ou sem cumplicidade nos desígnios da Abjecção em marcha, para agravar as carências básicas da maioria que uma minoria sustenta.
Romance é cada vez mais sinónimo de ficção e coincide (realista ou não) cada vez menos com a realidade. Quer dizer, opõe-se cada vez mais à verdade.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «República», Lisboa, na coluna do autor «comentário à margem», em 19-1-1966 ☺♥