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CARTA DE AC
A C.F.M.L.
Lisboa, 27/Maio/1994
C.F.: Disseste-me há dias, ao telefone, que querias fazer-me uma entrevista.
Espero bem que sim e antes que eu morra, depois será um bocadinho mais difícil.
Fiquei contentíssimo com a tua ideia, pois é a única maneira de eu conquistar a
posteridade. Estou seleccionando textos meus pelo nível de incomodidade e
impopularidade das teses neles defendidas: como sabes, algumas já foram
adoptadas e montadas pelo poder, outras continuam severamente silenciadas por
todas as censuras em vigor.
Deixo-te hoje uma primeira listagem de artigos, mais ou menos por ordem de
datas, com teses «malditas», prometendo continuar a selecção, à medida que os
for retirando deste labirinto de caixas que me vai submergindo.
Não queria dar a estas cartas o ar muito pessoal de vingança e desforço, mas
sempre terão algum tom, pouco agradável, de ressaibiamento em relação à forma
como o País tem recebido as minhas premonições de pacotilha. É hoje honroso
dizer que se tinha razão antes do Tempo, vinte ou trinta anos antes, mas só quem
passa por elas é que sabe. E se me dessem a escolher, hoje teria preferido nunca
ter razão antes do tempo. Não dá gozo, nem proveito, nem honra, nem glória.
Estas cartas para ti, Carlos, serão apenas um inventário daquelas intuições
que, ao longo dos anos, eu sonhava de noite para escrever de dia. E publicar por
vezes. Vou começar com textos publicados, pois desses existe prova documental de
que os pensei e de que não fui roubar as teses a ninguém. Mais tarde e se não
morrer antes, deixar-te-ei em testamento os inéditos, que levam mais água no
bico, pois alguns contêm teses que nem sequer publicadas foram uma única vez. E
que por isso são malditas duas vezes.
Vamos, portanto, a nomes e factos.
Eis uma primeira lista de títulos e datas de publicação, para um inventário
de artigos publicados, com as intuições mais impopulares de Afonso Cautela, umas
que se tornaram mais tarde populares e que o Poder adoptou, outras que continuam
no silêncio e no silenciamento dos Sepulcros.
Vamos à lista, que tenho os papéis diante:
- - «A Escola que Pedimos», «Um Lugar para o Escritor», In «A Voz de Loulé»,
7/Julho/1957
- - «Modernidade e História - Ensaio crítico sobre um livro de Natália
Correia «Poesia de Arte e Realismo Poético», in Revista «Ocidente»,
16/Junho/1959
- - «A Doença da Civilização», in «Diário de Notícias», 29/Agosto/1963 (a
metáfora orgânica em sociologia)
- - «Hipnotismos», in «Diário do Alentejo», 25/Outubro/1963 (o parapsiquismo
já)
- - «A propósito do Kabuki- Para que se não perca a Sabedoria que a ciência
do Ocidente esqueceu», in «República», 30/10/1965 (viragem a Oriente para
fugir do terror Ocidental)
- - «Do Fantástico Surrealista à Antecipação Abjeccionista», in «República»
- - «As Parcelas da Soma», in «República», 11/Fevereiro/1968
- - «Mercados para a Gripe», in «República, 23/Dezembro/1968 (s/
contradições do chamado «progresso»)
- - «Porque está Atenta a Indústria das Distracções», in semanário «Notícias
da Amadora», 31/Janeiro/1970
- - « A Campanha contra a Poluição», in «Notícias da Beira», 13/Abril/1970 (
s/ restrição do conceito de poluição)
- - «Elogio de Paço de Arcos com algumas Adversativas», in semanário
«Notícias da Amadora», 5/Julho/1979
- - Secção «Etapas para o Ano 2000», in «O Século», 3/8/1970 a -------1970
- - «Charlatães», in «Diário do Alentejo», 5/Janeiro/1972 (contra
charlatanismo da ciência médica, a favor do charlatanismo dos verdadeiros
charlatães - chacun à sa place)
- - «Que Infelicidade Nascer Chinês», in «Diário do Alentejo», Margem
esquerda, 23/Setembro/1972
- - «Mortes» , in «Diário do Alentejo», 27/Setembero/1972 (s/ negócio da
indústria farmacêutica (splash- Perigo!)
- - «A Tomada do Poder por Luís XIV - Um problema de Ecologia», in jornal «A
Capital», 9/Dezembro/1972 (s/ um caso de Ecologia Humana, no cinema de
Rossellini)
- - «Só o Fantástico de Hoje será o Real de Amanhã», in «Diário do Alentejo»
(secção «Relances»), 14/Dezembro/1972
- - «Progresso e Meio Ambiente», in «Diário do Alentejo», 9/Fevereiro/1973 (s/
burla de uma economia baseada no desperdício seu antónimo)
- - Contra métodos químicos na contracepção e apelo aos católicos , in
«Diário do Alentejo», 5/Fevereiro/1974
- - «Não à Neutralidade Tecnológica», in «O Raio», 1/Junho/1979
- - «Água: Até Quando?», in «Diário do Sul», 29/Junho/1974
- - «A Esperteza (saloia?) dos tecnocratas», in «Diário do Alentejo»,
28/Agosto/1974 (contra a demagogia neo-maltusiana)
- - «Estratégia Ecológica contra Centrais Nucleares», in semanário
«Expresso», 3/Abril/1976
- - «O Deserto Avança em Duas Frentes - ou o que as Reuniões da ONU nunca
dirão», in «---», (s/ áreas em desertificação acelerada por cobertura de
eucaliptos: Serra do Algarve, Bacia do Mondego e Nordeste Transmontano)
- - «Crise de Energia ou Crise de Imaginação - 20 Questões Indiscretas» , in
semanário «Página Um», 3/Março/1978 ( C/ demagogia da crise energética e
sabotagem oficial das ecoenergias)
- - «Da Esquerda à Esquerda - Onde Está o País deste País», in semanário
«Página Um», Março/1978 ( crítica aos direitismos da esquerda)
- - «Auto-Suficiência Implica Soluções Ecológicas», in jornal «A Capital»,
17/Julho/1978
- - «Soluções Há Muitas - Dinheiro é que Não», in «Diário Popular»,
23/4/1979 ( c/ gigantismos e megalomanias e perfeccionismos)
- - «Cidade Cancro», in revista «Arteopinião», Abril 1979 (s/ retrocessos do
progresso, crescimento das supercidades)
- - «Descentralização e eco-desenvolvimento», in «Diário Popular»,
1/Junho/1979
- - «Nós, Cobaias: Até Quando?», in caderno «Mini-Ecologia», Agosto/1979 (s/
essa ecologia de que somos cobaias)
- - «As Vítimas do Progresso Urbano», in «Diário Popular», 10/Agosto/1979 (s/
despovoar o campo para engordar as cidades)
- - «Petróleo ou Oceano?», in semanário «Madeira Hoje», 21/Setembro/1979
- - «A Angústia Será Desestabilizadora?», in jornal «A Capital», 10/Novembero/1979
( s/ uso político-partidário da angústia)
- - «A que Horas Começa a Guerra Nuclear?», in jornal «A Capital»,
9/Fevereiro/1980
- - «Contar com as Nossas Próprias Forças», in jornal «A Capital»,
16/Fevereiro/1980 ( s/ recursos nacionais, fé nas nossas forças (energias) )
- - «As Outras Olimpíadas», in jornal «A Capital», 22/Março/1980 (contra
mitos fascistas da velocidade, do recordismo e do heroi ganhador)
- - «Será Sempre o Consumidor a Pagar as Despesas Antipoluição», in jornal
«Portugal Hoje», 18/Maio/1980 ( contra sofisma eurocrático do poluidor-pagador)
- - «Alto Risco» no Ar Respirado pelo Lisboeta», in «Portugal Hoje»,
11/Maio/1980
- - «Ciência Humorística e Alterações Climáticas» , in jornal «A Capital»,
30/Agosto/1980 ( s/ hipóteses de trabalho que a ignara ciência ignora para
explicar alterações climáticas)
- - «EUA desviam furacões, mexicanos sofrem seca», in semanário «Voz do
Povo», 28/Novembro/1980
- - «Alerta contra as doenças da Civilização», in jornal «Portugal Hoje»,
13/12/1980
- - «Ecologia, Luta do Povo», in semanário «Voz do Povo», 21/Março/1981, in
«A Capital», in «Jornal de Coimbra» (lutas exemplares, aborígenes do Oeste da
Austrália)
- - «No dia a que chamou da Alimentação, a FAO lembra: «Há 36 anos a
Combater a Fome a Humanidade tem cada vez menos alimentos», in jornal
«Portugal Hoje», 18/Outubro/1981 ( contra demagogia agroquímica da FAO que
alimenta a Fome no Mundo e os seus mitos mais pavorosos)
- - «Trabalho e Ecologia», in revista «Come e Cala», 31/Julho/1981 (Com o
trabalho assalariado e fim do artesanato começou a Neo-escravatura Moderna)
- - Temos que Viver com o Progresso que Temos , in jornal «A Capital»,
10/10/1981
- - «Depois do Apocalipse», in jornal «A Capital», 13/Fevereiro/1982 (a
perversão principal do tecno-terror: Toda a ciência hoje se manifesta numa
inversão de termos)
- - «E a Guerra sísmica: os Travestis da Paz», in jornal «A Capital»,
11/Novembro/1983 ( contra pacifistas de aviário mancomunados com os
imperialismos mais hediondos e os crimes mais hediondos desses imperialismos
como é o caso do terror sísmico-nuclear)
- [---], in jornal «A Capital», 8/Dezembro/1984 ( dificuldade de fazer
penetrar as noções mais elementares de ecologia humana, ciência maldita por
excelência e definição)
- - «Teoria das Placas- A Arte de Assustar Meio Mundo», in jornal «A
Capital», 12/Janeiro de 1985 - > «Jogos & Ameaças - Banalização do terror», in
jornal «A Capital», 5/Abril/1986 (contra provocadores da Adrenalina pública,
os da arte de assustar meio mundo, a banalização do terror, a técnica de
manipulação pelas ameaças, bruxas e adivinhos)
- - «Perversões Modernas - A Ideologia Triunfante », in jornal «A Capital»,
13/Julho/1985♥