1-3 < 94-05-27-bd> bibliografia doméstica quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2003- novo word - 10240 bytes <ddp-0><chave>

CARTA DE AC

A C.F.M.L.

Lisboa, 27/Maio/1994

C.F.: Disseste-me há dias, ao telefone, que querias fazer-me uma entrevista. Espero bem que sim e antes que eu morra, depois será um bocadinho mais difícil. Fiquei contentíssimo com a tua ideia, pois é a única maneira de eu conquistar a posteridade. Estou seleccionando textos meus pelo nível de incomodidade e impopularidade das teses neles defendidas: como sabes, algumas já foram adoptadas e montadas pelo poder, outras continuam severamente silenciadas por todas as censuras em vigor.

Deixo-te hoje uma primeira listagem de artigos, mais ou menos por ordem de datas, com teses «malditas», prometendo continuar a selecção, à medida que os for retirando deste labirinto de caixas que me vai submergindo.

Não queria dar a estas cartas o ar muito pessoal de vingança e desforço, mas sempre terão algum tom, pouco agradável, de ressaibiamento em relação à forma como o País tem recebido as minhas premonições de pacotilha. É hoje honroso dizer que se tinha razão antes do Tempo, vinte ou trinta anos antes, mas só quem passa por elas é que sabe. E se me dessem a escolher, hoje teria preferido nunca ter razão antes do tempo. Não dá gozo, nem proveito, nem honra, nem glória.

Estas cartas para ti, Carlos, serão apenas um inventário daquelas intuições que, ao longo dos anos, eu sonhava de noite para escrever de dia. E publicar por vezes. Vou começar com textos publicados, pois desses existe prova documental de que os pensei e de que não fui roubar as teses a ninguém. Mais tarde e se não morrer antes, deixar-te-ei em testamento os inéditos, que levam mais água no bico, pois alguns contêm teses que nem sequer publicadas foram uma única vez. E que por isso são malditas duas vezes.

Vamos, portanto, a nomes e factos.

Eis uma primeira lista de títulos e datas de publicação, para um inventário de artigos publicados, com as intuições mais impopulares de Afonso Cautela, umas que se tornaram mais tarde populares e que o Poder adoptou, outras que continuam no silêncio e no silenciamento dos Sepulcros.

Vamos à lista, que tenho os papéis diante: