1-49 sexta-feira, 5 de Dezembro de 2003<contributo-md-livro-sw>

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 MERGE DE 22 FILES POR ORDEM DE DATAS ENTRE 1972 E 1974, O QUE QUASE TOTALIZA O CONTEÚDO DO LIVRO DIGITALIZADO: «CONTRIBUTO À REVOLUÇÃO ECOLÓGICA», PUBLICADO EM EDIÇÃO DO AUTOR EM MARÇO DE 1976, IMPRESSO NA TIPOGRAFIA «CONFUSÃO», CRUZ QUEBRADA

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<72-06-19-ie> quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002

GÉNESE E ECOLOGIA DA VIOLÊNCIA QUE RESPONDE À VIOLÊNCIA(*)

[(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976 ]

 

19/Junho/1972 - "Partiu-se em três um avião comercial que se despenhou depois de ter levantado voo do aeroporto de Londres."

Notícias como esta começam a ser quase diárias e, no entanto, recusamo-nos a compreender o porquê delas. Limitamo-nos a choramingar os mortos, a lamentar a violência dos atentados, a desejar punições de morte para os sabotadores. Mas recusamo-nos a compreender verdadeiramente o que acontece.

E o que acontece é pura, simplesmente um fenómeno de resposta. Um acontecimento responde a outro acontecimento, um facto a outro facto, uma violência a outra violência. E contra factos não há argumentos... ensina a sofística cristã.

Porque os nossos olhos só se abrem e acordam quando a violência toca ou afecta os nossos interesses. Quando se aproxima.

Diariamente a sociedade do desperdício consente numa violência quotidiana e diária contra a qual nada se faz e a qual, inclusive, se fomenta, pois enquanto os cidadãos estiverem sob estado de sítio psíquico e fisiológico, o Sistema dorme descansado. Fomenta-se a violência quotidiana, para que o cidadão esteja fraco, doente, desarmado e aberto a todas as prepotências do Sistema.

Diariamente a opressão cria focos de genocídio em diversos pontos do globo e ninguém protesta, nenhuma alma cristã clama contra o "crime", silenciosa e sistematicamente perpetrado.

Porque nos admiramos então, quando a guerrilha "urbana" irrompe - e há aviões sabotados, choques de comboios dentro de túneis, assassinatos e raptos? Porque nos admiramos e porque choram nossas almas cristãs lágrimas de crocodilo?

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-4- <72-07-10-ie> quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002-scan

 

GENERALIZANDO CONCEITOS PARA COMPREENDER (CERTOS) PRECONCEITOS(*)

COMER OS PRÓPRIOS DEJECTOS

10/Julho/1972 - "O ciclo do Caranguejo" fez muita impressão ao intelectual burguês. Aí contava Josué de Castro que, em certas zonas infra-subdesenvolvidas do globo, a promiscuidade era tal que os seres humanos (?), vivendo (?) na lama e aí dejectando, acabavam por se alimentar unicamente dos caranguejos que dos excrementos se alimentavam e cresciam.

Escandaliza-se a consciência cristã do intelectual burguês com isto que considera um atentado à "pessoa humana", o cúmulo da miséria subdesenvolvida, da promiscuidade e das condições infra-humanas de existência.

Com efeito. Tem razão a consciência cristã. Mas o mesmo intelectual também come excrementos, diariamente sem nenhum Josué de Castro que narre a façanha e faça estalar o escândalo. Diariamente, na cidade, a chamada poluição é exactamente o mesmo "ciclo do caranguejo". Mas como o fenómeno se apresenta sob uma leve variante, já ninguém conhece, já ninguém reconhece.

Curioso que o intelectual burguês e sua bem formada consciência cristã só dê pelo argueiro no olho do parceiro mas não tope a trave no dele.

AGRESSÕES PSICOLÓGICAS

Qualquer leitor tem o direito de ler os artigos regulares (periodicamente fornecidos pelo cronista de serviço) sobre armamento atómico e deixar que a indignação se escape pelos orifícios ou tubos (de escape) habituais.

Terrível, a Bomba (especialmente se for chinesa). É preciso combater a Bomba. A Bomba é uma arma terrível. Manifestações pacifistas, cartazes, greves (que não se concretizam) enfim, a Bomba é de facto a arma por excelência ou Sua Excelência a Arma. Justa indignação que faz estremecer qualquer alma cristã. Para cada arma, sua alma.

Outro tanto se diga da sabotagem, da guerrilha. Oh! horror. Ao pequeno almoço a almazinha cristã angustia-se e aperta-se antes do café matinal: um avião derrubado, uma embaixada pelos ares, um plenipotenciário raptado pelos "malfeitores".

Mas logo a seguir a alminha cristã irá enfrentar a cidade sem protesto, sem gemido, sem angústia. O hábito opera milagres. O hábito faz o monge.

É isso: nós, almas cristãs, não reconhecemos a teoria na prática, o que se anunciava no que está acontecendo. A guerrilha urbana é um facto e com causas concretas, nítidas, precisas, aritmeticamente rigorosas.

Porque só vemos o fascismo histórico e não vemos os fascismos quotidianos, difusos, generalizados do nosso quotidiano?

Numa sociedade dita pacífica, numa cidade considerada em ordem e numa ordem considerada justa, o que vemos é todo e qualquer cidadão, de arma na mão, dispondo da vida, do sossego, da integridade física e psíquica e nervosa do vizinho.

Porque se a bomba é uma arma, o automóvel é também uma arma. Porque se a pistola metralhadora é uma arma, o transistor é também uma arma. Porque se um canhão é uma arma, também é uma arma o cão que se deixa ladrar de manhã à noite. Porque se o punhal é uma arma, a palavra também o é. E a publicidade, e os mass media. Porque também é uma arma a poluição, o telefone, a carta anónima, o claxon, o tubo de escape.

(Porque arma é todo o acto e facto com que o vizinho agride o vizinho, na rua, no autocarro, no emprego, no cinema, no estádio).

DACHAUS SEM NUREMBERGA

Continua abundante a literatura sobre Buchenwald, Dachau, Auschwitz, etc.. O inferno concentracionário, como lhe chamam os cronistas. Toda a boa consciência cristã, de cepa judaica, estremece de indignação face aos crimes nazis. E aspira-se a um Nuremberga permanente que retire das cinzas sempre um novo criminoso. Apazigua-se assim a consciência cristã do intelectual burguês.

Mas do concentracionário urbano, das cidades capitalistas, quem fala, quem conta os pormenores? Ou é questão de grau e de requinte? Será mais confortável uma cidade como Nova Iorque, Lisboa, Munique, Madrid, São Paulo, Roma ou Paris do que os concentracionários siberianos?

O intelectual cristão só conhece Dachau propriamente dito. Não reconhece ao pé de si os Dachaus de todos os dias. Indigna-se ao ver o filme Um Dia na Vida de Ilitch Denissovitch, ruboriza-se de revolta com o que vê e Soljenitsine conta. De manhã, à tarde e à noite, porém, deixa-se embalar mais ou menos pelo mesmo ritmo.

Mas que diferença há entre o nazífascismo histórico e o quotidiano, de hoje, de agora?

Só porque o paternalismo substituiu a ditadura e a histeria do consumo as febres da carência? Mas o jejum até é terapêutico... E vemos morrer é de enfarto, as alminhas cristãs da sociedade da abundância. Do nazifascismo da abundância.

CONDENAÇÃO À VIDA

O mundo inteiro bateu palmas: a pena de morte ia ser abolida nos Estados Unidos. Gesto de clemência, medida de civilização, lei humanitária e cristã dignificante de um país digno, humanitário, etc , etc

E da condenação à vida, quem fala?

E das "cadeiras eléctricas" a domicílio?

E das "câmaras de gás" chamadas supermercado? Do gás chamado poluição do ar, da água, dos alimentos, dos aditivos, dos pesticidas, dos refinados quem fala?

Quem fala da "indústria alimentar" e seus criminosos? Quem preconiza um Nuremberga?

A lógica capitalista tem a sua moral, tão implacável uma como outra.

Pela coexistência, pelo reformismo, pela demagogia, enfim, pelo idealismo hipócrita se conhece a boa alma cristã de todo o bom capitalista. A sua arte consumada de ilibar-se dos crimes que nos outros denuncia.

Evitando a generalização, substituindo a ditadura pelo paternalismo e a carência pela psicose do consumo, está lançada a grande ofensiva da moral cristã-capitalista.

Evitando a generalização, é a altura de se lançar na fase do Alarido, da prédica, do Billy Graham, a fase do arrazoado fraternal e místico. Engendra então, através de todos os canais e mass media que domina, a gritaria (preparatória de uma histeria anti-)

Notável, no espírito liberal destes cristãos, na consciência cristã destes liberais, é a sua constante preocupação em denunciar os crimes historicamente situados, sem nunca verem os crimes precisamente idênticos que estão a ser cometidos na mesmíssima cidade e sociedade onde predicam.

"MUDAR OS NOMES É MUDAR AS COISAS"

Dado o incremento que a chamada "opinião pública" tomou com os mass media (a outra face não prevista da moeda) é necessário tomar em conta essa "opinião média" dominante, para governar com ela e não contra ela.

Se os próprios meios de difusão foram os primeiros a difundir uma certa consciência humanitária (sob o slogan defesa dos direitos humanos) quando foi o alarido contra as atrocidades nazis, é natural que a opinião pública fique, depois, sensível a outras atrocidades que não sejam as nazis e que ocorram perto dos narizes;

é natural que, depois de tanta prédica a favor dos direitos do homem, o público mais ou menos influenciado comece a supor que é verdade e a fazer reclamações nesse sentido: menos abusos de poder e mais direitos humanos respeitados. E comece a perceber que, afinal, os mesmos predicantes fomentam alegremente outros campos, outras câmaras de tortura, outras segregações, outros colonialismos, outros guetos, outras formas de tortura e de terrorismo.

Há então que proceder a uma reeducação ou reciclagem das massas já um tanto opiniosas demais e demasiado conscientes. Para evitar que elas percebam a transferência, mudam-se os nomes às coisas; e é bem possível que à tortura se chame educação, ao colonialismo se chame proteccionismo, à segregação racial se chame multirracialidade, à polícia política se chame de segurança, à pena de morte se chamem serviços médico-sanitários, à bomba atómica se chame dispositivo de segurança, à escravatura se chame benefícios sindicais, aos campos de concentração se chamem hospitais modernamente apetrechados, às câmaras de gás se chame jardins infantis, aos guetos se chame supermercados, à lavagem ao cérebro se chame publicidade, etc etc

A chamada campanha de retorno vocabular, e a função dos mass media, será então a de instaurar o completo caos terminológico. Daí o aforismo de que a palavra foi dada ao homem para mentir. E foi, quando há que convencer as massas de palavras doces, para que tudo (inclusive a morte) seja doce e suave. Quilómetros de prazer - como diz o outro.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-3- <72-07-12-ie> 5 de Dezembro de 2002-scan

MELHORAR O MAL : PRIMORES DO REFORMISMO (*)

12-Julho-1972 - Vistas com certo distanciamento crítico, as medidas reformistas (remendo, emenda, remédio, panaceia, conselho publicitário) equivalem-se no vocabulário da caquexia tecnocrática.

E a palavra "combate" aparece em profusão nos articulados do costume:

Refocila nos próprios excrementos e depois "combate" tudo. É um combate pegado a Tecnocracia. Combate principalmente aquilo que produziu, os excrementos que produziu, o lixo que produziu, os erros que produziu, as doenças que produziu, as situações que produziu, os engarrafamentos que produziu, a inflação que produziu.

Evidente, óbvio, claro o que se pretende: como dizia um folheto anunciando as virtudes de um novo antipoluente alemão, "a protecção ao meio ambiente não representa apenas sobrecarga, cria também possibilidades de novas indústrias e mercados".

Sem pudor e já sem vergonha, isto foi dito e escrito.

Pois então não se está mesmo a ver a inevitabilidade do processo? Primeiro a inevitabilidade do crescimento. Depois a inevitabilidade da aceleração. Depois a inevitabilidade da industrialização, a todo o custo e preço. Depois a inevitabilidade da poluição. E depois – claro! - a inevitabilidade dos antipoluentes.

Se há coisas que o Sistema se ocupa e preocupa em radicar nos espíritos impúberes, é a noção de inevitabilidade desta marcha para o Excremento. Não há que pestanejar nem hesitar, quando se fala de crescer, tecnificar, industrializar, poluir, antipoluir. Pois pode-se viver sem isso, porventura? Será porventura concebível uma sociedade que não seja esta, organizada segunda as leis desta? Segundo a lógica (exponencial) desta e respectiva moral?

Lógica exponencial, lógica inflexível, lógica inevitável, lógica inflacionária, lógica totalitária: crescimento, supérfluo, indústria, excrementos, resíduos, lixo.

Quem pode escapar?

Como dizia um dos médicos que se banharam no Tamariz: "Há poluição por toda a parte. Vamo-nos matar por isso? Vamos deixar de nos banhar? Vamos deixar de comer? Vamos, inclusive, deixar de poluir?".

Estamos engrenados no inevitável, quem pode deter o carro dos deuses no seu declive para a Glória?

MEDICINA: TÍPICA ESTRUTURA DO CAPITALISMO QUOTIDIANO

Onde a lógica exponencial da exploração capitalista atinge proporções modelares porque arquetípicas é na Medicina, campo privilegiado de todo o reformismo que se preza.

Incapaz - como todo o sistema de que é servidora Mor - de ser efectivamente causal, revolucionária, humana desde a origem, a terapêutica depositou todas as esperanças no Banco da cirurgia e na Alopatia, porque para a exploração capitalista são esses os ramos que, por reformistas, estabelecem o perfeito ciclo vicioso de onde mais ninguém pode safar-se: necessidades que criam novas necessidades que por sua vez criam novas necessidades (tão perfeito como a Medicina só o ramo dos Estupefacientes, o consumo mais provocante e mais multiplicador de necessidades que engendram outras necessidades).

Ir às causas das doenças seria ir à causa última do Sistema e pô-lo em dúvida, em cheque, em causa. Eliminar efectivamente as doenças (como aliás é possível mesmo num ambiente poluído) iria acabar com 70% das indústrias de fármacos e 80% das intervenções da indústria cirúrgica.

Evidentemente que a indústria não consente nisso. O que lhe importa é criar novas necessidades (doenças cada vez mais "incuráveis", mais crónicas, mais para toda a vida) que novas indústrias por sua vez hão-de vir satisfazer. Cá esta o ciclo exponencial, a tal lógica que é uma moral.

CONTAMINAR A REVOLUÇÃO: COEXISTÊNCIA

Não vale a pena acentuar o que a chamada "coexistência pacífica" representa neste contexto: é apenas a contaminação, pelo vírus capitalista (e sua lógica exponencial, suas mitologias da inevitabilidade, etc ) de uma sociedade que algum dia se pretendeu revolucionária.

É a derrocada.

É a doença do reformismo estendida às sociedades que - dizia-se - queriam fazer a Revolução.

Outros dois campos privilegiados do reformismo são os organismos especializados da ONU, mormente a FAO - recomendando as suas "revoluções verdes" que são a maneira airosa inventada para evitar e adiar a Revolução - e a OMS, - recomendando as suas campanhas vacinatórias, maneira igualmente prática de evitar a Revolução que seria liquidar o Mal (no caso a Doença) pela raiz, através de todo um sistema ecológico (incluindo a política) humanizado e revolucionário.

"Revoluções verdes" e "campanhas vacinatórias" equivalem-se na maneira como manipulam milhões de seres humanos, iludindo-os com a falsa esperança de reformas que apenas melhoram o mal, sem o liquidar, sem o extirpar, sem o arrancar de vez e de raiz.

Melhorar o Mal - é a definição de todo o Reformismo. Revolução é liquidar (pela raiz) o Mal.

Todos os melhoramentos são reformismo, adiamento, engano. Juntando às palavras "combate" e "campanha" a palavra "melhoramento", obtemos a santíssima trindade do Reformismo, que não faz mais nem menos do que preconizar coisas tão santas como estas:

No meio da insolúvel necrose e da inenarrável caquexia que é a civilização tecnológica, diverte ver aqueles que, tendo visto até ao fundo do saco a imundície onde estão e estamos mergulhados, preconizam no entanto logo a seguir panos quentes e mezinhas, emendas e reformas, remendos e adendas, melhoramentos e campanhas pró ou anti, para melhorar o mal, para estabilizar a derrocada, para adiar o total afundamento em coisa nenhuma que é a marcha deste rio de excrementos. O ridículo junta-se ao patético:

Exemplo desse reformismo é aquele crítico bem intencionado que preconiza "estabelecimentos prisionais menos desumanos" ou "mais assistência à classe pobre", ou "exames mais exigentes para os condutores de ligeiros e pesados"

Sempre melhorar o mal. A emenda, o remendo, a reforma - eis a grande política da sociedade que não sabe nem pode fazer a Revolução.

Com a campanha antipoluição verifica-se o que sempre, em emergências tais, se verificou: quando a poluição já nos afoga ou asfixia, vem o engenheiro sanitário pedir que se purifiquem os motores, as águas, os rios, os mares, os ares. Vem a era dos antipoluentes, outra indústria, outra fonte de receitas, outra maneira de depredar e degradar os recursos naturais.

Anti – no vocabulário da caquexia tecnológica – o prefixo reformista por excelência.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-2- <72-07-16-ie> quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002-scan

O ESCAPE DO REFORMISMO(*)

16/Julho/1972 - Qualquer sistema do Sistema, por muito opressivo que se considere e deseje, por muito autoritário, já aprendeu que durará muito mais tempo se recorrer ao reformismo.

O reformismo foi a derradeira solução e saída que os regimes de Opressão encontraram para prolongar o mais tempo possível uma situação que de outra forma se veria em breve a braços com a revolta e a revolução

Daí que os Ralph Nader, na aparência indesejáveis (efectivamente o são para as empresas directamente alvejadas) sejam personalidades bastante desejáveis de um ângulo macropolítico, já que constituem polarizadores de massas e escapes por onde o descontentamento encontra oportunidade de se atenuar, abrandando uma pressão que se poderia tornar explosiva e politicamente perigosa.

Como tubo de escape, aliás, funcionam também as greves e manifestações de cartazes, assim como todas as medidas e diligências empreendidas pelos serviços no sentido de "melhorar o Mal."

Qualquer mayor de qualquer cidade norte-americana já aprendeu que tem tudo a ganhar, se consentir em dar livre curso (escape) às platónicas manifestações de protesto ou aos Ralph Nader que pretendem denunciar abusos da industriocracia - continuando evidentemente a industriocracia a vigorar como pilar do Sistema. Como um sistema do Sistema.

VANTAGENS DO REFORMISMO

Em outros lugares, parece ainda não se ter aprendido as vantagens do reformismo. Quem quer que apele, apela em vão. O insuportável faz-se cada vez mais insuportável. Nada nem ninguém vem em socorro do munícipe, do cidadão, do utente, do eleitor, do consumidor, do homem da rua, do transeunte - sempre que, numa situação intolerável, ele tente, evidentemente, safar-se dela.

Ainda não se aprendeu, entre alguns distraídos, a melhorar o Mal. Motivo porque se deve responsabilizar a negligência de certos serviços por todas as revoltas e revoluções que, em outros países, deixaram de existir, porque se lhes deu tubo de escape nas medidas reformistas.

Pedras de toque para análise do reformismo: Asilos; Hospitais; Cirurgia das transplantações; Campanhas vacinatórias; Revoluções verdes; Ajudas ao Terceiro Mundo; Cooperação americano-soviético na técnica cirúrgica, espacial, nuclear, etc; Exames; Coexistência pacífica.

OUTROS LUGARES-COMUNS DO REFORMISMO

A terminologia denuncia a ideologia. Sempre. E no caso dos lugares-comuns reformistas, com abundância de provas.

A terminologia dos telegramas oriundos de agências é muito adequada. Vejamos exemplos:

Pergunta: Mas haverá morte que não seja súbita? Haverá morte a prazo? (por acaso até há: as mortes por enxerto-transplantação são a prazo: logo o adjectivo "súbita" começa a ser adequado quando aplicado à morte de rotina, de que há cada vez mais e mais lentas).

Pergunta: Mas haverá senhorios humanos?

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-3 - <72-10-04-ie>quarta-feira, 4 de Dezembro de 2002-scan

DESPREZO PELA QUALIDADE (DA EXISTÊNCIA) (*)

["Diário do Alentejo", 4/Outubro/1972] - Terrível, no meio disto tudo que ao meio ambiente diz respeito, é que um mínimo de consciência ecológica é logo acusado de alarmismo pessimista pelos funcionários da Inconsciência, da Frivolidade e da Ignorância, o que, tudo somado, dá igual a funcionários do Crime.

Terrível é que o maior crime, o maior pecado cometido hoje contra a humanidade, chama-se exactamente inconsciência ecológica.

Este ciclo vicioso é, creio, o que mais pessimista torna as visões mesmo optimistas sobre o próximo futuro: o ciclo vicioso de serem as massas maioritárias que contribuem, pela sua irresponsabilidade, para efectivamente o meio natural se ver destruído dentro de poucos anos.

Já não se trata de uma possibilidade remota, que nos deixe dormir descansadinhos esta noite, porque o "terremoto" está só marcado para amanhã às dez; já não se trata de continuar consumindo nossos gadgets (para prosperidade da sociedade consumista), porque o incêndio só nos devorará a casa amanhã às onze; trata-se de já estar a ruir a casa e das chamas já nos entrarem pelas janelas. A humanidade já hoje se autodevora numa manifestação colossal de supercanibalismo.

O HOMEM LOBO DO HOMEM

O homem lobo do homem tem sido, infelizmente, ao nível da exploração económica, o motivo deste curto o chato período da humanidade chamado "civilização"; em sentido mais ou menos figurado, o canibalismo sempre tem existido: ele será, no entanto, um facto generalizado quando a fome endémica do Terceiro Mundo chegar às sociedades armadas e organizadas da abundância capitalista, que de sugar o Terceiro Mundo têm vindo a viver há séculos.

O ciclo fecha-se antes que o mundo subdesenvolvida da miséria absoluta possa reconquistar a terra que lhe roubaram (e a cultura de que dispunha, a civilização de que desfrutava). Porque a estas horas a lógica irrefreável do capitalismo galopante já depredou todos os recursos, instaurando a miséria e a fome nos próprios territórios que

até agora tinham sido os da superabundância consumista.

Terrível, também, e sintoma que não deixa lugar a esperanças, é que a lei da quantidade ameaça asfixiar cada mais a qualidade, em tudo. E a qualidade (a vida), desta vez, é não já um caso de luxo ou de requinte, é não já supérfluo consumista mas um caso de sobrevivência da espécie e das espécies.

Se o maior crime é a inconsciência ecológica e a frivolidade, então nós vemos, diariamente, a esmagadora maioria (precisamente porque o é) cometer esse crime contra si própria: este o ciclo vicioso, este o sintoma de maior pessimismo, esta a contradição que nos estrangula.

É em nome da maioria que os canais de informação e formação pública distraem essa mesma maioria, levando a roda do ano ocupando o tempo e o espaço ora com a histeria das Olimpíadas, ora com a das voltas à França, ora, ora, ora...

A tudo isto - diz-se - a Imprensa, a Rádio, a TV não podem fugir porque servem o público e o público lho exige. Ciclo vicioso. Os "mass media" jogam na frivolidade e cometem contra a humanidade o crime da Frivolidade em nome da própria humanidade. Porque é em nome da maioria (da quantidade) que se descartam os problemas considerados pruridos de minorias sem representação estatística, minorias de sensibilidade que nada têm com as maiorias insensíveis a variações de qualidade de existência. Consomem e é tudo.

O CICLO VICIOSO

Este desprezo pela qualidade da existência é perfilhado tanto pelas ideologias reaccionárias como pelas ideologias ditas progressivas mas que só às curvas de rendimento e produtividade atendem, alegando que urgente e prioritário é o económico, deste dependendo o resto. Eis onde o ciclo se torna vicioso e ameaça estrangular tudo. No desprezo pela qualidade da existência começam todos os fascismos, venham em nome das direitas ou das esquerdas.

Verifica-se esse desprezo, por exemplo, no caso concreto da poluição pelos ruídos. Qualquer protesto contra a inflação de ruídos e contra a peste que ameaça de colapso nervoso milhões de pessoas é olhado com um sorriso de desdém, pois há sempre problemas muito mais importantes do que o ruído, algo que nem sequer se vê... Nem mede, nem pesa. Algo que não se traduz estatisticamente.

O ruído - argumentam técnicos daqui e dali - não é problema que afecte maiorias, só as sensibilidades mais irritadiças se sentem afectadas. Tratando-se, com efeito, de um factor qualitativo da existência (afectando o psíquico e não o material), ao qual a lei da quantidade praticada por todas as entidades não reconhece vigência nem importância, não há funcionário nenhum do crime Organizado que é a civiliza ção tecnoburocrática que lhe dedique mais do que um sorriso de complacente desprezo.

Em nome dos problemas prementes (de relevância quantitativa) ou das diversões maioritárias, nega-se pura e simplesmente o direito de publicar uma simples carta ao director, apelando para que as autoridades ponham cobro à vaga de poluição pelo ruído.

No fundo, talvez esse desprezo pela qualidade da existência se compreenda: é que quanto mais aviltado estiver o cidadão consumidor ( e o ruído é uma fonte inenarrável de aviltamento), mais submisso fica à lei da quantidade que rege a psicose consumista. Um jornal recusará, portanto, publicar uma carta protestando contra o ruído, mas talvez publique outra queixando-se do lixo nas ruas e até dos bilhetes espalhados no chão do metro...

Quer dizer: o lixo é concreto, material, pesável, ocupa espaço, logo é reconhecível e permite protestos. O ruído ainda não é considerado um lixo, porque só afecta o sistema nervoso e o sistema nervoso da pessoa humana, quem se ocupa ou preocupa disso: é qualquer coisa que os jornais só se lembram que (não) existe quando noticiam crimes, suicídios, alcoolismo, surménage, neuroses, a verdadeira loucura colectiva de que se encontram possessas populações inteiras no pesadelo das populosas cidades. Das populosas, "progressivas" e "civilizadas" cidades.

Até onde pode ir o desprezo que esta sociedade tecnoburocrática nutre pela vida? Quer dizer: pela existência? Quer dizer: pela qualidade? Até onde?

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(*) Este texto de Afonso Cautela, transcrito do "Diário do Alentejo"(Beja), 4/Outubro/1972, foi republicado no livro «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976, edição do autor

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1-3 - <73-02-10-IE> quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002-scan

O NATURISMO PRECURSOR(*)

10/Fevereiro/1973 - Creio que, sem falsa modéstia, todos os naturistas, de longa ou de fresca data, se podem felicitar por serem os precursores da ciência que no entender de muitos (e no meu também) é a mais importante ciência do nosso tempo, aquela de que todas as outras (tudo e todos) dependem: a Ecologia.

Os naturistas previram (ou profetizaram) o tempo em que o ambiente se tornaria um problema de escala planetária, tão importante como a fome, o desarmamento e a guerra da Indochina.

Os naturistas previram, primeiro do que ninguém, as agressões cada vez mais frequentes e intensas que viriam a perpetrar-se contra o ambiente e sentiram essas agressões como verdadeiros crimes que os códigos estão em vias de sancionar.

Para os naturistas, tal como hoje para toda a gente, a conservação da Natureza foi sempre um caso de vida ou de morte para o próprio homem, lei fundamental da Ecologia.

Os naturistas foram e são os verdadeiros precursores do movimento ecológico que tem vindo a intensificar-se em progressão geométrica. Todos falam de poluição, agora. Mas, sem falar dela, era dela que os naturistas sempre falavam.

Alguns jornais, puxando ao sensacionalismo do tema que até se pode tornar inócuo - tudo está na habilidade sofística do jornalista - procuram apenas a superfície, em vez de se lhe dedicarem em profundidade. A poluição tanto serve para discursos demagógicos de candidatos a eleições como para alarmes apocalípticos dos que se encontram desejosos de acabar com o resto de fé, de esperança e de caridade que teima em existir no coração dos homens e que liga a humanidade a si própria.

Claro que nem todos os naturistas se aperceberam do alcance que a sua doutrina pode ter, quando enquadrada numa perspectiva ecológica e a necessidade que há desse enquadramento para que o naturismo seja efectivamente uma posição capaz de se apresentar em qualquer circunstância sem vergonha nem medo de paralelos. As terapêuticas naturais obtêm o seu mais sólido apoio teórico numa visão causal do meio ambiente e só essa visão as torna indiscutíveis.

Não é raro ouvir naturistas raciocinar ainda em termos de Sintomatologia que são, exactamente, o contrário da visão ecológica.

O EXEMPLO DA ARGILA

Não há dúvida que a argila, por exemplo, concorre para curas interessantes, como adjuvante de outras terapêuticas, alimentares e de agentes físicos, conduz a resultados positivos, se fizer parte de uma cadeia causal a que todo o processo de terapêutica natural tem que estar submetido.

Há, porém, quem "receite" a argila com a mesma mentalidade com que a alopatia receita medicamentos. Completamente desligada do conjunto a que toda a naturopatia tem de referir-se continuamente, eu diria, tentando a síntese, que a perspectiva ecológica é o esforço constante de referir sempre tudo a tudo, as partes à totalidade, o particular ao geral, o local ao universal. A Ecologia, com efeito, reafirma e parafraseia em termos modernos aquele axioma da sabedoria tradicional esotérica que diz: "tudo se liga a tudo". Ou o que está em baixo é igual ao que está em cima, o microcosmos é o espelho do macrocosmos. Já alguém disse que a Ecologia é apenas a versão moderna da Astrologia. Sou dos que aceitam essa definição.

Mas voltando ao equívoco da argila. Se não se mudam os hábitos do doente, nem o seu ambiente, nem as relações recíprocas entre eles, a argila aplica-se pura e simplesmente como panaceia. Como tratamento e não como cura. Medicamento e não terapêutica. Se as causas profundas permanecem sem alteração, é porque falta uma visão científica, ecológica, não sintomatológica a essa terapêutica, falsamente então assim designada.

Com este exemplo da argila queria sublinhar que a Ecologia é o fundamento teórico e prático do naturismo. A ciência que autoriza qualquer de nós a ocupar-se e a preocupar-se com a sua própria saúde. A base factual que racionaliza uma doutrina porventura pouco racional em certos dos seus representantes, em alguns mística e em outros zoófila, mesmo espiritista.

CEREAIS COMPLETOS

Há outro aspecto em que o naturismo não pode desligar-se da Ecologia e dos problemas de Ambiente.

Recomenda-se, por exemplo, o consumo de cereais completos. Mas o naturista logo verifica, na prática, que está cercado por todos os lados de cereais incompletos e que muito terá de andar para os conseguir em termos. Quando o consegue, verifica ainda que esses cereais, contra o principio básico do naturismo, foram cultivados com produtos químicos. Verifica, aliás, que a maior parte dos alimentos à venda no mercado são contra as leis básicas do naturismo. Ou porque estão refinados e deveriam ser integrais, ou porque recorrem a aditivos e conservantes, e deveriam ser puramente biológicos. Ou porque resultam de ambientes contaminados sistematicamente (DDT) ou por acidente (águas de rios poluídas por fábricas).

Quer dizer: o naturista preconiza os alimentos em termos, mas não os tem. E para os ter, é necessário modificar todo o ambiente onde se cultivam ou manipulam.

Momentaneamente, porém, vamos supor que, por um milagre, o naturista consegue os seus cereais por cultura biológica. Ele tem, no entanto, que continuar a respirar o ar da Rua do Alecrim (que decididamente não cheira nada a alecrim), ele tem que beber água verdunizada no seu chá de hipericão, ele tem que descascar peros carregados de pesticidas, ele tem que consumir nata ou derivados do leite com percentagens de DDT bastante inquietantes, ele tem que passar os dias alarmado à espera que um sismo abane Lisboa, porque as experiências nucleares francesas não cessam e não cessa o crime universal que dessas e doutras resulta para o equilíbrio geofísico do planeta, ele tem que suportar, em casa, na rua, no trabalho, todos os ruídos de aviões, cães, escapes, claxons, construção civil que todos quiserem fazer à sua volta, no ambiente que é propriedade colectiva mas de que apenas alguns tomam o monopólio, não se importando nesga com o vizinho, ele tem que suportar, numa sala de congressos, num transporte público, no local de trabalho, o ambiente viciado pelas chaminés fumegantes dos cigarros dos outros.

Quer dizer: não basta ser naturista, nem basta ao naturista dizer que come a sua couvinha (porque a couvinha pode vir de uma terra queimada de DDT) ou comer a sua fruta, ou cozinhar o seu spaguetti: imediatamente se choca com os problemas de ambiente e é a partir destes que tudo o mais tem que ser formulado. Inexoravelmente.

Eis, pois, em resumo: o naturista é, por visão profética, um precursor da Ecologia Humana; mas, às vezes, tal como outros sectores reaccionários da sociedade, ele assume visões anti-ambiente que não abonam em nada os seus princípios.

Agora que os técnicos e especialistas, depois de poluírem o Mundo até à garganta, são os únicos a julgarem-se com direito a falar do Meio Ambiente, o naturista deve reivindicar o seu papel de precursor e o título de amigo (o mais consciente) do ambiente, e seu intransigente defensor.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-2 - <74-02-02-ie> quarta-feira, 4 de Dezembro de 2002-scan

A IMAGINAÇÃO É UMA ARMA (*)

2/Fevereiro/1974 - Gurus que "dão o conhecimento" e mestres indianos que ensinam, para exportação, as técnicas de meditação transcendental, estão na moda. Ao mesmo tempo que, no Ocidente, os chacais do petróleo desencadearam a grande ofensiva para estrangular de vez os povos e, se possível, oprimi-los ainda mais, o refúgio na vida interior, a escolha de uma via mística apresenta-se como alternativa individual para as situações intoleráveis, para os becos sem saída cada vez mais apertados para onde o sistema atira as pessoas até que apodreçam.

Em que medida, porém, a vida interior, a meditação, o ioga e o zen, podem ser técnicas ao serviço do homem para o livrar de servidões, inquisições, opressões, explorações e ditaduras que sobre ele se tem abatido como praga através dos séculos?

À primeira vista o esoterismo significa uma fuga à realidade e, portanto, do ponto de vista social e político, uma covardia, se não mesmo uma traição. Mas o que esta nota procura demonstrar é que apenas um certo misticismo é mistificante e alienante da sórdida realidade. Apenas uma certa embriaguês romântico-celestial é um adormecimento da consciência, em vez de estados dela cada vez mais despertos e lúcidos e conscientes.

O conceito que no Ocidente se espalhou de vida interior, por culpa dos místicos cristãos, é de fuga, alienação e obscurantismo, mas a "terceira visão" dos orientais, o ioga e o satori são formas vigilantes e hiperdespertas de estar atento à realidade, de manter a unidade perante um mundo desintegrado e em processo acelerado de apodrecimento, porque formas de estar em harmonia com as leis do Universo.

Não é nos místicos cristãos que a mística oriental encontra os seus similares do Ocidente, mas em movimentos que, como o surrealismo, a alquimia, a psicanálise e a arte fantástica têm por finalidade o desenvolvimento da imaginação e da capacidade inventiva dos indivíduos.

NECESSIDADE MESTRA DE ENGENHO"

Parafraseando aquele mote da sabedoria popular que diz a "necessidade mestra de engenho", compreendemos então o papel de sobrevivência, profundamente realista, que a imaginação e as técnicas de vida interior podem ter em tempos difíceis de praga ou penúria, de epidemia ou catástrofe, de medo ou angústia, como são os de hoje e como têm vindo a ser mais ou menos os desta civilização de morte, comandada por chacais ensandecidos, embriagados, intoxicados, dormentes de poder ou de uísque ou de morfina.

Por isso imaginar formas, alternativas de sobrevivência, é tarefa urgente. A mais urgente.

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-2 - <73-04-22-ie> quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002-scan

CARTA A MINHA FILHA  (*)

22/Abril/1973 - Um dos temas predilectos glosados pelo inimigo da Revolução ecológica é o da recuperação da Resistência pelo Sistema.

É, por exemplo, o reaburguesamento dos "hippies", recuperados e transformados em atracção turística do município de Amesterdão, que a princípio os varria e depois os atraía, logo que descobriu o negócio; Bob Dylan recuperado e devorado pela indústria do disco que logo transformou o protesto ''pop'' num elemento decorativo dos salões burgueses; enfim, o ecologista acabará também por cair nas malhas, na sua condição de protesto minoritário, de resistente individual, já foi recuperado e está à venda, sob a forma de antipoluentes e estações de tratamento de dejectos industriais os mais diversos.

Por agora, não pretendo relacionar com outros aspectos e sublinho apenas este: é curioso como se critica rápida e acerbamente um erro ou um fracasso da Resistência, enquanto se omite e oculta as condições em que essa Resistência se efectua; enquanto se esquece de que é condição sine qua non dessa Resistência o erro e o relativo fracasso (Êxitos rotundos só o Sistema os obtém, pudera: êxitos principalmente nos crimes que ninguém critica).

Multiplica-se, porém. E é este fenómeno da multiplicação das minorias resistentes que o cronista de serviço ao serviço do Sistema finge ignorar. Se há um "hippy" que se aburguesa e joga o jogo do município de Amesterdão, há 20 ou 30 que nascem em outro lugar qualquer da Terra (para se aburguesar ou não, não importa).

Caminhar é errar. E quem caminha para a utopia, é natural que erre, que fraqueje, se a bocarra do Sistema está sempre pronta a engoli-lo, à espera que ele caia, fazendo tudo para que ele caia. Mas são assim todas as histórias de todas as resistências. Nem por isso deixam de ser e de terem razão de ser.

O facto de tudo me obrigar diariamente a entrar no jogo, e apesar de entrar no jogo sempre que a isso a estrita sobrevivência me obriga, não me leva a deixar de pensar como penso, antes pelo contrário; ou de escrever como escrevo, antes pelo contrário (e já que é escrever a minha verdadeira forma de agir, tudo o mais são tropismos de sobrevivência, com que engano os que desejariam suprimir-me).

E se alguma coisa me dá ganas de continuar vivo (para lá de todo o fastio e de todo o nojo de existir Nisto) é precisamente e unicamente a ideia de resistência ao Sistema, de o criticar e sabotar onde possível, de o denunciar.

Os que vierem depois e virem em que estado lhes deixaram o Mundo, saberão quem resistiu e como resistiu até aos limites do humanamente possível.

Assim tivessem resistido aqueles que no alto das suas tribunas vão debitando as suas crónicas sobre os "hippies" e sua traição, sobre os provos e sua deserção, sobre os ecomaníacos e a sua desistência.

É a única herança decente que se pode deixar a um filho: dizer-lhe que algo se fez para sustentar o rosto humano. Que se resistiu, enquanto se existiu.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-3 - <73-04-22-ie> quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002-scan

CONTRA A DEMAGOGIA DAS POLUIÇÕES

A NOÇÃO DE ECOSFERA NO CENTRO DA UNIDADE DIALÉCTICA(*)

22-04-1973 - O que distingue a Ecomania da Demagogia sobre poluições (e respectivos antipoluentes) é que não existe Ecologia sem a aguda consciência da totalidade e da unidade. Sem profunda noção de Ecosfera. Todo o sistema é posto em causa nos seus fundamentos e não só este ou aquele detrito, este ou aquele fumo, este ou aquele efluente, este ou aquele lixo.

Para a consciência ecológica, cada parte implica todo o (odioso do) Sistema, todo o Ecosistema.

E não há hierarquias: o ruído é tão odioso como os hidrocarbonetos, os antibióticos tão odiosos como o DDT, as mitologias do desporto tão odiosas como as mitologias da política, o reformismo da medicina tão odioso como o reformismo económico, a ciência tão odiosa como a técnica, a mentira dos mass media tão odiosa como a alienação no trabalho, a bomba tão odiosa como as bombas, a guerra tão odiosa como as guerras, a luta contra a Natureza tão odiosa como a luta contra a doença, o combate à inflação tão odioso como o combate à fome, a poluição atmosférica tão odiosa como os slogans publicitários, os aviões tão odiosos como as modas do consumo, a cidade tão odiosa como a fábrica, a escola tão odiosa como a literatura, a oligarquia tão odiosa como a instituição, o telefone tão odioso como o automóvel, o tribunal de menores tão odioso como o tribunal de adultos, o tecnocrata tão odioso como o didacta, o estruturalista tão odioso como o experimentalista, o comerciante tão odioso como o industrial, a industriocracia tão odiosa como o tecnocracia, o ecocídio da Indochina tão odioso como os outros etnocídios, ecocídios e biocídios de outras Indochinas, o colonialismo tão odioso como o neo-colonialismo, o racismo expresso tão odioso como todas as formas de racismo difuso, o autoritarismo tão odioso como o paternalismo, a demagogia das esquerdas tão odiosa como a demagogia das direitas, o escapismo lírico tão odioso como o patriotismo e o fanatismo, o desenvolvimento tão odioso como o subdesenvolvimento (faces da mesma realidade, diria Josué de Castro).

Nesta perda da unidade e da relação dialéctica entre contrários, também Barry Commoner* diagnostica o principal obstáculo à consciência ecológica, que se caracteriza exactamente pela relação de todos os fenómenos vivos.

As palavras de Barry Commoner desfazem os equívocos alimentados pela demagogia sobre poluições e antipoluentes. Essa demagogia só é possível quando se omite o sentido da unidade, a noção de Ecosfera, a indissolúvel cadeia cósmica que une tudo a tudo, o microcosmos ao macrocosmos.

O famoso conceito marxista de reificação só pela noção de Ecosfera se torna imprescindível e transparente. Tudo se separa de tudo, na sociedade capitalista, tudo se aliena e reifica; não existem relações significantes da máquina ao produto e àquele que a utiliza; tudo se pulveriza e atomiza; é a proliferação cancerígena de dados e o congestionamento; é a inflação e, ao mesmo tempo, paradoxalmente (?), o vazio; é qualquer coisa de profundamente errado.

O que o Sistema fez foi, arremedando o Ecossistema e sua estrutura indissolúvel, criar uma falsa cadeia de fatalidades mas contra o Ecossistema, não de harmonia com ele. No fundo, são dois sistemas que se defrontam. O que a demagogia das poluições pretende é impedir essa consciência da unidade, essa noção de Ecosfera.

Contam as crónicas que os adeptos da Unidade, os resistentes à divisão, foram, através dos séculos, a pretexto de manter a ordem (da desordem) acusados de heresia e lançados à fogueira.

A noção de heresia e de satanismo andou sempre ligada à consciência da unidade.

Compreende-se, assim, porque a Ecologia hoje, também, surge como algo de herético e de satânico.

Os próprios marxistas que se reclamam de um materialismo dialéctico, ainda não digeriram esta dificuldade e a demagogia das poluições é também para eles o alibi com que adiam os verdadeiros problemas postos pela Ecologia, problemas da Unidade e da Totalidade dos dois sistemas.

Quando um pretenso marxista se insurge contra o ecomaníaco, devia pensar duas vezes, devia saber que está, pelo menos, a ir contra si próprio.

Quando se noticia o lançamento de detritos radioactivos no oceano - um dos muitos poluentes para os quais não há antipoluentes nem lixeira nem retretes - quando sabemos que são vários países, entre burgueses e socialistas, a fabricar bombas e, portanto, a produzir dejectos - mas não só bombas, "átomos pacíficos" também como dizem os profissionais -, e quando se sabe, porque a ciência deles o diz, que a radioactividade costuma ser mortal (será?) e quando se sabe que toda a vida dos oceanos será destruída quando os recipientes forem destruídos pela acção erosiva das águas e pela altíssima pressão a que ficam sujeitos nos fundos oceânicos - pergunto se a Ecologia é um luxo, uma manobra de distracção e se o ecomaníaco é o louco, o oportunista; pergunto se afinal o crime é nosso, se dos que deitam os resíduos ou dos que, embora não os deitando, logo a seguir os esquecem, ou dizem não ter importância, ou (demagogicamente) afirmam que para todo o poluente há um antipoluente.

Perante factos como o dos detritos radioactivos no Oceano, não há possibilidade, dentro ou fora da Ecologia, queiram uns ou não queiram outros, de tornar reversível (ou recuperável pelo Sistema) uma contestação do Sistema, a radicalização absoluta e irreversível de uma opção. Não há a mais mínima chance de fugir ao pró ou ao contra, de fugir a uma radicalização irreversível.

Não é preciso ter sido o dono das mãos que empurraram os túneis de betão lançados ao mar, tão pouco é preciso ter sido o timoneiro que conduziu o barco, tão pouco é preciso ter sido quem deu a ordem e tomou a decisão do lançamento. O crime vem mais de trás e há outras formas de conivência com ele: ou o silêncio sobre o facto; ou a sua ignorância; ou a sua pretensa solvência e não representatividade; ou a solução do tipo da que a Aerospace preconizou: lançar os detritos em órbita no espaço; ou qualquer outra demagogia antipoluente, venha da Aerospace ou de uma Aerospace equivalente de qualquer outro pais atómico.

Perante este pequeno crime oceânico, não deixará de ser crime um homicídio na Rua de Los Angelos; ou nas masmorras de qualquer ditadura; não deixará de ser crime o ecocídio, o etnocídio e o biocídio de todas as Indochinas do Mundo. Mas não é o ecomaníaco que omite uns e considera outros: para um ecomaníaco ou maníaco da unidade, tudo se liga a tudo e tudo implica tudo, desde que dentro do Sistema. Quem separa, quem pretende separar, mostrar a árvore e ocultar a floresta, quem estabelece hierarquias e pretende que há crime maior e crime menor, é o inimigo da Ecologia.

*Transcrevo o texto de Barry Commoner a que se refere o comentário:

"Um ser vivo que não se adapte à ecosfera não tem nenhuma oportunidade de sobreviver. A crise do ambiente é o sinal de que uma adaptação subtil e complexa, pela qual a vida se liga a tudo o que a rodeia, começou a alterar-se. Logo que os vínculos existentes entre os diversos organismos vivos e entre todos os organismos e o seu meio começaram a romper-se, as trocas energéticas de que depende a existência de todo o conjunto começaram a diminuir e em outros pontos a interromper-se.

Porque é que, após milhões de anos de uma coexistência harmoniosa, as relações entre os seres vivos e o seu ambiente terrestre começaram a alterar-se? Quando começou a desfiar-se esta rede que é a ecosfera? Até onde pros seguirá este processo? Como é possível interrompê-lo e reparar as malhas caídas?

Compreender o que é a ecosfera apresenta dificuldades, pelo facto de que se trata de uma realidade bastante curiosamente estranha ao pensamento moderno. Acostumámo-nos a pensar em acontecimentos independentes e particulares, ligando-se cada um a uma causa única e singular. Mas na ecosfera cada efeito é igualmente a causa: a pele de um animal transforma-se em alimento para as bactérias do solo; o que é elaborado pelas bactérias vai alimentar as plantas.

É difícil, nesta era da técnica, fazer entrar no quadro da experiência humana os ciclos da ecologia, uma vez que não vemos senão produtos que são criados por máquinas e que pomos de lado depois de servir; e não existe então mais relação significante da máquina ao produto ou ao que o utiliza.

Aí descobre-se o mais grave defeito da vida do homem na ecosfera. Rompemos o ciclo (círculo) da vida, transformando os seus ciclos eternos em uma suite linear de eventos feitos pela mão do homem: o petróleo é extraído do solo, destilado e transformado em gasolina que os motores queimam e transformam em fumos nocivos que se expandem na atmosfera. O processus completa-se peta invasão de um smog destruidor. Pela acção do homem, os ciclos da ecosfera sofrem muitos outros atentados - produtos químicos tóxicos, águas de esgotos, acumulação de dejectos - que testemunham o nosso poder de rasgar este tecido ecológico que, após milhões de anos, perpetua a vida do planeta".

BARRY COMMONER

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-1 - <73-04-22-ie> quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002-scan

UM PROBLEMA DE LIXO(*)

22-Abril-1973 - Em Fevereiro de 1972 o Exército Americano tinha nos seus depósitos 9000 toneladas de herbicidas. Desde 1965 lançou sobre as florestas do Vietname 50 000 toneladas destes produtos químicos para arrasar toda a vegetação e mato que pudesse servir de esconderijos aos guerrilheiros.

Mas que fazer com esse resto de desfolhantes (ou desfoliantes), inservíveis para a agricultura e perigosos em tempo de paz? Onde encontrar uma lixeira adequada? A destruição química era demasiado cara. Queimá-los então num forno especial perto de Huston? O governador do Texas opôs-se por temor à contaminação do ar. Lançá-lo na boca de um vulcão... foi outra "solução" proposta.

Este problema de retrete teve um antecedente naquele barco que transportava gases venenosos do arsenal de Okinawa e que foi naufragado pelos americanos nas águas do oceano para enterrar no fundo o seu conteúdo mortal.

Hoje lançam-se também, encerrados em túneis de betão, os dejectos radioactivos provenientes da fabricação de bombas atómicas e das centrais de energia atómica.

Com o tempo, porém, os recipientes irão partir-se e os produtos radioactivos - que têm milhares de anos de "vida" - filtrar-se-ão para as algas e a fauna dos fundos marinhos. Diga-se para quem saiba que a radioactividade costuma ser mortal.

A solução proposta pela Aerospace Corporation dos Estados Unidos consistiria em depositar os dejectos radioactivos em depósitos especiais que seriam lançados ao espaço por meio de potentes foguetes atlas. Ali, desintegrados, iriam, no decurso da sua trajectória hiperbólica, depositar-se no Sol...

Destacar, de vez em quando, por amor à sensação, apenas uma parcela é injusto para as restantes. Sem noção de conjunto, os problemas de Ambiente tornam-se numa maneira assaz desportiva de brincar aos problemas.

Numa hierarquia de gravidade, evidentemente que antes da poluição biológica das Tágides, muitas outras (químicas) deverão colocar-se. O insólito não reside, pois, em ter lembrado esta, mas em se continuar esquecendo todas as outras, do Tejo ao Guadiana, do Vouga ao Sado, do ar às margarinas, dos pesticidas aos ácidos sulfúricos, do mercúrio ao cádmio, dos detergentes ao monóxido de carbono, dos plásticos aos óleos comestíveis, dos vinhos ao leite, do tráfego aos acidentes de tráfego, das endemias às epidemias, do stress citadino às piscinas com cloro, dos antibióticos no gado às hormonas nos frangos, dos arboricidas da Amadora aos fratricidas de Cascais, os rios mortos aos oceanos moribundos.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-4 - <73-05-15-ie> quarta-feira, 4 de Dezembro de 2002-scan

PELA CAUSA DAS CAUSAS:

[(*) Este texto de Afonso Cautela, transcrito da revista «Eva» (Lisboa), Maio-1973, foi republicado no livro «Contributo à Revolução Ecológica», Lisboa, 1976, edição do autor]

Mais importante do que a Ecologia, enquanto ciência constituída e por enquanto cautelosamente afastada das soberanas universidades, é a atitude ou perspectiva ecológica.

Sem essa perspectiva, a maior parte dos problemas formulam-se em base de caquético anacronismo.

A doença, por exemplo: afecções hepáticas podem ser muitas origens, esclarecem os esculápios de todo o mundo, mas sabendo-se hoje a percentagem de produtos químicos que no meio ambiente (no ar, na água, nos produtos alimentares) afectam a célula hepática, diagnosticar-se hoje uma doença sem tomar em linha de conta a perspectiva ecológica, (quer dizer, a causa das causas, a origem profunda que acaba por ser o meio ambiente no mais lato e rigoroso sentido a palavra) conduz não só a diagnósticos falsos como a terapêuticas desastrosas e perfeitamente aleatórias. Quer dizer, sopas depois do almoço.

Outro exemplo, a cárie. Inventam-se mirabolantes causas da cárie infantil: mas geralmente o diagnóstico é superficial, sintomático, externo, sem perspectiva ecológica. Se há doenças características do "ambiente alimentar", a cárie é, com certeza, uma delas. No entanto, raramente se toma em consideração o regime alimentar, indo responsabilizar pelas afecções dentárias meros pretextos e sintomas.

O erro de perspectiva é geralmente revelado pelo fracasso nas terapêuticas. Fracasso que, de boa ou má fé, serve dois objectivos: multiplicar os surtos endémicos respectivos (dando trabalho a muita gente) e, por outro, evitar que se façam mudanças de raiz, que são geralmente mudanças políticas, económicas, sociais. Por isso, nunca a Ecologia é "reaccionária" mas a única ciência que, por definição, obriga a uma revisão causal e progressiva de todas as estruturas.

Generalizando os dois casos acima apontados, os erros terapêuticos denunciam sempre uma falta (ignorância involuntária ou deliberada omissão) de perspectiva ecológica para a doença.

Mas nem só neste campo se torna evidente a necessidade de uma filosofia do meio ambiente impregnando todo o pensamento e toda a acção humana. Não há possibilidade de interpretar cientificamente nenhum fenómeno vivo sem essa base. Daqui se avalia o que tem sido a derrocada das ciências ditas humanas com base numa quantificação mítica, absurda, anticientífica.

Exemplifiquemos ainda. Em determinada altura da história europeia, a moral era uma questão metafísica. Quer dizer: um indivíduo praticava o Mal porque era malvado (assim como a dormideira fazia dormir porque possuía propriedades dormitivas...). Cometia um crime porque era criminoso. Caía em pecado porque era um pecador. Violentava o vizinho porque era violento.

Uma perspectiva ecológica neste campo da Axiologia (dos valores), lentamente conquistada por obra de alguns loucos como Nietzsche, foi ensinando que o crime, a violência, o mal, o pecado - como atrás vimos para a doença - tem normalmente origem no habitat, no modus vivendi do indivíduo, na sua biogénese, na sua hereditariedade, na sua classe social, no seu regime económico, nas suas condições de alojamento, nas suas carências ou abundâncias alimentares e em muitos outros elementos que, no sentido mais lato e rigoroso, definem o meio ambiente do animal humano.

A ZOOFILIA

A zoofilia era ontem uma questão moral e mística.

Uma questão sentimental de velhinhas solitárias, de viúvas consoláveis: querer bem ou mal aos animaizinhos era coisa do coração (E sobre os animais persiste ainda uma mitologia bem perigosa, alimentada pelas ligas de protecção aos ditos, perigosa na medida em que muitas vezes pretende sobrepor aos direitos dos homens os direitos dos animais).

Vista de uma perspectiva ecológica, a zoofilia ganha imediatamente outra dimensão. E devo dizer que sou zoófilo nato, não pela pieguice de querer bem aos animaizinhos mas por razões muito racionais e positivas. Devemos ser amigos dos animais não já e não só porque S. Francisco ensinou a prédica, mas porque a nossa sobrevivência está intimamente ligada à sobrevivência dessas espécies e à forma como decorrem com elas as nossas relações.

A noção de ecossistema apenas veio confirmar em bases experimentais o que vegetarianos, amigos da Natureza, zoófilos e naturistas defendiam por razões sentimentais e vagamente morais, místicas, filosóficas.

Daí que muitos ainda julguem os "ecomaníacos" com base nesse preconceito, supondo que um adepto do meio ambiente vive ainda romanticamente no amor dos passarinhos e das flores.

Feliz ou infelizmente, o amor dos passarinhos e das flores passou a ser, com urgência meteórica, lei da nossa própria e egoística sobrevivência, apenas uma questão muito positiva, muito prosaica, muito realista de vida ou de morte. E românticos, idealistas, tristemente desfasados da realidade total (global, no sentido de Globo terrestre) são os que, em nome disto ou daquilo, da política ou da economia, da inflação ou do comércio, da rendibilidade ou da produtividade, se pretendem descartar de visão ecológica da realidade.

INÉRCIA RETROSPECTIVA

Outro hábito mental denunciado pela perspectiva ecológica é o que designo por "inércia retrospectiva".

Por aqui, em Portugal, há tantos exemplos de tal inércia, que se torna difícil destacar algum para o distinguir, para o definir.

Atente-se no inferninho doméstico que é a cidade de Lisboa, por exemplo. O crescimento não foi acompanhado pelos necessários mecanismos de escoamento, controle, coordenação, etc e deu lugar ao congestionamento. Fatalíssimo da costa. O congestionamento é hoje um fenómeno característico da tal inércia retrospectiva, e sempre que não haja o cuidado de planificar, prever, prospectivar.

E não se planifica porque não existe uma consciência ecológica da vida urbana. Se há engarrafamento de trânsito todos os dias no mesmo cruzamento, e desse engarrafamento resultam acidentes, prejuízos, arrelias, demoras, inventa-se tudo para atribuir culpas e responsabilidades a todos e a mais alguns. Ninguém se lembra de culpar o meio ambiente, ou os responsáveis que o deixaram constituir-se à balda, sem qualquer preocupação prospectiva de evitar depois os maus resultados desse ambiente.

Se efectivamente queremos combater o "flagelo" dos acidentes na estrada - mais um exemplo sofrido por muitos! - poderá porventura ignorar-se o estado dessas estradas e em que contribui esse mau estado para as tais trágicas carnificinas que todos demagogicamente lamentamos muito? Mas então a causa das causas? Porque se vai sempre aos efeitos, numa terapêutica sintomatológica que é só remendo, reformismo, achega à morte consumada?

Toda a lamentação a posteriori é aleatória, logo reformista, logo demagógica. E eu diria que 99% dos artigos a puxar ao sério são lamentações a posteriori. A ausência de perspectiva ecológica obriga a colocar todos os problemas nessa base de um reformismo aleatório, de uma inércia retrospectiva. Depois de dar a corneta ao menino, é francamente paradoxal que se proíba o menino de tocar a corneta.

Se as contradições do ambiente são propícias ao acidente, à fraude, à delinquência, ao crime, à doença, à violência, ao atraso, ao atrito, ao congestionamento, ao choque, como é possível continuar clamando contra tudo isso sem apontar a origem e causa de tudo isso?

É ainda a perspectiva ecológica que permite visionar a "civilização tecnológica" como um todo, permitindo, em princípio, um balanço de resultados e uma crítica mais objectiva, mais distanciada, mais... crítica.

É evidente que nunca sabemos analisar bem aquilo mesmo onde estamos mergulhados e de que dependemos umbilicalmente. Tratando-se do "nosso" sistema, é natural que por uma reacção instintiva tenhamos dúvidas de pôr em questão o nosso próprio habitat, que, por mais agressivo, é sempre e em princípio, um casulo protector do grande infinito cósmico (esse, sim, que assusta:).

Vários factos contribuíram para permitir um distanciamento de nós próprios.

RELATIVIDADE DAS CULTURAS

Os filósofos da história, por exemplo, realizaram a certa altura interessantes balanços da civilização e das civilizações, falando alguns de uma decadência do Ocidente.

Visitas de ocidentais ao Extremo-Oriente e viceversa, o contacto com personalidades da cultura chinesa e japonesa e indiana, vieram lentamente criando também uma possibilidade de compreensão por contraste. Vendo o que eles tinham e como eram, a pouco e pouco se foi criando uma noção de "relatividade das culturas" e sua autonomia.

Se a primeira reacção do ocidental racista é sobrepor os seus próprios mitos aos mitos dos outros - os estudos etnográficos, porém, durante muito tempo dominados por esses preconceitos europocêntricos, também acabaram - até pelo exotismo da descoberta e pela necessidade comercial da indústria turística - por criar uma ideia favorável às outras culturas.

Os fracassos da terapêutica alopática levaram a correntes como a neo-hipocrática e, mais abertamente, a um reconhecimento das "medicinas paralelas", chegando a estar em voga o ioga, o karate e agora a acupunctura; necessariamente deturpadas pela óptica ocidental, também essas modas contribuíram para um progressivo reconhecimento de outras vozes, de outros ângulos, de outras alternativas cultuais, de outras perspectivas antropológicas.

Se a acupunctura, por exemplo, é no Ocidente completamente desvirtuada, primeiro porque a retiram do seu contexto ecológico-cultural e segundo porque pretendem identificá-la com a violência das técnicas cirúrgicas (com a qual violência nada tem a ver nem a medicina nem a cultura chinesa) - é inevitável que atrás da acupunctura, aspecto secundário da sabedoria médica extremo-oriental, venha a conhecer-se mais desta outra técnica terapêutica.

Sucessivas contradições evidenciaram também como um todo (como uma estrutura cultural) o sistema ocidental de mitos e obrigaram a relacioná-las directamente com o meio que as pariu e fomenta.

Quer dizer: se um extra-terrestre nos visse de Marte, reconheceria como um único território este onde, em nome da ciência e da técnica, se criou um ciclo vicioso de mitos que estrangulam as suas vítimas mas de que as suas vítimas não querem abster-se.

Veria o irmão marciano, muito espantado, que os homúnculos deste território produzem constantemente aquilo mesmo que os há-de matar: radiações, medicamentos, produtos químicos, congestionamento, acidentes de tráfego, ar envenenado, águas contaminadas, ruído, desfolhantes, talidomida, etc

Exigindo a perspectiva ecológica um distanciamento autocrítico da civilização onde estamos inseridos, é natural que só muito tarde na história do pensamento essa perspectiva começasse a despertar e que só depois de ultrapassados os limites do intolerável alguma atenção se desse, enfim, aos problemas do Ambiente.

Mesmo assim, mesmo quando as estatísticas são tão eloquentes, ainda há quem duvide, numa atitude bastante paradoxal: esses que duvidam dos números são, em outras circunstâncias da sua vida profissional, os primeiros a exigir a expressão numérica dos factos para acreditar neles.

Li em magazine ilustrado a reportagem sobre os "estranhos" hábitos das mulheres "padaung", tribo da Birmânia: entre outras atrocidades que se praticam, geração atrás de geração, apenas porque a tradição manda e se lhe deve obedecer, uma há que se torna mais patente e espectacular: quando uma rapariga chega aos 10 anos, começa a usar ao pescoço uma série de anéis de lata sobrepostos, o que lhe irá aumentar o comprimento do pescoço para duas vezes o seu tamanho natural. É acrescentado um novo anel, de 3 em 3 anos, até 21, 26 ou mesmo 28 anéis.

De todas as vezes que tomo conhecimento de hábitos como este das mulheres "padaung", penso nos hábitos de que nós, europeus, à semelhança desse, seremos vítimas e apenas porque a tradição manda. Ou por outra qualquer "razão" tão irracional como essa. Estamos afinal tão sujeitos a tabus e mitos como as tribos da Birmânia. E não sei qual dos costumes será mais atroz: se os anéis que esticam o pescoço, se, por exemplo, as atrocidades consentidas por nós outros, europeus "civilizados", em nome do progresso.

Em nome da ciência, da técnica, da economia, da indústria, da política.

Sempre que alguém faz notar os absurdos e crimes em que são férteis as tribos europeias- já muito disseminadas pelo mundo devido ao seu génio colonizador - logo se reduz esse alguém ao silêncio, pois ninguém se deve opor ao incremento tecnológico (também identificado com "progresso''), considerado "sagrado", inviolável, mesmo que ele nos faça esticar o pescoço para três vezes o seu tamanho natural -

Revista "Eva", Maio/1973

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(*) Este texto de Afonso Cautela, transcrito da revista «Eva» (Lisboa), Maio-1973, foi republicado no livro «Contributo à Revolução Ecológica», Lisboa, 1976, edição do autor

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1-3 - <73-06-05-ie-mk> terça-feira, 3 de Dezembro de 2002-scan

TRISTES RECORDAÇÕES DE UM DIA MUNDIAL(*)

[ 73-06-05] - Entre os vários e distintos oradores que, por dever de ofício, tive ensejo de ouvir e devidamente apreciar durante as comemorações do Dia Mundial do Ambiente, em 1973, o Dr.. Arnaldo Sampaio, Director-Geral de Saúde, foi o único a deixar-me optimista. O único que não desiludiu a esperança de alguma coisa se ir modificar na mentalidade com que temos vindo a proceder em relação à vida e aos fenómenos da vida, na sua inter-relação complexa com o Ambiente.

Se até aqui a mentalidade dominante o que fez foi separar os dois mundos - Ambiente a um lado, Homem a outro - a grande reviravolta consiste precisamente em recusarmos essa separação e com a Ecologia reformularmos tudo de novo à luz dessa indissolúvel unidade.

Mau grado o «absoluto optimismo» com que Monsieur Philippon (orador convidado às comemorações e alto funcionário do Ministério do Ambiente francês) classificou a política do seu País nesse domínio, mau grado a Era ecológica a que ele se referiu e à completa mutação de consciência em que os últimos acontecimentos nos mergulharam, a mentalidade que verificamos ainda existir em certos especialistas (que continuam profundamente empenhados na separação abismal dos dois mundos - Ambiente e Homem, a pretexto de objectividade científica), abordando com uma cínica calma aquilo que eles próprios minimizam sob a designação de «poluentes» para aqui e de anti poluentes para acolá, deixou-me verdadeiramente aterrado, mais do que surpreendido.

Evito citar nomes dos que mais me aterrorizaram, esperando apenas que essa raça de técnicos míopes que nos conduziu ao caos actual não continue a prevalecer e que o seu especialismo, o seu dogmatismo dito científico, a sua « objectividade» que é apenas escapismo e desculpa para não enfrentar de frente e na globalidade os problemas que só existem globalmente e para se furtarem aos compromissos de uma ideologia radical, - estejam em vias de desaparecer, trucidados pelos acontecimentos. De contrário, são eles quem nos conduzirá definitivamente ao charco; precisamente porque nada mudou na mentalidade que lá nos conduziu, antes pelo contrário.

Levar uma noite inteira, perante uma assembleia que, inquieta, espera notícias claras e urgentes sobre o Apocalipse ecológico, a discutir mecânica de fluidos, dispersão de efluentes, taxas máximas admissíveis de toxicidade, até onde e como se pode poluir o resto que resta desta imundície toda, deixa francamente pessimista e desesperado o mais pintado.

Perante uma tal minúcia de poluentes, quem pode acreditar numa alternativa inteligente e humana, numa saída possível para este impasse de porcaria em que já estávamos mas onde se empenham em nos afundar ainda mais?

Se alguma coisa tem demudar e de raiz e depressa é esta microcefalia dita científica, o coisismo técnico, a soberba dos computadores que podem, sabem e querem tudo.

Se alguma coisa tem de mudar é esta esperança cega no computador e de que só ele resolve o que a inteligência e a imaginação do homem nunca poderão, porque os computadores nos classificam de empiristas e de cálculos qualitativos. É o cúmulo!

Se a polémica tem de estalar, pois que seja aqui e já, nesta antinomia de base: ecologia contra poluentes. Quem está de um lado, não pode estar do outro e reciprocamente.

Voltando à exposição do Dr. Arnaldo Sampaio, um dos poucos oradores além do Eng.. Correia da Cunha e do Dr. Marcelo Rebello de Sousa, onde se vislumbra o desejo, embora inseguro, de mudar, frisou, ele suficientemente que já hoje é universalmente admitida a causalidade ambiencial no desencadear da doença.

Segundo os neo-hipocráticos, essa tese já vem de Hipócrates... e ontem como hoje a tese de que 90 %. das doenças são doenças de Ambiente, não constitui surpresa em si mesma. Surpresa foi, para mim, ouvi-la na boca de um técnico a quem está confiada em Portugal Continental a Direcção-Geral de Saúde, e portanto a Medicina Alopática ou Sintomatológica que, por definição, se opõe a Medicina causal, ambiencial ou ecológica.

Entre os factores ambienciais da doença não é desdenhável o factor medicamentoso, assim como o alimentar (indústria alimentar) e aquilo a que se podem chamar os « alimentos» ou o «consumo provocante» próprio das sociedades de consumo: marijuana, tabaco, chá, café, estimulantes, açúcar, alucinogéneos, estupefacientes, etc

Por certo que o Dr. Arnaldo Sampaio não levou tão longe as suas ilações, mas o que eu pretendo ao tomar a liberdade de as tirar é justificar o meu optimismo, a partir do momento em que vejo, num alto posto da Saúde Pública em Portugal, finalmente admitida a tese mais humanista e mais progressista deste século: a génese ambiencial da Doença. Só não compreende o alcance verdadeiramente fantástico dessa tese quem não possua, mesmo rudimentar, uma teoria geral do Ambiente.

Diga-se, em abono da verdade, que entre os muitos e ilustres oradores do Dia Mundial do Ambiente, também não vislumbrámos que houvesse tal teoria para lá de um pragmaticismo bastante rudimentar e empírico... Esse, sim, empírico.

Sem tal teoria, porém, não há Ecologia nem se abre a porta da tal «era ecológica» de que falou Jean Baptiste Philippon. «A história do ambiente confunde-se com a história do Mundo».

É verdade, mas há que aplicar sempre e em todas as circunstâncias essa extraordinária verdade! Sem ela, sem uma teoria geral do Ambiente que é uma teoria geral da «civilização» onde temos o azar de estar, nada mudará. Porque só muda algo ao nível da estrutura, da raiz. E a estrutura, a raiz é, neste caso, o sistema de mitos a substituir, a alterar, a revolucionar!

O alibi estatístico, o alibi do especialismo, o alibi da tecnicidade e da objectividade, o alibi da ciência a um lado e da ideologia a outro, o alibi da infinita divisão das ciências (a cada um sua especialidade e a responsabilidade para nenhum), enfim, os alibis que cuidadosamente se encontram sumariados, um a um, nuns ensaios de gaveta que talvez sobrevivam ao apocalipse, são os sintomas infelizmente seguros de uma mentalidade retrógrada.

Aos que verdadeiramente querem definir posição é aqui que têm de a definir. O que se prepara com tais alibis, o que se pretende preparar é um mundo onde o terror deste esteja apenas computarizado, é um mundo onde os índices de toxicidade dos poluentes sigam aumentando, matando, adoecendo, sufocando populações, enquanto sobre os cadáveres e os doentes e a vida, os especialistas - talvez de máscara aperrada ao focinho - continuam medindo, medindo, medindo, discutindo acesamente os índices máximos admissíveis, cujas tabelas ainda por cima dizem cada uma o seu e como já se assistiu recentemente em semanário de prestígio, a propósito dos índices que um disse do ar do Barreiro e o outro veio rebater, levando nisso até de manhã!

Ou recusamos este tipo de polémica suicida sobre os nossos cadáveres, sobre a doença dos nossos filhos e sobre a morte institucionalizada porque os computadores a determinaram, ou teremos de facto direito a que nos façam, sob o alibi do número, sob o alibi da ciência, sob o alibi da matemática, sob o alibi do cálculo, sobre o alibi dos computadores (todos espertíssimos e bons rapazes) o lindo funeral em que estão empenhados e que já começaram a fazer-nos.

Sofistas do século XX, devemos saber que estes necrófatas têm resposta para tudo: menos para a posição radical de recusa aos seus dejectos mentais, se começarmos e acabarmos por em bloco os rejeitar Ou eles, ou a vida: eis a escolha, o embaraço da escolha!

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(*) Este texto de Afonso Cautela, que o Afonso Cautela subscreveria com a mesma lata no dia de hoje, foi publicado no livro «Ecologia e Medicina», edição «Gazeta do Sul» (Montijo), 1977, por favor e gentileza do meu inesquecível e querido amigo Dr. Rocha Barbosa, a quem fiquei devendo mil atenções.

(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-4 - <73-06-27-ie-mk> terça-feira, 3 de Dezembro de 2002-scan

CARTA DE AFONSO CAUTELA

AO PROF.DELGADO DOMINGOS (*)

Lisboa, 27 de Junho de 1973

Ex.mo Senhor Prof. José Joaquim Delgado Domingos

Es. "'° Senhor,

Se a «crise do ambiente» é fundamentalmente a irredutível oposição, o abismo, a guerra aberta entre quantidade e qualidade, inorgânico e orgânico, material e imaterial, inumano e humano, não creio que seja possível dialogar sobre Ambiente quando se assume um dos termos dessa dicotomia e a ideologia que lhe corresponde, ideologia que não iludo a ninguém e engagement que não oculto.

Triplamente surpreendido, pois, me deixou a sua carta:

1.° - Não sabia que o meu artigo fora publicado no «Diário de Lisboa».

Tratava-se de uma carta que escrevi ao José Saramago, à qual acrescentava um texto de emergência em apoio da atitude que ele, em Notas do Dia, mantivera perante os sofismas dos que vão dirigir mais um inquérito epidemiológico, dos que vão proceder a mais uma experiência in vitro nos crematórios do Barreiro, carta que não fora escrita com a ideia de a ver publicada; fora apenas um dos muitos textos que vou lançando para o cesto (gueto) das minhas solitárias reflexões de indesejável, de ignorante auto-didacta, de marginal, de revoltado (despeitado, dizem os diplomados) maltrapilho e out-sider;

2.° - Os termos em que esse texto estava escrito não convidavam de maneira nenhuma ao diálogo; por demasiado acintosos e provocantes, antes pretendiam acentuar o abismo, a crise, a guerra; admirado fiquei, pois, do «fair play» demonstrado pelas suas palavras e pela sua carta, muito mais cordial do que eu poderia esperar e do que a minha atitude podia permitir;

3.° - É insólito, raro, para não dizer inédito, que um professor catedrático se digne responder a um jornalista, ainda por cima tratando-se de um assunto «vital» para ambos, onde automaticamente se é vitima ou verdugo (sem terceiro termo).

Enfim, mal refeito da tripla surpresa, aqui estou, como manda a boa educação, agradecendo a atenção e respondendo à carta de V. Ex.a.

Havia efectivamente uma referência à memorável Mesa Redonda no Laboratório. Essa - mais redonda do que mesa e menos mesa do que redonda - é que para mim não foi surpresa. Já sabia o que lá iria ouvir e (caso curioso) foi a primeira vez que o ofício me levou a entrar nesse templo da ciência experimental portuguesa... Conheço melhor os crematórios e cobaias e jaulas cá de fora!

Mas creia o sr. Prof.. que não pretendi apenas atingir a sua intervenção: todo e qualquer tecnicismo me provoca brotoeja. É uma pura questão alérgica, tal como o horror ao Ruído.

É natural: o meu empirismo (subjectividade) provoca brotoeja aos técncios. Amor com amor se paga.

O meu texto (como tudo o que infatigavelmente escrevo para a gaveta) visava a mentalidade dominante em todas as intervenções, que é não só a tónica de todos os discursos sobre poluentes como a de todos os discursos com que a ciência nos brinda desde que ficou autorizada a ir matando os homens em nome dos seus sagradas princípios.

Sejamos justos: a intervenção de V. Ex.a não me chocou mais do que a do director-geral de Saúde, que a contra-gosto enunciou ali uma tese de Medicina Ecológica (a única revolucionária e a única humanista), anti-sintomatológica, quando três dias antes o ouvira eu, com estes dois que a terra há-de comer, em conferência de Imprensa, proclamar com a mesma imperturbável calma, a campanha de vacinação contra o sarampo, outra forma crónica de reformismo sintomatológico, outra das muitas formas de terror nazi-fascista com que a Medicina oficial coadjuva o crime organizado e sistemático.

Contradições são sempre contradições e tanto me obnubilam umas como outras.

No meu franciscanismo panteísta, místico, pacifista, empirista e subjectivo - melodramático lhe chamam alguns, - no meu horror aos sofismas da ciência organizada em crime sistemático, no meu pavor dos dogmas económicos, políticos, tecnológicos, de que sou vítima diária na minha qualidade de diplomado em qualidade (eles dizem «em ignorância»), só disponho dessa arma, que em mim sofre portanto de hipertrofia crónica: o raciocínio, a inflexível lógica dialéctica, minha única especialidade, minha arte e técnica. Desgraçadamente nenhum raciocínio dos meus coincide com os estabelecidos.

Sessões como essa no Laboratório de Engenharia Civil são, ainda por cima, por obrigação profissional, o meu pão de cada dia, o meu vietname, a minha resistência.

Vivo, pois, em permanente estado de choque, não falando da latrina de Ruídos em que se transformou Portugal Continental.

Traumatizado, torturado por um ambiente que desde a raiz sinto inabitável, insuportável, intolerável, é impossível que possa aceitar sem protestos que façam desse ambiente cómoda matéria de estudos científicos, e a nós cobaias dos seus laboratórios de engenheiros mais ou menos nada civis. Se estamos em guerra, trata-se de engenharia «militar» sempre.

Para mim só existe um enigma: porque é que ainda não me suicidei, alegria que nunca mais dou aos meus numerosos amigos, adeptos e adoradores do Número. Daí os sucedâneos do suicídio que são certas intervenções como essa do «Diário de Lisboa», em que sei estar a enfrentar um exército regular, totalmente só e desguarnecido, totalmente exposto às feras.

Lamento mas não fui eu a declarar a guerra, eu que até sou pacifista de raiz e de estrutura. De Gandhi a Linus Pauling, de Lanza del Vasto a Danilo Dolci, de Bertrand Russell a Barry Commoner e a Pierre Fournier... faço o possível por me escudar do Grande Exército.

Lamento mas não fui eu a declarar a crise, a tornar o abismo intransponível e o diálogo inviável. Limito-me a fazer o que posso para impedir que me matem (especialmente a Medicina que é, entre todas as ciências nobres, a arte e a técnica legais de matar a domicílio ou pelo telefone), embora talvez não possa impedir que a minha filha de 10 meses venha a receber as três vacinas obrigatórias deste País, primeiro estigma que os guardas do concentracionário lhe deixarão no corpo de cobaia e na inocência.

É só isto, sr. Prof., e neste pé (a que os amigos chamam melodramático) não deixo de considerar interessante, embora me pareça inverosímil, qualquer diálogo entre as partes interessadas.

Com os meus cumprimentos,

Lisboa, 27 de Junho de 1973

Afonso Cautela

PS.: Acabo de receber a separata sobre «A Crise do Ambiente», que me anuncia na sua carta e que li atentamente. Parece-me, porém, não vir alterar substancialmente a irredutibilidade de posições a priori existente.

Uma eventualidade me parece relevante: reconheço que a filiação profissional de alguém não o condena necessariamente a ser membro activo do Sistema e seus abusos, da Abjecção e seus crimes.

Quando vi em teatro «O Dossier Oppenheimer» chorei com o amargo destino sofrido pelo pobre e perseguido sábio...

Sicco Mansholt foi a (re)conversão mais sensacional, quase bíblica, do ano passado, e a outras, e cada vez mais, iremos assistir nesta década apocalíptica.

Acredito piamente que não é fatalidade nascer-se físico, químico, médico ou jornalista, assim como se nasce zarolho ou talidomídico. Haverá sempre viabilidade, por um enorme esforço de reciclagem, de escapar aos crimes obrigatórios da profissão por uma boa e periódica lavagem de consciência.

Mas um tal esforço de resistência e revolta, de inconformismo e contestação, eu pergunto quantos irão manter-se firmes e levar esse esforço até limites de algum alcance prático. Enquanto a sociedade de consumo nos bandarilhar com as suas tentações de berliques e berloques, quem está disposto a perder o emprego, a seguir o desafio que o mensário Le Sauvage (Le Nouvel Observateur-Ecologie) na capa do seu número três provocadoramente lançava: «travailleurs de tous les pays, reposez-vous»?

Para mim a profissão de jornalista é uma sífilis tão vergonhosa como a profissão de sábio atomista, de químico, de médico ou de guarda de concentracionário.

Aproveito todas as ocasiões para o dizer e, pondo em cheque o emprego, pôr à prova a capacidade de tolerância e poder de encaixe da empresa a que me vendo.

Mas não vou por isso considerar-me herói, isento e de consciência limpa (para um ecomaníaco todos os problemas são morais). Ser jornalista é uma das formas mais sujas de cooperar com a Porcaria, daí talvez a necessidade de umas purgas cíclicas. Nessa qualidade, concorri descaradamente ao prémio da Gáslimpo com dezenas de artigos e nem falo das mirabolâncias necessárias para conseguir infiltrar a problemática ambiente nesta Imprensa lisboeta, sofrendo de virose desportiva crónica, reaccionária até à raiz e até nos espaços em branco.

Concorri porque precisava dos 10 mil escudos (hélas!), em grande parte para financiar as fotocópias daqueles artigos que a Imprensa recusa, que a Censura corta e em que tento avisar as pessoas do que as mata, de quem as mata.

Mas o distinto júri de ilustres diplomados em Meio Ambiente, entendeu dar os 10 mil escudos a licenciados (que beberam com eles mais uns uísques) e humilhar-me, castigar-me, insultar-me com três menções honrosas, como se uma não bastasse!

Extrairei todo o simbolismo e consequências deste «affaire» pessoal, politizarei a canelada e farei da vingança a Vingança. E macacos me mordam (antes macacos do que júris) se não farei deste « «affaire» meu justificativo de radical até à raiz!

Dificílimo, Sr Prof., será pois desarreigar-me desta subjectividade toda, deste ódio a quem mata ou autoriza e que é, em mim, o correctivo do imenso amor por toda a criatura viva do universo conhecido, incluindo os golfinhos e os extra-terrestres, única hipótese em que acredito para detonar a mutação de última hora, o milagre in extremis que pode ainda salvar o resto que resta disto: Utopia ou Morte?

Só os irmãos extraterrestres, que me consta não saberem nada de finanças, nos ajudarão a escapar ao segundo termo da alternativa.

Não creio haver nenhum homem de Bem, nenhum especialista portanto, mesmo um Sicco Mansholt da Física, da Química ou da Medicina capaz de ir tão longe (ali à galáxia da esquina) no abandono dos mitos em que o Establishment o enredou.

Pungwash e Menton - estou atento à Reacção dos Sábios e não descobri nenhum, nem Russell, nem René Dubos, nem Commoner, nem Ehrlich, nem, nem, nem, que tivesse tido o arrojo de questionar desde a raiz os fundamentos da porcaria. Daí que seriamente duvide da viabilidade de um diálogo, embora esteja sempre mais aberto do que uma porta aberta a todos os impossíveis e inverosímeis, incluindo esse.

Ou este: formar já hoje (ontem, se possível) uma equipa que ponha em marcha um JORNAL DO BIOCÍDIO - já tinha título, Terra Queimada - para informar as pessoas se afinal o que as mata é o vinho a martelo, se a radioactividade, se tudo isso e o resto. Se tudo.

Seu

Afonso Cautela

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(*) Este texto de Afonso Cautela, que o Afonso Cautela subscreveria com a mesma lata no dia de hoje, foi publicado no livro «Ecologia e Medicina», edição «Gazeta do Sul» (Montijo), 1977, por favor e gentileza do meu inesquecível e querido amigo Dr. Rocha Barbosa, a quem fiquei devendo mil atenções

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1-1 - <73-07-25-ie>quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002-scan

NOVOS ÓPIOS DO POVO (*)

25-Julho-1973 - Há muitas maneiras de distrair e adiar. Já nem só a religião, hoje, tem o honroso monopólio de ser o ópio do povo. A necrose de certos ideólogos, alheios à experiência insensíveis à história e aos acontecimentos, desempenha o mesmo papel alienador dos órgãos que por vocação e sistema cultivam a Frivolidade alienadora.

Em suma: a ideologia hoje também poderá desempenhar (e desempenha) um papel alienador, se o ponto de partida para a especulação política não for a consciência ecológica e a perspectivação do Mundo a partir do que prioritariamente importa: a Biosfera desse Mundo.

"Simplesmente Maria" é, para o ideólogo, um instrumento de adiamento e distracção. Pois é: que habilidade há em reconhecê-lo?

Mas tanto como a fotonovela, são os esoterismos concretistas e experimentalistas. São os críticos presencistas e estruturalistas. São os novelistas realistas e existencialistas. São todos os eventicistas que se divertem na lua e nas nuvens, quando o problema é a prazo, está na Terra e chama-se Biosfera da Terra.

A ciência especulativa e pulverizante (a tendência sintomatológica da ciência), a tecnologia escravizante dos monopólios, as indústrias homicidas por estrutura e definição, as biocracias e os biocídios são hoje o ponto central da estratégia política planetária, o centro do problema. E ópio do povo tudo o que distrai, adia, desvia o povo desse problema central.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-2 - <73-07-26-ie> quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002

ECOLOGIA É QUESTÃO DE SENSIBILIDADE: OS NIILISTAS POR COMODISMO (*)

26-Julho-1973 - Creio que foram os dadaístas primeiro e certo tipo de surrealistas depois que puseram de moda, nos meios intelectuais e boémios, um novo pirronismo ou niilismo, que na esfera moral se traduziria por uma cínica indiferença - quiçá desespero - em relação à vida e à existência, aos valores da vida e da existência, quase sempre confundidos esses valores com "moral burguesa" (sic, hélas!).

Atitude mais snob do que verdadeiramente sentida, este cinismo nunca foi na prática o que se proclamou, mesmo quando alguns suicidas em gestos de humor negro colocavam dísticos humorísticos no seu próprio cadáver... No fundo, os super-homens que se diziam acima das tristezas, misérias e vanglórias humanas, estavam tão dependentes delas como os outros e temiam tanto como os vulgares mortais a doença, a morte, a dor.

O cinismo é sempre mais uma atitude intelectual do que um comportamento, uma prática.

Há também os desinteressados por angústia, mas esses diferem bastante do "niilista" profissional. "Não bato por maldade, bato por desespero" - dizia um personagem de Máximo Gorki.

Hoje, face à Ecologia e à moral exigentíssima que dela se deduz, surge inopinadamente uma nova onda de pretensos niilistas... por comodismo. E por ignorância, às vezes mesmo camelice pura.

Primeiro, confundem os objectivos últimos de uma ética ecológica com as vulgares medidas de prudência, prevenção ou profilaxia pessoal, com segurança egoísta ganha à custa da insegurança alheia; depois, vangloriam-se do que de facto não sentem: o desprezo que dizem ter pela morte, pela doença, pelo sofrimento, é apenas a mentira com que pretendem abafar a impotência perante um sistema homicida ao qual não vêm saída nem solução, e os hábitos mentais ou físicos que talvez saibam ruinosos mas dos quais, ainda por óbvio comodismo, não querem abdicar nem que os matem.

"Quero lá saber se o tabaco provoca o cancro. Hei-de fumar o que me apetecer e ninguém tem nada com isso. Que não me venham com sermões... ecológicos".

1º - É ridículo confundir naturista com ecologista. O naturista foi talvez um precursor mas encara os factos com um certo romantismo e fala de Natureza onde tem que se falar de Biosfera;

2º - A Ecologia não predica nada e muito menos dá conselhos anti-tabágicos. Num contexto inteligente, aliás, o tabaco desempenha um papel de parcela a somar a muitas outras e no que respeita aos seus "perigos" nem são tantos como a propaganda insinua; há pelo menos centenas de outros poluentes tão criminosos e perigosos como esse mas de que raramente se fala;

3º - Se é verdade que a Ecologia parte de um respeito básico pela vida e por todas as formas e espécies vivas, não o faz por humanitarismo caritativo, mas por sensibilidade estética, por prazer cientifico, por amor à imaginação e aos valores que efectivamente se opõem à podridão dos consumos & companhia.

Ecologia é sempre mera questão de sensibilidade. O ódio ao ruído é apenas ódio à fealdade, à porcaria, a tudo o que é inestético, grosseiro, violento, estúpido. Não se preconiza a saúde das populações por amor cristão (sic) às populações, mas porque a doença é feia, grosseira, estúpida, violenta e inestética; e também por ódio ao homicídio sistemático que a Industriocracia exerce sobre as populações. É a sua ignorância, a sua alienação, a sua cumplicidade na porcaria que faz correr o ecomaníaco e o revolta. Ainda e sempre, por uma razão meramente estética.

Possivelmente ele acredita tanto nos homens como nos cães, mas é mais normal e menos aberrante gostar pessoas do que de cães...

4º - É contraditório atribuir-se ao ecologista a mania da predicação, quando o político, o economista, o moralista, o educador, o pai de família é que, normalmente, leva a vida a predicar; pois não se preocupam todos muito com o futuro dos filhos e com o futuro da Nação?

O tal cínico que diz não compartilhar os anelos humanistas da Ecologia - e que fumará até morrer, só por birra, mesmo que o tabaco provoque o cancro... - de certeza que faz projectos para si e para os seus rebentos, de certeza que lê o Expresso (Bolsa, Economia, Desporto, culinária), de certeza que acredita num mundo estável onde há-de comprar um terreno e uma casa (de campo, de praia), de certeza que aderiu a um partido político, de certeza que já se informou sobre o próximo plano quinquenal, de certeza que leva muito a sério o desenvolvimento económico, etc , etc.

No fundo, burguês e conformista, eis o cínico que diz estar-se nas tintas para o apocalipse ecológico.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-1 - <73-08-05-ie> quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002-scan

 

AUTOCRÍTICA: PELA lª E ÚLTIMA VEZ, A ECOLOGIA NÃO TEM RAZÃO (*)

5/Agosto/1973 - Pode dizer-se que dos argumentos utilizados pelo industriocrata contra a Ecologia, um único tem permanecido, até agora, sem resposta.

É a primeira e última vez que a Ecologia cede. É, digamos, o seu calcanhar de Aquiles, o seu ponto fraco, a sua até agora insolúvel contradição.

De facto, não pôde até agora a Ecologia conciliar a sua lei suprema, o seu dogma - o respeito pela vida e por todas as formas de vida - com dois factos indiscutíveis: a luta das espécies e a explosão demográfica.

Baseados nestes dois factos, os inimigos da Ecologia podem então gritar:

"Se a explosão demográfica é a maior ameaça contra a sobrevivência da Biosfera, tudo o que se fizer para evitar a procriação (evitar a vida) e a proliferação (todas as formas de biocídio) vai no sentido de "evitar" ou retardar a catástrofe demográfica.

Portanto - é ainda argumento do burocrata/ industriocrata - a poluição e demais formas de Biocídio ajudam "antecipadamente" a resolver a crise resultante do "boom" demográfico previsto e com que nos ameaçam os neomaltusianos".

Este é de facto o argumento para o qual a Ecologia ainda não tem resposta. A dúvida que permanece sem se vislumbrar nenhuma certeza. Como sem resposta permanece o mais decisivo problema da Ética planetária, de política Ecológica: o aborto e sua licitude.

Por outro lado, se as próprias espécies lutam entre si, assegurando assim um "equilíbrio", como pode vir a Ecologia, em nome desse mesmo equilíbrio e de uma moral humanista, preconizar que as espécies não se exterminem por todas as formas de Biocídio conhecidas?

Outra contradição que a Ecologia não pode, por enquanto, resolver.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-6 - <73-08-14-ie> quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002-scan

ECOLOGIA QUER DIZER REVOLUÇÃO (*)

14/Agosto/1973 - Enquanto editorialista do "Diário de Lisboa", José Saramago levantou na coluna Opinião questões do fundo ecológico, com uma lucidez e pertinência não muito vulgares nas tribunas políticas da nossa Imprensa.

Por isso mesmo a sua opinião se torna representativa da "desconfiança" que aos portugueses tem merecido a problemática ecológica (mesmo quando adregam de se interessar por ela), principalmente se esses portugueses fazem questão de ostentar um engagement político, bem definido à esquerda ou à direita.

Geralmente não se sai de um destes equívocos: ou se acusa a luta ecológica de reaccionária (se o ponto de vista é esquerdizante) ou se recupera sob a forma de "política do ambiente" (se é das direitas que parte a iniciativa).

Ao comentar um texto de José Saramago publicado no «Diário de Lisboa» em 14 de Agosto de 1973, escolhi-o pela representatividade do seu autor - cuja independência política ficou bem patente nos comentários que escreveu naquele jornal ao longo dos anos - e para revelar até que ponto um pensamento crítico de esquerda não ultrapassa, - se a matéria é Ecologia - os equívocos comuns às tácticas conformistas e reformistas da antipoluição, incapaz de compreender o abismo que separa a revolução ecológica da reacção antipoluente.

É o seguinte o texto de José Saramago que me permito comentar depois:

"Dizem as agências noticiosas, fazendo fé nos diversos sinais de carência que por toda a parte avultam e certamente se irão multiplicando, dizem essas agências que por volta de 1980 o mundo todo corre o risco de um grave colapso, naturalmente muito mais grave nos países industrializados, pois as fontes de energia estão em processo de esgotamento acelerado. Há quem fale até na ameaça de retorno a uma nova Idade Média, o que acabará por roubar todas as esperanças àqueles países que, atrasados ou em cansativa via de desenvolvimento, verão os poderosos açambarcarem as últimas e preciosas reservas, ficando assim para as calendas ou para o dia de S. Nunca à Tarde uma promoção que já hoje se considerava duvidosa. Quem sabe se por este mesmo argumento da escassez de energia não imporão os países ricos um novo factor de atraso aos países pobres? Quem sabe se todo este alarme não é também uma interessada modalidade de alarmismo?"

Finda a transcrição, passo ao comentário:

Que o sistema já recuperou o alarme ecológico, é evidente, é patente. Os maiores poluidores são os primeiros a falar da luta contra a poluição.

Bob Dylan blasfema contra o capitalismo em espiras gravadas de que o capitalismo aufere lautos lucros. E depois? Veja-se o comércio praticado com literatura, arte, filosofia e até política de oposição, e chegar-se-á à mesma conclusão: o Sistema, lépido, tenta deglutir o que lhe é, ab initio, indigesto.

MANOBRA DE ALARMISMO?

O Sistema, pois, recupera a Poluição. Mas não a Ecologia. A escassez de recursos há-de acabar primeiro com ele, do que ele consiga esmagar os que até agora tem explorado. Poderia ser a escassez de recursos uma "manobra de alarmismo"? Vou tentar provar que é tarde demais para ser manobra.

Entretanto, cabe perguntar: porque se usa de tal e tanta má fé com o alarme ecológico (que é única e simplesmente a voz da realidade, da verdade) e não se usa da mesmíssima má fé para com a mentira, os mitos, crimes, sofismas, duplicidades, hipocrisias e contradições em que o reformismo do Sistema é mais que fértil, é apoplético? Porquê?

Se os países ricos o foram até agora por sistemática pilhagem e exploração daqueles que os calmos e objectivos economistas classificam de pobres e subdesenvolvidos quando não de atrasados, é óbvio que tudo farão, que tudo continuarão a fazer para prorrogar essa pilhagem e essa exploração. Não me parece necessário ser universitário para chegar a tal brilhante conclusão.

Não se compreende, então, porque haviam os desenvolvidos de precisar agora de um argumento "novo" - a escassez de recursos - para continuar explorando, e para justificarem, pela primeira vez, uma exploração que sempre praticaram sem justificações: a céu descoberto e à tripa forra, como convém.

Quando o forte explora o fraco (sempre com o beneplácito de ilustres universitários em Direito, Economia, Política ou qualquer outra avançada ciência de que os desenvolvimentos têm o monopólio), não me parece que o forte tenha necessidade alguma de dar ao fraco satisfações, razões, motivos... lógicos da espoliação.

A que viria pois uma manobra, agora, em 1973?

ESCASSEZ DE RECURSOS

Se a campanha de Imprensa ultimamente activada sobre "escassez de recursos" deve ter uma segunda intenção velada, inconfessável - e de certeza a terá, pois o Sistema não dá ponto sem nó, nada faz às claras que não seja para obter finalidades ocultas - não vejo, porém, por inútil, que essa intenção seja a manobra de (intensificar o) alarmismo referida por José Saramago na sua «Nota do Dia.»

É que nem sequer para pôr fim à política de proteccionismo - sob os rótulos de "ajuda ao Terceiro Mundo" - necessitaria o Sistema de tão balofo como inútil argumento. A ser isto - pôr fim à tal ajuda que foi sempre mera demagogia e mera propaganda - o que pretendiam, a verdade é que o podiam perfeitamente fazer sem necessitar de campanhas.

A Má Fé é um princípio ou método perfeitamente lícito e necessário: é a condição sine qua non da lucidez, a única arma para impedir que o Sistema nos enfie todos os barretes que pretende: sem dúvida, e não cansa repeti-lo. Mas neste caso dos recursos - e da campanha que decorre - creio haver um fundamento para a berraria e para o alarme.

É que, mesmo explorando, mesmo prosseguindo a exploração, mesmo levando ao paroxismo os tumores de fixação, mesmo activando as escolas de mergulhadores para ir procurar nos fundos marinhos aquilo que já esgotaram no solo terrestre, mesmo mobilizando toda a mitologia da produtividade e dos rendimentos P.N.B. (aplaudidíssimos por todos os doutores em PNB aqui do meio), os potentados, os donos do mundo e seus conselheiros universitários estão mesmo à rasca porque já não chega.

A Ecologia mantém a calma e sorri. Porque das duas máquinas postas em movimento, nenhuma delas pode ser parada sem que fragorosamente vão colidir: a da produtividade histérica e a do histérico consumismo, a da exploração e a do desperdício.

O fim, as tripas do Sistema estão à vista e chamam-lhe Poluição. E berram de medo, pois claro, porque os galões de gasolina lhes estão a minguar.

Os prognósticos mais pessimistas estão ainda bastante longe dos factos, e embora a berraria já tivesse começado, os recursos findarão muitíssimo antes do que os economistas lhes fazem crer, pois também os economistas estão em riscos de ir todos para o olho da rua, logo que os patrões saibam que estão todos num beco sem saída.

Por exemplo: mais do que o aviador ou o astronauta, o mergulhador(1) constitui hoje uma classe profissional de elite que tende a ser, num futuro próximo, a mais bem paga. Mas mesmo paga a ouro, haverá cada vez menos quem lá queira ir: mesmo com vocação suicida.

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(1) - Escolho, para exemplificar, este parâmetro no factor humano, por ser o humano que o Economista subestima e brutalmente despreza.

MÃO-DE-OBRA ESCRAVA

Resulta daqui: mesmo na hipótese mais optimista a de haver ainda muito petróleo para sacar dos fundos marinhos - o custo desta explorarão acabará por se tornar ruinoso. O próprio limite da mão-de-obra escrava (vigente no ouro da África do Sul ou... na construção civil de Lisboa com a importação de cabo-verdianos... ) está prestes a romper-se.

No caso do mergulhador, há a hipótese de fazer dele (como do astronauta ou do aviador) um robô, um completo alienado, mas um escravo propriamente dito... é mais difícil. E não se paga a um escravo ordenados de ministro: No caso do mergulhador, é a própria sofisticação dos métodos de trabalho engendrados pelo Sistema que o levará à Ruína, pois acabará por não ter quem pura e simplesmente o sirva.

Não contando com os outros factores de ruína (a contradição já enunciada entre desperdício histérico e produtividade histérica; e o gigantismo, fracasso de que o ruinoso "Concorde" é o símbolo arquetípico) a Ecologia sabe que também por ali, - pela mão-de-obra e pela sofisticação da mão-de-obra - o Sistema está a dar os últimos ares das suas gibóicas digestões. E que nem a demagogia da antipoluição o salvará, já que é precisamente nessa que ele definitivamente se afundará. Por esta coisa muito simples, que só um simples de coração sabe, mas os doutores todos ignoram: supondo que de repente todos os focos de poluição cessavam de poluir, a situação de colapso não se alterava um ápice. Porque o colapso e ao nível de recursos e não (só) de poluições.

Os odres encheram-se demais: é tudo o que a Ecologia constata. E agora gritam, porque se lhes vai a chucha. Nada mais humano. Porque há-de haver manobra alarmista?

NÓS, OS DO TERCEIRO MUNDO

Nós, os do Terceiro Mundo, porém, temos a ciência da Miséria. Estamos diplomados em escassez. Ouvir falar do que falta, faz-nos sorrir. Aprendemos a subsistir nas secas e no subdesenvolvimento. MAIS: APRENDEMOS A NÃO TER PROMISCUIDADE, MESMO SEM ÁGUA. Alguma vez, em Cabo Verde, por exemplo, houve epidemias causadas pelo subdesenvolvimento? Onde irá então parar esse famoso argumento que o subdesenvolvimento é sinónimo de terríveis epidemias? Quando o branco entra a matar, a chacinar, a disseminar os vírus da sua baba e da sua porcaria, dos seus dejectos,(1) claro, é fatal: os subdesenvolvidos entram em crise de saúde. Não é apenas o subdesenvolvimento que provoca a doença: é as humilhações infligidas à dignidade de cada povo - com as suas economias de subsistência completamente destroçadas, sua cultura, sua personalidade destruídas, é isso que provoca as endemias. É o etnocídio que dá origem às doenças do desenvolvimento, e não só a miséria económica. É acima de tudo a miséria moral infligida a um povo que o torna presa das doenças endémicas. Ser espezinhado pelo porco branco, pelo canibal civilizado, isso é que é a doença.

Somos nós, pois, que temos a técnica da resistência passiva. Quando a eles lhes faltarem as orgias e os uísques, nós sabemos até onde é preciso cavar para conseguir água pura. Será o momento da nossa sobrevivência e da nossa vingança. Quem aprendeu a sobreviver debaixo das bombas americanas, saberá sobreviver quando as bombas e a gasolina dos helicópteros chegar ao fim. Nós, índios americanos, sabemos onde ir desenterrar venenos letais e curativos, quando eles já nem osso tiverem que roer. Mesmo que nos tenham exterminado a todos, saberemos renascer.

A esta hora, apoplécticos, eles estão consultando os seus potentes computadores, os seus economistas de estimação, que, desta vez, mastigam em seco. Os primeiros a marchar para a cadeira eléctrica, serão essas bruxas obesas e falidas do tipo Kahn. Engordaram que nem porcos, raciocinam como jibóias, emitem guinchos como os macacos.

O socialismo vigora há mais de meio século e, tal como o cristianismo em dois milénios, soube apenas dar o beneplácito aos fortes e aos fracos as palavras de consolação que os resignassem das bordoadas.

Falidos os suaves socialismos - também por apoplexia de fartura - só na Ecologia, quer dizer, na Revolução - reside a derradeira e decisiva esperança de ver rebentar os odres de banha, as barricas de proteína de todos os magarefes, que, doutorados nisto ou naquilo, regem este mundo.

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(1) E das suas vacinas!

ECOLOGIA É A ESPERANÇA

Só a Ecologia é a Esperança, porque lhes retira o Poder: quer dizer, a chispalhada, o porco na brasa, a suculenta churrasqueira, o empanzinamento de combustíveis & etc. Vamos ver agora quem é capaz de sobreviver na penúria.

Quando eles gritam que não têm gasolina e começam à estalada, gozamos nós, os subdesenvolvidos, o momento feliz em que nos veremos livres das suas latas invadindo o mundo, dos seus claxons, das suas motorizadas, do seu mau hálito, do seu mau cheiro.

Quando berram que lhes vai faltar energia, antegozo o momento em que verei as centrais nucleares todas no prego, e livre a humanidade dessa aberração que só poderia ter nascido nos cérebros sacrossantos de eminentes sábios que do nazismo hitleriano se refugiaram para criadas de todo o serviço no nazismo americano.

Para maior esperança e gozo do meu coração de português, é justamente agora - quando o panorama mundial se apresenta com este lindo aspecto - que a febre economista sobe ainda mais alto em Portugal. Claro, à cabeça o berço do funeral tecnocrático. Mas novas revistas, novos grupos de economia se anunciam, o frenesi entra no auge com o não sei quantos plano de Fomento, os terminais oceânicos, a industrialização acelerada.

Acelerai, irmãos, acelerai, que a gasolina está no fim e já falta pouco. Eu bem os oiço, aos futuros economistas da Nação, aqui pelas ruas, praticando nas suas motocicletas os motocrosses da sua virilidade duvidosa, bem os oiço agora na idade rósea dos 18, acelerando, acelerando, acelerando, naquele ruído típico dos aceleradores e que é ipsis verbis, igual ao de uma intensa diarreia pela pia abaixo. Tais crianças hão-de dar belíssimos economistas à Nação, dirigentes de empresas, e, de certeza, lindíssimos políticos do Ambiente e simpáticos deputados liberais.

Estão, com certeza, suficientemente cafrealizados pelo distinto ruído das suas queridas motoretas, para poderem ascender a postos de tanta responsabilidade

Perante este quadro paradisíaco, vem agora o meu amigo José Saramago sugerir que essa história da "escassez de combustíveis" é boato, alarme só para alarmismo.

Não queira tirar-me, amigo Saramago, a maior alegria da minha vida e a única esperança deste subdesenvolvido que compartilha com alguns milhões a sorte de pertencer aos espoliados do Terceiro Mundo, via Ecologia, evidentemente.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-6 - <74-01-03-et> terça-feira, 3 de Dezembro de 2002-scan

CONTRA O BIOCÍDIO E EM DEFESA DAS ESPÉCIES AMEAÇADAS (ENTRE AS QUAIS O HOMEM) (*)

Respondendo às perguntas formuladas pelo "Diário do Alentejo", a propósito da colecção "Dossiê Zero", lançada na Editora Arcádia em Junho de 1973, o autor afirmou o que parcialmente se transcreve por se supor de interesse para a matéria versada neste livro de ensaios sobre Ecologia Humana em Geral e Política em particular.

[ 3-1-1974] - Estou tão pouco habituado, que me parece quase uma história fantástica esta possibilidade de realizar editorialmente o que constitui hoje para mim uma obsessão de todas as horas, de todos os dias, de todos os momentos: o Biocídio e a Ecologia.

Acredito de tal maneira na importância destes problemas que vou ao ponto de acreditar que todos compartilharão desta minha ideia e que a colecção terá de ser comercialmente um êxito... É que as editoras normalmente só acreditam nos assuntos novos depois de outras os editarem com resultados satisfatórios. Uma colecção de Ecologia ainda não existia entre nós mas era inevitável.

Uma biblioteca fundamental da próxima década, sobre o que nela será decisivo para a sobrevivência do homem e do globo que habita, uma - digamos - biblioteca do Apocalipse, era fatal que aparecesse. E apareceu.

"Dossier Zero" - colecção para os que estiverem vivos daqui a dez anos - é assim um caso raro, se não mesmo inédito no panorama editorial português: é um desafio e uma aposta que a própria editora está disposta a compartilhar. Identidade absoluta de intenções entre organizador e editora.

"Dossier Zero" não será mais uma colecção, sem engagement polémico, sem programa de trabalho, sem estratégia. Corresponde a uma linha de pensamento - abjeccionista por um lado, neo-utópica por outro - que sem ser restritiva é programática, sem ser ortodoxa é rigorosamente definida e tem um rosto que se expõe às críticas.

Para que se tornasse possível uma colecção de tais características era necessário haver alguém que acreditasse nessa linha de pensamento e com ela tivesse profundas afinidades. Natália Correia foi essa pessoa e, embora a colecção seja de minha inteira responsabilidade, a ela em grande parte se ficará devendo.

Fazendo da Ecologia ponto de partida e de confluência para as mil direcções do realismo fantástico, "Dossier Zero" está efectivamente a pisar terreno virgem na lusa bibliografia. Ninguém acreditava ontem que houvesse público para os temas fundamentais do próximo futuro da humanidade. Mas poucos meses bastaram para que a Imprensa vulgarizasse esses temas até ao lugar-comum. É possível que agora - desbravado o caminho - surjam muitas colecções pretendendo o mesmo.

Há três anos, quando organizei, na colecção Cadernos do Século, o volume sobre O Suicídio da Humanidade, não só recebi vários sorrisos de troça por causa desse título como levei recusas sistemáticas de várias editoras que contactei na vaga esperança de encontrar alguma capaz de se interessar pela Ecologia e pelos temas prospectivos.

Riam-se da Prospectiva, da futurologia só se conhecia Herman Khan e portanto assimilava-se Prospectiva com militarismo norte-americano. Enfim, a confusão habitual da ignorância, que por aqui se jacta de sábia.

De tal modo os acontecimentos se aceleraram que a estratégia editorial do nosso tempo tem fatalmente que ser de antecipação e prospectiva. Há que acreditar nas novas ideias quando elas ainda não são aceites, sob pena de uma irremediável ultrapassagem. Há, acima de tudo, que enfrentar tabus, desmontar sofismas e mitos, atacar dogmas frontalmente. Vivemos um tempo terrível de mitos e sofismas em nome da ciência e da filosofia científica. O terror industrial, científico e tecnológico é todo baseado numa rede de sofismas. Há uma imensa tarefa de lucidez crítica (científica, a única cientifica) e de imaginação criadora na revolução dos conceitos que se transformaram, mesmo nas cabeças das elites, em pré-conceitos e pré-juízos.

Todo esse propósito ambicioso se contém nesta colecção, por isso esta colecção será polémica e um desafio a todos os imobilismos. Acredito, no entanto, que vem na hora precisa e que obterá dos leitores um tão grande entusiasmo como aquele que ponho a realizá-la. Por amor da vida, de todas as formas de vida que esta civilização homicida ameaça a exterminar nos próximos e decisivos e apocalípticos dez anos.

D.A. - Acusam-te de seres pouco pacífico e de andares sempre em rixa com as pessoas ilustres, diplomadas. É verdade?

A.C. - Mais do que verdade, é verdadíssima.

De ha um século a esta parte, também têm acusado o índio americano de pouco "pacífico" frente aos pacificadore ocupantes que lhe querem tratar da saúde. Também se pode ler nos jornais como os negros dos guetos andam sempre a provocar distúrbios e andam sempre à pancada com as pessoas de bem, com a respeitabilidade e a honra, a ordem, a virtude (seja ela à esquerda ou à direita). Também acusam certa juventude minoritária de «delinquência» e malvadez, a "pior" juventude, porque a das motorizadas é considerada boa pelos próprios papás, de boa pinta e futuro. Também acusam os ciganos de indesejáveis.

Enfim, acrescenta agora os exemplos que quiseres. Parece-me que estou em boa companhia com esses desordeiros e marginais, desclassificados e segragados, revoltados e "violentos".

Vou contar-te uma fábula.

As ruas de Lisboa, como se sabe, são apenas destinadas a cães e automóveis. Acontece que, estacionados nesse já de si restrito espaço vital, há sempre alguns homens felizes ocupando com as suas gordas barrigas o espaço que podia servir a três ou quatro pessoas, normais de barriga. Pois vai um magro cidadão passar, a caminho do emprego, sem querer alterar a ordem estabelecida, pede desculpa e licença mas acontece que a tal barriga lhe dá na magreza um encontrão, uma canelada, uma pisadela.

Acontece que o magro leva a pisadela, a canelada, o encontrão e ainda leva uma torrente de impropérios: o agressor é que ainda prega um sermão de moral ao agredido e lhe oferece cadeia.

Esta cena, que se pode repetir em centenas de variantes, faz parte da psicopatologia da vida portuguesa. Faz parte da nossa doença. É semelhante a todas as situações que no mundo ocorrem onde a minoria sofre a prepotência da maioria e é a maioria quem tem razão.

A fábula do gordo e do magro pode aplicar-se com propriedade à vida intelectual portuguesa, onde o magro, além de levar os encontrões todos que o gordo lhe apetece, ainda leva sermões de moral e prédicas de virtude. Faz parte da nossa doença. Constantemente em legitima defesa , é muito possível, pois, que me acusem de andar sempre ao ataque.

A história da independência e concomitante resistência é semelhante em todo o mundo. Tenho o meu Vietname, é disso que me acusam, quantos aqui desempenhara o papel dos que sobre ele jogam as bombas: o editor revisionista, o semanário da Amadora, o escritor neo-realista, o filósofo anti o crítico estruturalista, o profissional da publicidade, o júri dos poluentes, o lírico de Melides, só não me jogam as bombas que não podem. E se me defendo, dizem que ataco. A fábula repete-se, quase diariamente.

D.A.- O primeiro volume da colecção "Dossier Zero" intitula-se "A Conferência do Terror" e refere-se, creio, à conferência sobre Ambiente realizada em Estocolmo por iniciativa da ONU. "Terror" porquê?

A.C. - Porque efectivamente o Mundo em que vamos meter os nossos filhos será o Mundo do Terror generalizado.

Aquilo que foi um surto localizado (e muito explorado posteriormente pela propaganda israelita) na Alemanha hitleriana - a ciência e a técnica ao serviço dos extermínios sistemáticos, maciços e cientificamente organizados - tornou-se um fenómeno mundial. Deixou de haver arame farpado, porque deixou de haver fronteiras para o Ter ror, quer dizer, para a violação sistemática e maciça e organizada (programada) dos direitos humanos, entre os quais direitos temos a sobrevivência como primário.

E já não falo dos que directamente promovem, executam o extermínio. Seria demasiado fácil apontar os executantes.

Falo das superestruturas ideológicas – cientistas, filósofos, economistas, técnicos, especialistas - que servindo o terror tecnológico ou tecnocrático, usam as suas posições privilegiadas para encobrir os abusos que a esse mesmo terror se devem.

E já nem falo dos Panglosses que pretendem encobrir com discursos de laracha optimista a gravidade e extensão do ecocídio. Falo dos que se dizem abertos aos problemas do Ambiente para melhor os escamotear e deles distrair as atenções.

O terror hoje é o mais completo e totalitário porque encoberto por aqueles que o promovem: cientistas e arredores.

De toda a mitologia que nos escraviza, a rede de sofismas arquitectados em nome da ciência é a mais fantástica máquina de mentiras e de fraudes que já houve sobre a terra. Desafiar esses tabus é lavrar a sentença de morte. Resistir neste Vietname é a atitude suicida por excelência. A faina mais urgente e necessária ao humanista contemporâneo é assim a mais difícil e arriscada.

Desordeiro, indesejável, violento, será assim o que resiste, o que estraga esse jogo e denuncia essa conspiração, o que se defende do terror generalizado. A "violência" individual - o suicida, o uxoricida, o homicida, o fratricida, o parricida, o matricida, etc - é sempre resposta às tensões insuportáveis impostas ao indivíduo pelo terror colectivizado: do ecocídio ao biocídio, dos etnocídios aos genocídios, esse terror hoje tem nome, forma, rosto e contornos muito precisos. Por isso a Conferêcia de Estocolmo foi, rigorosamente, "a conferência do terror", do terror ambiente.

Quando ilustres economistas do nosso mercado, ou ilustres críticos, ou ilustres líricos, ou ilustres políticos - sempre ilustres servidores do terror estabelecido - me acusam de violência, mais do que verdade é verdadíssima. É a verdade de todos os que respondem, pelo suicídio, pelo homicídio, pela revolta às insuportáveis tensões que esses ilustres todos fomentam e alimentam, fomentando e alimentando o mundo do terror que hão-de dar aos filhos deles e, o que é pior, aos nossos.

Só estes serão os definitivos juizes. Só deles espero o juízo que não espero hoje de nada nem de ninguém, neste país, neste mundo, neste universo onde a absoluta solidão é o preço a pagar pelo amor a todas as criaturas vivas do universo.

Por isso "Dossier Zero" ë uma colecção para amanhã, para os que amanhã forem os sobreviventes da catástrofe ecológica. Se os houver, a colecção é deles. Não me importo absolutamente nada o que no presente façam para a destruir e me destruir.

Depois de Estocolmo, a contagem do tempo começou a fazer-se de maneira contrária à clássica. Dantes, partia-se de zero e ia-se até ao infinito. Agora, a contagem é para o fim e em vez do Ano 2 000 dos tecnocratas, o número sigla passou a ser 1 ou ano zero.

Daí o titulo da colecção que começa com um volume consagrado à conferência de Estocolmo e daí que a referida conferência se chame de terror.

D.A.-O título dessa colecção faz-me lembrar o de uns cadernos que publicaste em 1957, cadernos Zero, se não estou em erro. Mero acaso ou corresponde essa coincidência de títulos a uma intenção?

A.C. - Foi um acaso mas que me entusiasmou.

De facto, gostaria de acentuar a profunda continuidade de pensamento que existe entre as preocupações desses cadernos, desse tempo d'A Planície e as que hoje se reflectem numa colecção como "Dossier Zero".

Interessa sublinhar essa fidelidade de 15 anos, especialmente para responder aos que me acusam de oportunismo ou de seguir uma moda.

Importa salientar que entre o franciscanismo d' A Planície muito de panteísmo e de ateo-teísmo à Pascoaes, com muito de Walt Whitman, com muito até de Thoreau, e a monomania ecológica que hoje me obceca há apenas uma diferença de grau, apenas uma maior consciencialização dos problemas e uma mais firme, mais inabalável firmeza nos pressupostos.

Abjeccionismo, surrealismo, existencialismo, realismo fantástico, naturismo, prospectiva, ecología, quem conheça um pouquinho a profunda razão de ser de qualquer dessas experiências, saberá que real, intensa, profunda afinidade as une e de como são apenas metamorfoses no tempo da mesma básica luta, da mesma radical incompatibilidade, consequências imediatas de uma mesma causa: o horror a esta civilização do terror que nos é imposta.

A simpatia pelas civilizações extremo-orientais, ou pelas culturas marginais e marginalizadas é apenas mais um passo na marcha de uma radicalização cada vez mais consciente dos problemas que aquele terror impõe.

Posso responder-te, pois, dizendo que entre o "Zero" de 1957 e o "zero" de 1973 apenas houve o amadurecimento de uma intuição - Utopia? Contra-Cultura? - ou as sucessivas metamorfoses de uma mesma conversão.

Aliás, é a firmeza inabalável dessa convicção que explica muitos eventos circunjacentes: a sanha dos ïnimigos (neo-realistas a um lado, estruturalistas e experimentalistas a outro) e a consequente posição de constante defensiva.

D.A. - Qual é a base documental da colecção "Dossier Zero"?

A.C. - Aquela que está mais à mão do jornalista: a informação diária mundial. Seleccionado, hierarquizado e analisado criticamente, o noticiário da actualidade fornecido pela Imprensa pode representar, ao fim de certo tempo, um manancial valioso, que fica perdido no mar sem fim de papel.

O meu trabalho e apenas o de "salvar" essa informação da sua efemeridade, retirando dela o que permanece de essencial (não gosto da palavra, mas não tenho outra). O meu trabalho é apenas o de seleccionar o que se apresenta caótico, inflacionário, indiscriminado na imprensa diária, trabalho portanto de ordenamento crítico, de estruturação, de síntese.

O fenómeno de congestionamento que se verifica em todos os espaços da sociedade de consumo (e que foi um dos que mais violentamente me atiraram para a percepção ecológica) é também extensivo à Informação. Afogam-nos, asfixiam-nos de papel. Somos diariamente bombardeados de notícias e já não distinguimos, no meio de mil, a que verdadeiramente importa e que é "notícia do futuro", quer dizer, que se tornará mais importante à medida que o tempo decorrer (quando o destino da maioria das noticias é perder importância quanto mais tempo decorre sobre a sua emissão).

A importância dos acontecimentos (logo das notícias) é considerada em função dos critérios políticos, diplomáticos de curtíssimo prazo, - esses, sim, oportunísticos no sentido mais rigoroso da palavra - e o que a colecção Zero pretende é avaliar os acontecimentos em função da sua importância potencial, logo em função de um critério prospectivo, a médio e longo prazo.

Quando encarado da perspectiva Ambiente, o futuro pode assumir aspectos que vão do critico ao humorístico.

Quem estiver atento à Imprensa vai sabendo que todas as medidas de "ataque à poluição", na sua quase nula eficácia e no seu confesso reformismo, assumem aspectos ridículos se proporcionalmente comparadas à dimensão gigantesca e catastrófica dos danos e morticínios anunciados pela mesma Imprensa, danos e morticínios causados pela mesma poluição.

Do crítico e do humorístico, pois, terá esta colecção, que pretende ser um espelho do tempo (retrovisor e provisor) e um reflexo da história que - dizem, vê-se - está agonizante.

D.A. - Acusam-te de oportunismo, de teres escrito tanto sobre ambiente para ostensivamente concorrer ao prémio de 10 mil escudos instituído pela Gáslimpo. É verdade?

A.C. - Antes de mais, é verdadíssima. Depois quero agradecer aos amigos que manifestam tão zeloso interesse por mim e que não me perdoam.

Depois ainda, deixemos bem claro que o prémio da Gáslimpo era na importância de 10 contos, e que efectiva, ostensivamente concorri, mas que o júri entendeu dar o dinheiro aos doutores e licenciados, reservando-me a humilhação, o castigo, o ridículo das menções honrosas. Como o júri deliberou mês a mês, mas muitos meses depois do concurso iniciado, fui apanhado na armadilha e caí na esparrela até ao pescoço.

Total, literalmente bandarilhado, uma vez mais vítima cega da minha boa fé e da minha boa vontade em prol da comunidade humana e da sobrevivência dos compatriotas. Bem feito, trinta vezes bem feito. Durante 3 vezes, como se uma não bastasse, tive de suportar essa doce vingança sobre o meu trabalho, a minha boa fé e o meu ingénuo desejo de contribuir, de colaborar na tal "defesa do Ambiente". Tarde me apercebi que não interessava nada o Ambiente, pois outros factores estavam em jogo. Muitos outros, que são também parte do Ambiente e que fazem parte integrante da nossa Doença, do nosso lindo funeral.

Claríssimo, pois, o que sucedeu (clarinho agora, antes a ingenuidade cegou-me): só quem não está comprometido a nenhum nível com o Sistema dos biocídios – enquanto doutor, engenheiro, técnico, advogado, etc – através de qualquer providencial licenciatura pode assumir em relação ao Ambiente (mas só) a única posição possível que é também a mais "perigosa": radical, independente, inconformista, crítica e contestatária.

Só o autodidacta, o maltrapilho, o out-sider, o marginado, o resistente, o franco-atirador, o não licenciado, o poeta, oferece verdadeiro perigo à demagogia e aos demagogos da poluição, que falam de poluentes unicamente para industrializarem os antipoluentes.

Um júri de poluentes está-se a ver que iria premiar artigos sobre poluição do mar costeiro pelos hidrocarbonetos e antipoluentes respectivos. Eu sabia que era assim e oportunisticamente não escrevi nem escreverei sobre poluição do oceano costeiro, sobre hidrocarbonetos, a não serr que me mandem em serviço profissional.

Se ostensivamente me fiz aos 10 mil escudos do concurso, foi porque precisava e preciso do dinheiro para pagar fotocópias dos artigos que, em legítima defesa, nenhuma imprensa publica (depois de atacar) e que tenho de andar distribuindo pelas portas prevenindo as pessoas do que as mata e de quem as mata. Isto não merece prémio. Merece, sim, o castigo de 3 menções honrosas.

Quem divulga o biocídio, merece lindo funeral...

O "prémio" que tive, pois, foi mais uma lição mestra que me ensinou aspectos ainda para mim desconhecidos, do ambiente intelectual luso.

Outra lição (mestra) foi o ataque do camarada e lírico Eduardo Olímpio, como se não bastassem tecnocratas, biocratas, burocratas.

Pilhas de pilhéria tem, pois, acusarem-me de oportunismo aqueles que, dentro do sistema, funcionários obedientes dele, falam de poluição hoje como ontem falavam e defendiam tudo o que exactamente a provoca e lá conduz: o sistema fundamentalmente homicida em que vivem e em que aceitam viver, sem protesto, sem resistência, sem oposição, sem crítica, sem inconformismo.

Procurando através dos tempos o que sempre me identificou com o anarco-pacifista, o poeta, o homem revoltado, o aprendiz, o herege de todas as ortodoxias, o franco-atirador, o panteísta, o naturista, o zoófilo - chego afinal à conclusão de que os júris poluentes não podem gostar nada disso.

Oportunistas, pois, foram, são e serão, os que falam de poluentes para industrializar os antipoluentes e os que falam de conservar a natureza para melhor perpetrarem os biocídios, ecocídios, genocídios, etnocídios, homicídios e etc de que são autores.

E isto que fique dito uma vez por todas.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, sob a forma de entrevista (a José António Moedas) foi publicado no "Diário do Alentejo", 3/Janeiro/1974, graças aos bons ofícios do meu querido e inesquecível amigo José António Moedas. Posteriormente, o texto seria transcrito no livro «Contributo à Revolução Ecológica», edição do autor, 1976 , nº 1 de uma colecção intitulada «Ecopolítica»

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1-2 - <74-02-15-ie> quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002-scan

ECOLOGIA É UMA FASE EVOLUÍDA DA MARCHA HISTÓRICA(*)

15/Fevereiro/1974 – "O organismo humano adapta-se a tudo".

Este é um dos sofismas mais perigosos com que a ideologia tecnocrática pretende impor os seus crimes e abusos. Não lhe bastando ter divertida a opinião pública o suficiente para que a maioria aceite ser "oferecida" em holocausto à sacrossanta mitologia do progresso tecno-burocrático, pretende completar o ciclo (vicioso) propondo como dado aceite e científico a capacidade do homem para se "adaptar a tudo".

Teríamos então, segundo esse sofisma, que a biosfera estaria em vias de se transformar na famosa tecnosfera.

Assim como se pode ir gradualmente adaptando o organismo a um veneno - defendem os biocratas - segundo o clássico processo greco-romano designado mitridatismo, assim a espécie humana se iria adaptando a tudo o que constitui manipulação da vida, dejectos, poluição, injecção de produtos químicos, enfim, a toda a tecnocratização da vida e dos indivíduos.

O ruído?

Se é verdade que os antigos dificilmente se têm adaptado às orgias de ruídos ensurdecedores que caracterizam os novos tempos, aí estariam as novas gerações rock, da "orquestra" electrónica, do bombo e da bateria a demonstrar que já saíram do ovo "adaptados" ao novo ambiente de super-ruídos.

Os adubos químicos na fertilização dos solos?

Pode acontecer, claro, que os organismos das anteriores gerações reajam mal e se sintam vulneráveis aos produtos alimentares desvitalizados, mas nada prova que as novas gerações não estejam a viver de perfeita (!) saúde, embora potencialmente desvitalizadas com toda a gama de químicas que, dos solos à manipulação industrial, interferem hoje no mercado dos alimentos e cancerizam o consumidor.

Quer dizer: para os idólatras do pan-industrialismo, a fé de que tudo será resolvido "pela ciência'' e -"pela técnica" - inclusive o biocídio perpetrado através da fonte da vida que são os alimentos - não admite argumentos ou respostas racionais.

Mas a resposta, o argumento racional é apenas um: a um processo de biocídio acelerado, há que opor, em nome da vida e da defesa da vida, uma ideologia que, a nenhum pretexto (incluindo o pretexto político ou económico) consente na tecnocratização da existência.

Não se trata, tão pouco, de entrar no jogo dos poluentes e dos antipoluentes. É uma questão de princípio, radical e radicalista.

FRANCISCANO E IDEALISTA

Se me perguntarem porque defendo a vida, permito-me responder que a defendo por vários motivos estéticos, políticos, económicos, utilitários e, só por último, morais.

Pode parecer franciscano e idealista a defesa da Natureza, das espécies e do homem.

E talvez seja.

Mas seria o argumento humanista, a razão ética, a última que invocaria.

Perante um bando de assassinos, de açougueiros assanhados, de caçadores rapaces, perante os tecnocratas ensandecidos e torpes, perante os que não hesitam em matar(dizendo que é para nosso bem) nada mais inócuo e ridículo do que replicar com um argumento de ética humanista...

Acima de tudo, é preciso afirmar a esplêndida gratuidade desta opção. Um ecologista é, acima de tudo, um esteta. Um sujeito de cheiro apurado (que detesta maus cheiros), que detesta a porcaria, o lixo, que detesta o dejecto e a imundície. E nem sequer por razões higiénicas bem respeitáveis. Mas simplesmente por razões de arte, de requinte, de "aristocracia" espiritual.

Isto deve ser dito e redito aos abúndios que classificam o ecomaníaco de "sensibilidade feminina" e de esteticismo, com o sublime descaramento que só o imbecil pode ter.

"Sem adubos nos solos nunca se chegará a ter alimentos para todos"... - argumentam os merceeiros de adubos.

E com adubos nos solos já porventura produziram alimentos para todos?

Venham merceeiros da direita, venham merceeiros da esquerda, o que a Ecologia Política tem para responder é sempre o mesmo: a ideologia da Natureza é uma questão de princípio e não admite pequenas ou médias poluições "como preço a pagar pelos benefícios (sic) do Progresso".

A ideologia da Natureza é uma fase evoluída da espécie e uma aristocracia espiritual. Está para lá de toda essa vadiagem que ainda não soube imaginar outro progresso que não fosse o das energias e indústrias hiperpoluentes.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-2 - <74-02-26-ie> quarta-feira, 4 de Dezembro de 2002-scan

 

SABEDORIA ORIENTAL E SOFÍSTICA OCIDENTAL(*)

26/Fevereiro/1974 - Impressionados com a voga que no Ocidente estão tendo os princípios da filosofia extremo-oriental (quase sempre deturpados), o ioga, o yin-yang, o karate e o judo, a macrobiótica zen e a acupunctura, alguns humoristas descobriram que, afinal, tudo isso não está muito longe da "ciência ocidental".

Pois não é verdade - dizem os humoristas - que o Zen-Tao preconiza viver de acordo com o princípio único e a ordem do universo?

E não é verdade que a ciência se jacta, também ela, de ter "pescado", de ter descoberto as leis que governam o universo, leis fixas e imutáveis, à luz da razão, etc., etc.?

Esquece o humorista muitas coisas. É que talvez ambos os lados aludam às leis do Universo, mas nem se trata do "mesmo" Universo, nem são as mesmas leis, nem, ainda que fossem, eram "respeitadas" da mesma maneira, pela sabedoria oriental e pela sofistica ocidental.

Como largamente explica a Medicina chinesa (precursora da Medicina Ecológica), o Universo não é uma abstracção matemática e as leis não são abstracções no sentido em que o são as leis cientificas: é o Cosmos, a realidade física (electro-magnética), o sol, a lua, os astros, o Mundo (com pólo norte e pólo sul, oceanos, continentes, mares, campo magnético, diferenciação geológica e climática, etc..) e o homem nesse contexto real, nesse meio ambiente, é o cosmos e o microcosmos, os ritmos e os bio-ritmos.

Ora isto nada tem a ver (nada) com as relações matemáticas estabelecidas entre certos fenómenos e constantes, a que os livros de ciência chamam leis.

Depois, a moral ocidental manda combater, dominar, subjugar e jugular a Natureza, e a isso chama progresso.

Enquanto a Medicina Chinesa e, de uma maneira geral, a sabedoria yin-yang apenas procura sintonizar o coração do homem com o coração da vida e da Natureza.

Se as cosmologias já são diferentes, as morais que presidem a estas duas mentalidades, culturas ou sistemas são opostas. Direi mesmo: irredutíveis.

A santa ciência moderna preconiza, no capítulo das relações do homem consigo, do homem com o homem e do homem com o Universo, a violência, a desintegração, o dualismo,o domínio sobre, o estar contra, etc..

A ética do principio único não só rejeita as morais adaptativas dos ocidentais (estilo pecado, crime, honestidade, maldade, etc. - que são normas de adaptação a determinados códigos e estatutos impostos pelo poder) como faz do princípio único - "viver em harmonia com a natureza sem nunca a violentar - a sua única ética. Digamos: a sua moral.

Temos assim duas atitudes diversas: a ciência ocidental assassina enquanto vai debitando os mais belos discursos sobre o bem, o belo, o bom, o perfeito, o conveniente, o conforme, o honesto, o educado, o polido, etc.. A outra cultura não discursa. Não é demagógica. Não precisa de encobrir com palavras (verbalismo) a falta de realidade e de sentido do real. Não recorre a expedientes superestruturais para iludir infra-estruturas contraditórias e portanto violentas. Porque não tem crimes a esconder ou disfarçar, a ética do princípio único é parca de palavras, dircursos, catecismos.

Ao contrário, a Sofistica ocidental ( fundamentalmente hipócrita), para se impor ao homem contra o qual está, tem de conduzir fatalmente ao crime, à violência, à distorção (tortura?). Porque é de raiz contra o homem e contra o harmónico entendimento do homem com a Natureza, será verborreica e demagógica.

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-2 - <74-03-14-ie> quarta-feira, 4 de Dezembro de 2002-scan

AUTOCRÍTICA DE UM CERTO NATURISMO (*)

14/Março/1974 - Não tendo o monopólio da virtude, a Resistência pratica erros e labora em equívocos.

Um dos seus maiores "handicaps" é ignorar-se a si própria, é não se dar conta da unidade que existe entre movimentos trabalhando na ignorância uns dos outros mas que visam o mesmo objectivo: a destruição da ordem tecnoburocrática, biocida e ecocida, a implantação de uma civilização humana e do humano.

Em 1949, o naturopata espanhol José Castro publicou o livro «Los Errores del Naturismo», com o qual muito contribuiu para fazer progredir um movimento que estava estagnando num beatismo entre zoofilista e crudivorista.

Não quer dizer que daí para cá as coisas se tivessem passado de maneira muito diferente - mas a autocrítica é sempre estimulante porque contribui para um movimento se depurar. Se for feita a nível de método, evidentemente. Nada progride, se não escolhe o método, a via correcta por onde caminhar.

Na resistência ecológica trata-se também de acertar no método exacto, no caminho certo para andar em frente.

EM RELAÇÃO AMIGÁVEL COM A NATUREZA

Um equívoco frequente dos "naturistas" sem base ecológica é idolatrarem a Natureza em vez de, mais racional e prudentemente, falarem de Ambiente.

Não se trata de bendizer, indiscriminadamente, a benévola Natureza e as manifestações naturais: mas de prosseguir a tentativa de um equilíbrio, sempre instável, entre ambiente natural e homem.

À luz da dialéctica yin-yang, aliás, deve ser assim e não de outra maneira.

O que se verifica é uma adaptabilidade constante do homem ao ambiente natural que de modo nenhum lhe é sempre favorável: sismos, enxurradas, vulcões, tempestades, temperaturas extremas, chuva, nem sempre as manifestações da Natureza são coincidentes com o interesse físico do homem e a sua saúde, segurança ou equilíbrio.

Fazem farte da ordem cósmica - mas nem sempre a ordem cósmica é a ordem humana. E é de efectuar a constante relação dialéctica entre essas duas ordens que se trata.

Quando uma multi-secular sabedoria fala do microcosmos e do macrocosmos, do que está em baixo e do que está em cima, está a considerar essas duas realidades que, embora complementares, não deixam de ser distintas.

Talvez os animais consigam uma complementaridade mais perfeita e por isso invejemos a sua espontaneidade, a sua natureza instintiva mais perto de e mais de acordo com a Natureza.

De qualquer modo, mesmo os animais, não são seres em sintonização absoluta com as leis do ambiente cósmico mas em relação dialéctica com ele.

Também o animal procura a caverna, o buraco, para se proteger das inclemências naturais e nessa caverna, nesse casulo está simbolizado todo o casulo ou habitat que virá a ser o do homem e o de toda a sua história através dos séculos.

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976

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1-3 - <74-04-20-ie> quinta-feira, 5 de Dezembro de 2002

É NO CAMPO QUE SE DECIDIRÁ A LUTA DAS DUAS IDEOLOGIAS SOBRE O MEIO AMBIENTE (*)

20/Abril/1974 - A chamada "política do ambiente" não resiste a uma análise mesmo superficial dos seus propósitos e função.

Basta a noção de "gadget" poluente para a por radicalmente em questão tanto quanto a sociedade ou civilização que a produz.

De facto, enquanto a táctica sintomatológica manobra nos buracos do efluente, do dejecto, do que sobra da combustão, a táctica ambientalista parece obedecer a lógicos propósitos de "protecção"; quando entra, porém, a matar com o objecto poluente, com a tecnologia poluente, com a indústria do Ruído - que é a poluição da poluição, tal como houve a arte pela arte e a ciência pela ciência... é difícil continuar a defender uma táctica que limita os seus objectivos às preocupações de limpeza, sem atacar as estruturas de um modelo de crescimento.

Um exemplo se poderá dar só por si suficientemente elucidativo para evidenciar até que ponto a "política do Ambiente" é uma política de fracções irrelevantes, de remendo e remedeio, de reformas parciais, provinciana, não planetária, apesar do "slogan" "A Terra e só Uma", mostrando-se portanto impotente para resolver de raiz a crise e os problemas.

É esse exemplo o da agricultura, campo decisivo para pôr à prova os erros de método e de estrutura do Sistema (o modelo de crescimento adoptado pela sociedade do desperdício).

Não é preciso ir à Politécnica para saber que toda a agricultura química é de raiz um campo de poluentes activos, perniciosos - considerados não já e não só como restos de uma actividade útil, não já como dejectos expurgáveis, mas ela própria intrinsecamente abjecta, maléfica, perniciosa, geradora de anomalias e aberrações que se multiplicam em cadeia e sem cessar. O maior perigo do DDT não é quando ele, por descuido e distracção, mata crianças. O maior perigo do DDT é o seu uso sistemático e directamente sobre a terra, sobre os alimentos.

A agricultura química dá o exemplo de como a táctica reformista da luta antipoluição não significa nada num contexto de homicídio acelerado e deliberado, voluntário. Não se trata de descuido, trata-se de uma acção voluntária e sistemática, decidida e aprovadíssima por todas as leis.

O CONSUMO DE DDT

O ecomaníaco não se convence que algumas leis restritivas contra o consumo de DDT ou o dieldrin ou o azotato de sódio, além de tardias, (quando chegam) irão solucionar, do ponto de vista ambiental, o tremendo problema a que depois se chama "poluição alimentar".

Não há memória que leis restritivas resolvam verdadeiramente seja o que for, como é patente o nível a que tais medidas actuam (quando actuam): proíbe-se ou condiciona-se o consumo do DDT, mas não o seu fabrico; além disso, e como já foi dito por eminentes técnicos da especialidade, a substituição do DDT por outros pesticidas menos conhecidos só piora a situação, pois quando não são ainda mais tóxicos, são mais desconhecidos ainda os efeitos a médio prazo que da sua toxicidade podem ocorrer.

Restringir o DDT, além disso, deixa livremente campo a outros que não sofreram restrições. Só no campo dos pesticidas, a verdade é que autorizados e correntes ficam dezenas de marcas tanto ou mais perigosas (e no entanto há que referir a restante gama da química contra a agricultura: fungicidas, herbicidas, insecticidas, acaricidas,etc., pois o especifico é aqui, como no campo das especialidades medicamentosas, o grande trunfo da indústria que não tem interesse em criar um pesticida generalizado mas sim multiplicar rótulos e, portanto, lucros).

Ao reconhecer, em certa altura do circuito, o que era benefício como um malefício, são os próprios ambientalistas afectos à lógica do crescimento industrial sem fim e sem freio que abrem brecha irredutível nessa lógica. E chovem as contradições: se o DDT ontem era benéfico e hoje de manhã já é maléfico, se o Dieldrin começou por salvar o mundo da fome (sic) e hoje é reconhecido cancerígeno, se de mil outros produtos, a princípio milagrosos, são os próprios fabricantes que acabam por reconhecê-los perigosos(eufemismo... ), eis que a desconfiança do eco-estratega se sistematiza.

QUALQUER COISA ESTÁ PODRE

Qualquer coisa está podre no reino da industrialização, e os próprios ambientalistas moderados vão reconhecer que lutar contra a poluição, o lixo, o efluente, o dejecto, o sobrante, o resíduo, não resolve a questão, antes a adia por pouco tempo.

Enquanto se instala uma estação depuradora, estão-se fabricando, como bons, centenas de produtos que, em 99 por cento, têm probabilidade de vir a manifestar-se molestos, e isto logo que haja outras indústrias rivais que pretendam desbancar esses para por os seus à venda...

Como se pode acreditar que há sinceridade nisso, que é de facto bem intencionada uma acção que se propõe limitar por um lado e que logo ao lado está expandindo em larga escala? Como se pode acreditar em luta antipoluição quando é o próprio poluente, activíssimo como tal, que se multiplica, que se fabrica, que se distribui e dissemina, a bem do progresso e na luta contra as pragas, evidentemente?

Contra-ofensiva como esta, será desde logo olhada com desconfiança.

Utópica ou não, encarada como tarefa de minorias ou como a agricultura do próximo futuro em todo o Mundo, a verdade é que a agricultura viva ou biológica, - única saída para o impasse da poluição química alimentar - dá o exemplo central do que é uma estratégia ecológica, e da sua inevitabilidade de urgência, frente às tácticas reformistas, parciais, recuperacionistas e triunfalistas - sintomatológicas - dos decantados "protectores do Ambiente" que levam a vida a massacrá-lo.

O Campo é o campo decisivo desta luta desigual entre ideologias do meio ambiente.

A partir dele, a partir das sociedade agricultoras em que me falava há dias o meu amigo Deodato Santos - ele próprio à frente de uma das raras experiências de agricultura viva que se estão realizando neste País - , de comunas rurais, de neo-tribalismo, é possível e será possível repensar o mundo, a vida, a história.

A agricultura viva oferece a chance (talvez única) de saltar para fora do ciclo vicioso e infernal.

Pela agricultura biológica ou agricultura viva se assenta a base alimentar inamovível e, a partir dela, a revolução geral do homem, da vida, da existência, da sociedade.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976 ♥♥♥♥♥