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FACE À ABJECÇÃO DO MUNDO ACTUAL
PARA ONDE VAI A JUVENTUDE? (*)
[(*) Só parte deste texto terá sido publicado no jornal «República», à volta de 13-3-1967, pois a outra parte terá sido cortada pelos senhores da Censura, conforme a prova carimbada com os serviços de Censura que se junta ]
13-3-1967 - O espectáculo do mundo tal como o temos é de tal forma absurdo, escandaloso, obsceno e pornográfico, que as autoridades encarregadas de vigiar a juventude, de a educar, de a tutelar, de lhe mastigar e censurar filmes, livros, jornais ou revistas, deveriam ocultar-lhe, também e em princípio, essas obscenidades e essa pornografia.
Da abjecção e pornografia do mundo actual, quem protege a juventude? Quem impede a juventude de conhecer o escândalo atómico; as matanças totais e parciais; os genocídios; os bombardeamentos; os crimes; a guerra das velocidades; os excessos demográficos; a fome; as ditaduras; as condenações à morte; a perseguição racial; etc., etc?
De tudo isto quem protege a juventude? Isto que é a verdadeira e única pornografia, quem impede a juventude de a conhecer e, principalmente, de a viver, de a pagar? De quais crimes e criminosos importaria afinal defender a juventude, a juventude que é a única a ser chamada para entrar no escândalo e prolongar a imunda pornografia do tempo e mundo actual?
MOVIMENTOS DE REVOLTA JUVENIL
O comportamento de certos grupos juvenis, - em países onde uma liberdade maior de costumes permite (mais do que provoca) essas manifestações e em meios onde a publicidade das agências noticiosas, o transforma em acontecimento internacional - revela, apesar de distorcido pelas ópticas que o observam e comentam, que a juventude se considera em quase todos os países uma "classe", minoritária nos direitos que aufere e perseguida em quase tudo o que pretende realizar.
O comportamento desta juventude (que dá matéria. para noticiário internacional) é com efeito idêntico ao dos grupos sociais minoritários (o negro nos E.U. , a prostituta nas grandes urbes capitalistas, o judeu na Alemanha nazi, o homossexual à face dos códigos que o marginam, etc, etc); e não admira que os movimentos de revolta juvenil assumam sempre, ainda quando tentam definir-se politicamente, um carácter latente de anarquismo, que a sua luta contra a sociedade organizada em classes, revista sempre o aspecto de uma minoria que resiste sabendo-se antecipadamente vencida.
Todos os contrassensos inerentes às manifestações juvenis provêm de a juventude se considerar, contraditoriamente, um grupo que, ao lado de outros grupos desfavorecidos, usa destes os processos de combate e as armas de resistência, e que, como estes, se sabe antecipadamente vencido.
MUITO SE FALA DELA MAS RARAMENTE SE PROCURA OUVI-LA
Existirá um problema juvenil - ou vários problemas de ordem social e económica que afectam os indivíduos muito particularmente numa idade que se designa de juventude ?
Demasiado se tem escrito sobre a juventude sem que a primeira e última interessada no debate -. a própria juventude - seja chamada a depor. Muito se tem especulado sobre o que pensam os jovens, o que fazem e principalmente sobre a sua delinquência, os seus crimes, os seus erros. Muito se tem teorizado sobre o que deve ser a juventude, como se de uma entidade definida se tratasse ou (pior ainda) como um estado de espírito extensível a todas as idades
e que se caracterizaria por uma radical pureza que enfrenta o mundo e a sua corrupção, sem se lhe adaptar ou o modificar.
Muito se fala dela mas raramente se procura ouvi-la. Mais lépidas estão sempre as várias instituições interessadas (escola, família, igreja, estado, exército, polícia) em julgar e condenar do que em compreender.
A isenção e objectividade no estudo dos seus problemas considera-se fraqueza e qualquer acto de clemência para os seus actos anti-sociais uma conspiração com o vandalismo, o desvairamento e a delinquência dessa juventude sem freio, sem remédio e sem perdão.
Quando se pensa na juventude é só para reprimir e proibir. Fala-se então de a proteger, contra abstractas contaminações, enquanto a concreta abjecção continua em volta dela e sobre ela sem que ninguém a proteja e sem que ninguém o impeça.
Censurar a verdade, ocultar a verdade, ocultar a verdade, mesmo com piedosos, (leia-se hipócritas) intuitos paternalistas, não é uma piedosa mentira; é um impiedoso insulto à sua inteligência. Porque, reconhecendo-se que não é possível ocultar o escândalo do mundo e do seu espectáculo aos olhos da juventude, há só um caminho: o de ser exacto e verdadeiro, o de permitir ao jovem desenvolver o seu espírito crítico, a coragem intelectual e a objectividade necessários para encarar esse espectáculo e de viver nele: de ser seu actor e espectador, malgré lui e o mundo que ele não fez.
Se os sisudos cronistas que escrevem sobre a juventude soubessem que mais de 50% da população mundial tem menos de 24 anos, talvez amainassem um pouco a troça contida nas ditas crónicas, talvez pensassem duas vezes antes de apontarem, com ares de mofa, as excentricidades, as barbas, os crimes e os erros de "desvairada" juventude que, segundo eles, despreza o trabalho e a higiene.
Será melhor compenetrarem-se os sisudos cronistas de que a juventude está em maioria e que se a juventude quiser ....
O CULTO DA CANÇÃO
Resposta a um vazio afectivo generalizado, a idolatria que a juventude manifesta pela voz de um cançonetista ou pela figura de um actor não pode ser encarada como um desvio aberrante mas um sintoma natural e normal. O jovem necessita de estimar, de admirar alguém a nem sempre entre os conhecimentos directos ou nos contactos pessoais lhe é proporcionada uma amizade, uma veneração autêntica.
O disco intervém para religar os elementos dispersos deste novo "culto"; ele serve de intermediário a medianeiro, repetindo no prato de um gira-discos as vezes que forem necessárias o termo "sagrado". Sabe-se como a repetição e o ritmo desempenham um papel importante em qualquer ritual; não admira que o disco, pela facilidade com que pode ouvir-se repetidas vezes, desempenhe função capital nesta nova forma de sacralizar os hábitos profanos.
Ao vazio cada vez maior da juventude na sociedade de compra e venda - a juventude a quem tanto se pede e a quem tão pouco se concede - corresponde esta fé, porque é mais fácil viver sem pio do que sem crenças.
Quando os adultos, dentro da sua autoridade, se permitem emitir arrogantes censuras sobre a juventude; deviam lembrar-se de que: 1) foram eles quem preparou a sociedade presente; 2) foram eles que esvaziaram de fé, de sentido, de crenças e de sentimentos a vida dos que nascem para a vida; 3) são eles que, através das instituições, gozam em exclusivo os privilégios negados aos mais novos.
Sem querer arvorar a juventude em "classe" que declarou guerra a outras classes, deveremos reconhecer um índice comum de interesses que une as pessoas de uma mesma idade, antes de se classificarem e situarem profissional ou socialmente: curso, casamento, automóvel, filhos, etc
Não ignoramos a minoria dos que, antes de se classificarem em classe, já estão nela por... paternidade ; mas como minoria que é , pouco significa, dentro do fenómeno geral chamado "juventude".
Nenhum tema tem merecido tão vibrantes discursos e tão inflamados manifestos, mas nenhum (por isso mesmo) tem estado mais sujeito à demagogia, e à especulação gratuitas.
No fundo, é exactamente a falta de razão que dá razão a essa massa juvenil; no fundo, são todos os seus defeitos que em vez de directamente a recriminarem, antes representam, indirectamente, a mais aguda censura, a mais vibrante denúncia dos defeitos adultos; no fundo o jovem luta para defender-se, para se afirmar, para sobreviver como entidade espiritual que as mais diversas formas de alienação tentam suprimir. E para isso organiza-se; espontaneamente formam-se grupos, a propósito de um disco ou de uma canção afirma a sua coesão, a sua unidade, a sua personalidade sistematicamente ameaçadas.
Não ignoramos que há uma juventude já "arrumada", segura de si e da sua arrogância, nascida sem problemas, instalada na poltrona dos papás. Mas de juventude tem apenas o nome e a idade, e não as características, não esse rosto marcado (magoado) que as canções yé-yé disfarçam mas não conseguem ocultar de todo. E só quem souber ver esse rosto, para lá das aparências, das excepções e dos casos arrumados, a saberá compreender e poderá dela falar.
À pedra vem o jornalista que se julga sensato denunciar a canção inicialmente de protesto mas, no fim de contas, uma ágil maneira de fazer fortuna. Como se o processo degradatório fosse culpa da juventude que canta e não de uma sociedade anteriormente organizada para do mais puro canto fazer a mais imunda mercadoria.
Enquanto canção - independentemente do circuito capitalista que o industrial do disco a fará percorrer - enquanto voz de uma possível revolta poética, enquanto grito escrito no papel, gravado no disco e lançado para a rua, a canção foge à crítica do furibundo publicista brasileiro.
SE A INDÚSTRIA LHE MEXE , A VIRTUDE LHE PÕE.
Aliás, não há pureza que não dê no charco. Se a indústria lhe mexe , a virtude lhe põe. Quando Roberto Carlos manda "tudo o mais para o Inferno" não diminui de mérito só porque o best-seller lhe rendeu milhões de cruzeiros. Quando a banda do Chico Buarque de Holanda, de banda pobre passa a banda multimilionária, não deixa de ser o agrado dos pobres e desventurados que na rua passa.
Terá uma causa "santa", para se fazer respeitar a olhos profanos, necessidade dos seus mártires?
A cançoneta ligeira acaba de confirmar que não é tão ligeira como parece e que já tem os seus dramas e que o néon dos Festivais pode encobrir uma real dificuldade ou impossibilidade de viver.
Luigi Tenco, após o fracasso no Festival de San Remo, suicida-se. Dalida, que o chorara como amigo e camarada, segue-lhe semanas depois o exemplo mas sem êxito: apesar da dose de barbitúricos, sobrevive. Johnny Halliday, há meses, esteve também entre a vida e a morte provocada (embora as más línguas falassem de "golpe publicitário").
Mas não seriam necessários estes casos trágicos ou casos-limite para nos apercebermos de que o mundo fabuloso da canção se cobre de uma alegria postiça que não corresponde à soturna e por vezes terrível realidade. Vítimas da engrenagem onde tentaram a sua chance , em breve essa engrenagem os suprime por qualquer dos métodos conhecidos: a corrida contra-relógio, enquanto o nome não se apaga do cartaz, pode ser um deles.
Instrumento nas mãos vorazes do empresário, Rita Pavone foi um exemplo alucinante que tivemos oportunidade de ver num palco de Lisboa, quando esteve entre nós a última vez ( o ano passado, se não me engano). Exemplo de que a fama não perdoa e de que em todos os cultos esta engrenagem terá de sacrificar os ídolos que cria.
Quando o ídolo morre de velhice, nem sequer tem direito a requiem; uma breve notícia de
jornal, quando muito. Necessário é que morra jovem para morrer em glória e no reconhecimento de um público que em breve o vai esquecer.
A MÁQUINA QUE AS FAZ
"Foi necessário que um jovem compositor italiano morresse para que a canção que originara a sua morte se tornasse um sucesso" - lemos estas palavras terríveis em uma crónica
sobre o suicídio de Luigi Tenco. O deus devora assim as suas criaturas. A máquina que as faz hoje é a mesma que amanhã as há-de liquidar.
Quando se critica a juventude e os seus hábitos "depravados", esquece-se quase sempre o sistema que a produz e portanto explica.
Esquecem-se as indústrias interessadas em explorar a pureza, ou ingenuidade dos mais novos, as várias indústrias que não querem morrer, ainda que para isso tenham de matar.
Esquecem-se culpados e criminosos de toda a espécie, para se dar redundância à criminalidade ou delinquência juvenil.
Esquecem-se as armas espalhadas pelo mundo em missão de guerra para se acusar apenas a arma com que o jovem aponta muitas vezes contra o seu próprio coração.
Esquece-se o clima de histeria colectiva, ateado pega imprensa sensacionalista de todos os matizes – a mesma imprensa que depois publica artigos deplorando a desgraçada "juventude dos nossos dias".
Cronistas aflitos interrogam-se: "Para onde vai a juventude?" mas raramente ou nunca têm a brilhante ideia de perguntarem aos próprios jovens para onde vão e para onde querem ir. Com base em preconceitos de uma moral balofa e bárbara, o cronista responde e ele mesmo, arruma a priori o problema em termos de etéreo, delirante arbítrio e mal disfarçada hipocrisia. Professores, psicólogos, sociólogos quando decidem entrar nas liça é quase só também para fazer funcionar a estatística, a percentagem, as cifras, maneiras muito semelhantes de não saberem amar a juventude, ocupados que estão em defender-se (com o arame farpado das teorias) das "arremetidas" juvenis.
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(*) Só parte deste texto terá sido publicado no jornal «República», à volta de 13-3-1967, pois a outra parte terá sido cortada pelos senhores da Censura, conforme a prova carimbada com os serviços de Censura que se junta ©