<chave92> - segunda-feira, 16 de Setembro de 2002 – nada de especial, este merge, a rotina rotineira de files da mesma série, o que lhe dá a necessária unidade -

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2734 caracteres < chavee-1><chave><diario92><testament>

Cabo, 25/10/1992

PELA MILÉSIMA VEZ ME EXPLICO - COMO SE ALGUÉM UM DIA VIESSE A LER-ME

Se continuo, evangelicamente, a guardar recortes desformatados e a perder um tempo imenso em os classificar nos sacos suspensos, é porque penso serem apoio para futuras prosas: e, como se sabe, eu não sei escrever sem ler. Sem base (de recortes) de apoio, pois o que a memória evoca é pouco ou nada. A desmemória.

Voltei de facto aos sacos suspensos, economia de meios, aproveitamento máximo do espaço doméstico:

-> Aflitinhos -> O Forum dos Aflitos -> Dar voz aos que não têm voz -> Quando me sentir infeliz, lembra-te, Afonso, que há outros bem mais infelizes do que tu

-> O estilo «O Independente» -> Espaço perdido este em que arquivo restos de um jornal com o qual mantive uma constante de amor-ódio, mais ódio do que amor -> No pressuposto (TSPC) de que existe algures uma escola para ensinar como as coisas se fazem, eles teriam essa escola: ou a intuição que outros tiveram que (arduamente) aprender -> O que um jornalista não faz por uma boa piada, por um título gozão: até vende a mãe

-> Os pós-paroxismos chamados perestroikas -> Há sempre um momento em que o sistema tem de folgar, resfolegar, das corridas e farturas -> Então vem uma coisa chamada Perestroika que apaga os crimes de um regime completamente -> Nuremberga foi para os nazis, mas para os neonazis de todos os outros gulags já não há Nuremberga: a História os absolve automaticamente

-> A extrema direita que interessa à causa sionista -> Quase se pode dizer que as manifestações neo-nazis são accionadas por sionistas, pois é com base na contra-resposta às provocações que o sionismo se autojustifica para continuar cometendo a sua política de racismo em todas as frentes

-> Para AC reportar em Portugal -> Temas interessantes ->

<- Carta de uma Criança com cancro à Ciência Médica -> Aflitinhos no Forum -> Tenho carinho especial por esta linha de arrumação, que talvez dê para futuras ficcionações quando eu estiver na merecida e repousada reforma (quem me dera!)

-> Notícias gay -> sida -> sim-sim, patrãozinho -> Tá bem, deixa

-> Notícias do Kali-yuga -> Dicionário do Terror -> Histórias Macabras do Macabro -> Surreal-abjeccionismo avant-la-lettre ->

-> O peso ou pesadelo da imagem -> E a máquina fotográfica foi inventada -> E o mundo desapareceu -> Em pleno reinado do óbvio ululante: deixou de haver claros-escuros -> Deixa de se poder ver (entender) o Óbvio -> Maldita época em que é preciso lutar pelo que é óbvio (Max Frisch)

-> Temos uma «Revista Portuguesa de Automóveis Antigos», claro! Informação oblige e é o 3º poder com F -> Mas não há, em toda a Lisboa, e em todo o Portugal, um único exemplar, de um único jornal de todo o mundo de Língua Portuguesa que o Português criou dos anedoticamente chamados PALOP´S

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1168 caracteres <chave-1>

Lisboa, 22/6/1992

FOTOS DO MEU ESPÓLIO (QUASE TODO JÁ ARRUMADO E ENCAIXADO

MAIS UMA DAS IDEIAS-FORÇA PARA O MEU TESTAMENTO (LEGADO, ESPÓLIO & DOAÇÃO)

- Fotografar caixas INACÓPIA, XEROX e PORTCÓPIA - bem como as dos CTT - contendo o espólio dos meus escritos, mostrando depois essas fotos, com uma carta, às firmas, pedindo, ao abrigo do estatuto do Mecenato, que sejam meus mecenas.

Isto pode ser matéria de um conto ou de uma das CARTAS ENCONTRADAS NO REFUGO CENTRAL DOS CORREIOS (E NOS ACHADOS DA POLÍCIA) - ambas como FICÇÕES - tendo em atenção que o REFUGO e os ACHADOS foram dois lugares dos que mais fascinaram a minha imaginação...

- As fotos de caixas com Espólio (vou hoje, 22/6/92, mandar revelar o rolo de 24 poses) são igualmente um documento chave para, a partir dele, eu descrever as linhas gerais do espólio e para que herdeiros ou/e testamentários se orientem neste pequeno labirinto que, creio bem, pode vir ainda a valer uns ECUS à Ana Cristina, pois é um facto que a defesa do Património já é moda mesmo e até entre Eurocratas...

- Viva a Eurocracia e viva o património naif dos Pobres

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2501 caracteres < chave-2>

Praia , 23/6/1992

[ já é tempo de arranjar uma disquete para o superdirectório <CHAVE> ]

Nesta Hibernação que me foi permitida pela Crise e pela Baixa Psiquiátrica, tive ocasião de concretizar alguns dos meus projectos literários e até teclei muitos textos que tornaram mais explícitos alguns desses projectos, assim provisoriamente baptizados:

FICÇÕES - vasto conjunto dentro do qual cabem sub-conjuntos (livros) e constituído por textos de pura imaginação mas também de textos diarísticos e quotidianos, supostamente ficcionados, apenas porque «transliterados» por alteração de nomes, datas, lugares, etc (estes, sim, puramente ficcionados).

Nesta área de FICÇÕES começaram a tomar forma autónoma:

LEITURAS MORAES PARA AS ESCOLAS - Textos do Naif e do Kitsch, meus ou alheios (transcritos com a fonte ou puramente apropriados ( plágio?) ), podendo neste conjunto incluir Jogos com o Idioma (variante: Jogos com a Língua...), Jogos do Cadáver esquisito, Discurso automático-onírico e de um modo geral as minhas tentativas «surrealizantes» ou «experimentalistas» (colagens, léxicos, inventários, etc).

FORUM DOS AFLITOS (variante VOZES DA TERRA) - Cartas Encontradas no Refugo dos CTT e nos Achados da Polícia (Cartas dos que estão na mó de baixo aos que estão na mó de Cima).

Apercebo-me, de repente, que o leit-motiv desses textos é a lei ou obsessão kármica, pelo que poderei abusivamente juntar neste conjunto tudo o que escrevi (e foi muito) sobre Karma, ficção ou não ficção.

- O que penso - o que tenho vindo a pensar desde os «Ensaios sobre o Obsceno» - sobre Literatura, pode constituir outro conjunto extremamente homogéneo, destacando-se dele apenas os textos (+ ou - polémicos) que contiverem referências a nomes próprios conhecidos, esses irão ser arrumados em «Diário das Siglas» (variante: «Dossier das Siglas») onde faço a denúncia de alguns nomes públicos e notórios das nossas artes, letras e nem só, nomes que amei ou detestei

DIÁRIO DAS SIGLAS, aliás, é um destaque relevante ( o mais relevante) do DIÁRIO-TOUT-COURT

APÓCRIFOS DE FERNANDO PESSOA ENCONTRADOS NA MINHA ARCA - Um dos projectos que mais me fascinam neste momento chamam-se «Apócrifos de Fernando Pessoa», onde incluo a história do caso clínico, os meus textos que, velada ou ostensivamente, sofrem influências do empregado de escritório, do amanuense Fernando. O Meu «Livro do Desassossego» - estilo complementar ou intercalar do dele - é um dos que mais me obcecam.

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700 caracteres <chave-3>

Praia , 23/6/1992

DESCRIÇÃO SUMÁRIA DO ESPÓLIO LITERÁRIO DE AFONSO CAUTELA

[ texto para «ilustrar» as fotos sobre o espólio que acabo de tirar a tudo quanto é caixa e estante nesta casa]

[ mapa para a cristininha se orientar na minha casa...]

O que me preocupa não é sacar lucros, vantagens ou glória de uma eventual doação do meu espólio literário - livros e manuscritos: a idade de 59 anos já me confere, pelo menos, um certo sentido de humildade em relação a esses mundanismos, dando-me, em troca, preocupações acrescidas quanto ao futuro do referido espólio (o que pode ser ainda mais ridículo). Neste momento, de facto, preocupa-me de como vão ser utilizados (melhor dizendo, aproveitados) os vários sectores em que se subdivide o espólio. É que para lá dos LIVROS, há outro material que, pelo seu carácter de exemplar único, poderá ser qualitativamente mais considerável e mais de considerar...

1 - De um modo geral - LIVROS E MANUSCRITOS - trata-se de material altamente concentrado («compact» como agora se diz), pois o que actualmente permanece é o «extracto» que foi ficando depois de numerosos, sucessivas e dolorosas purgas ou sangrias, quer dizer, as muitas vezes em que, por questão de espaço, vendi livros ao desbarato; e mesmo assim ainda tenho a casa excessivamente cheia;

2 - Em segundo lugar, e graças às «purgas», o actual espólio é tudo menos ecléctico ou miscelânico: corresponde, sim, a linhas temáticas muito precisas, que por sua vez correspondem a projectos de trabalho, pessoal ou de grupo, que sonhei ao longo da vida e sempre que me era permitido sonhar pelos polícias do realismo

3 - Em terceiro lugar, a grande linha divisória deste espólio passa por tudo o que, a um lado, é LIVROS e a outro lado tudo o que o não é: vou explicar melhor esta lapalissada...

LIVROS

Poderei enumerar grandes áreas pelas quais se distribuem esses projectos em que falei e de que os livros são suporte de apoio:

OUTRO MATERIAL ALÉM DOS LIVROS

Mas, até aqui, o esquema (mesmo o esquema de arrumação) é relativamente simples: trata-se de livros e, mesmo quando de formato anormal, mantêm-se mais ou menos dentro da norma média europeia... A coisa complica-se (e excede a minha capacidade de arrumação), quando comparecem coisas que desomogenizam o conjunto, tais como:

I - Documentação afim das grandes áreas indicadas para os livros - Artigos e recortes de Imprensa encontram-se, na esmagadora maioria, normalizados em fotocópias A4 (o que equivale a um gigantesco e dispendioso trabalho de trinta anos...) em grandes áreas, tais como:

II - Uma caixa de cartão com aparelhos de Acupunctura eléctrica (e nem só) e de Ritmoterapias, que, modéstia à parte, serão - com as Reflexoterapias - as grandes medicinas democráticas do futuro

III - Insólito, verdadeiramente desestabilizador do conjunto do espólio, é o núcleo de postais ilustrados, (encerrados em 6 caixas dos CTT - duas grandes e quatro pequenas), estimados (e muito estimados), em 50 mil + ou -

IV - Outro conjunto altamente desestabilizador do conjunto do espólio, são dois cursos de inglês da BBC:

V - Arca de cor castanha com exemplares (soltos) de «Ilustração Portuguesa» e revistas afins, almanaques Bertrand até anos 50, etc., etc, incluindo a sempre omnipresente magia do preto e branco: é uma arca mais desestabilizadora do que a do Fernando Pessoa, mas tão evocativamente poética como ele

VI - Os tempos (1955-1960) do quinzenário «A Planície» - «Convívio» correspondem a um investimento capital-intensivo de energia vibratória, destacando-se no conjunto, cartas (D. Janeiro, Miguel Serrano, etc) e Cartas de escritores ILUSTRES para o suplemento de Artes e Letras «Ângulo» que durante esses anos foi publicado no quinzenário de Moura «A Planície»

VII - Quatro caixas de bananas Turbana (Colombia) contêm material altamente inflamável, quase tudo inéditos meus, a que posso chamar um «Diário» militante, polémico, político, crítico, etc, arrumado agora por anos (não por dias dentro de cada ano) e que vem desde os anos 40 até 1992, diário militante cuja linha mais marcante - eventualmente destacável com o título «Diário das Siglas» - é o conteúdo de referências a nomes públicos das nossa praça que amei ou odiei

VIII - Quase confidência, vou dizer onde é que o bolo deste espólio, aparentemente tão decente e honesto, está particularmente envenenado : há meia dúzia de caixas de bananas com papéis contendo os restos mortais de artigos publicados no âmbito do Movimento Ecológico Português e da «Frente Ecológica», o que corresponde de certo modo ao maior investimento de energia vibratória e de tempo que fiz na minha vida, toda ela dada à paxorra de não fazer nada. Trata-se de um trabalho de inexcedível estupidez humana, que de duas uma: ou ficará abortado e sem continuidade, o que me dará um terrível desgosto póstumo, pois foram pérolas atiradas e porcos (salvo seja); ou virá a ter continuidade e nesse caso o slogan dos correios (meu mecenas patrocinador) tem dupla razão: todo esse material é meio caminho andado para chegar ao sítio (caso haja sítio e futuro): nesse caso, esse ponto de partida irá poupar tempo e energia vibratória a muita gente, e eu, que sempre fui um tipo poupado, apreciarei muito essa circunstância

IX - Problemas de arrumação e conservação particularmente complicados são criados por um pequeno conjunto de MAPAS MURAIS nomeadamente em duas áreas: Ecologia Alimentar e Reflexoterapias (caso particular da Grande Acupunctura)

[ Em files seguintes, esta descrição sumária - com ajuda das fotos - será pormenorizada em algumas das sua preciosas alíneas

adenda ao file <chave-3> contendo a descrição sumária do espólio do sete, rés do chão da rua dionísio dos santos

I

Sou sensível às suas atenções e por isso lhe estou grato. É o que me encoraja a explicar melhor em que consiste o espólio a doar e alguns dos seus pequenos problemas.

II

Não conheço as técnicas de doação (deve haver, há técnicas para tudo...) mas deduzo que uma doação em vida do doador poderá ser, em princípio, total ou parcial; uma parte, desde logo, e o resto por morte do dito senhor que doa.

Ora é aqui que reside o meu interesse pela solução Paço de Arcos: a proximidade física da Biblioteca, permitir-me-ia, por um lado, nos meus ócios de reformado e caso tenha necessidade de consultar ou rever obras, elas encontrar-se-iam relativamente perto.

Encontro-me perto da reforma e ainda mais perto da velhice, mas é muito possível que seja agora, só agora, no fim, que eu vou ter algumas chances, ainda que breves, de realizar alguns dos projectos literários em função dos quais tiva a monomania de coleccionar livros e documentação.

III

Pensar bem a quem vou dar conhecimento desta mensagem bastante confidencial explicativa do meu espólio, em que consiste e quais os seus principais vectores:

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973 caracteres <chave-5>

Lisboa, 29/6/1992

PARA ENCONTRAR OS MEUS HETERÓNIMOS

Hipóteses hoje inventadas a confirmar ou não posteriormente

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<???????>

Cabo, 10.7.1992

Zé [ desculpa a impressora mas teima em não pôr o til, está feita com o acordo ortográfico] : Voltei agora ao jornal, depois de alguns meses de baixa por doença, em que tentei tratar-me, em vão, das minhas várias fobias. E só consegui arranjar outras novas. Encontrei o teu livro de poesia, com dedicatória, e devo responder, ainda que com atraso, para saberes que recebi.

Espero, antes da grande viagem, poder estar contigo e falar contigo da sílaba que vale a pena - AUM - na sintonia que propões na dedicatória, irmão.

Mas não sei se a falta de tempo ( alibi mais usado nesta idade de kali yuga - eufemismo que não se pode dizer) irá permitir esse nosso (re)encontro. Por mim estou sempre disponível, o meu ano sabático foram seis meses de baixa psiquiátrica, mas vejo que tu és uma pessoa ocupada e ainda bem. Embora eu não escape à inveja de ver os meus amigos sempre muito ocupados como eu gostaria também de estar. Que mais não fosse como embriaguês.

Significaria isso que tinha emprego em alguma coisa e assim não tenho. (Começa o fado). Todos me dispensam, incluindo este hospitaleiro jornal que me dá guarida por misericórdia e caridade cristã. E todos gostariam que eu fosse para um PALOP qualquer, incluindo o outro Mundo. Tenho inveja do espaço que dão aos teus quadrinhos, mas compreendo perfeitamente ( esquizofrénico é lúcido) que é a linguagem do futuro e eu pertenço irremediavelmente ao passado.

Estou agora a tentar reconstituir os livros de escola e de contos que fizeram o meu imaginário de menino eternamente chatiado não sabia com quê. Imagina que a Cristina agora anda a querer mudar de apelido. Acho que achou muita piada a um artigo do Miguel Esteves Cardoso, de quem aliás ela admira as ti-shirts, o gato, o aro dos óculos e os conselhos que ele dá na Kapa para a malta consumir à vontade alcalóides que não há perigo.

E eu coadjuvo a ideia dela de mudar de nome, lá terás tu que ser segunda vez padrinho da menina. Sempre considerei perigoso e indesejável o apelido proteico de Cautela, que nem ao menino jesus interessa. E nos meses de baixa tive ocasião de verificar esse perigo, relendo textos antigos que publiquei julgando estar em democracia.

Vejo agora bem visto como me lixei (o que é bem feito) e como por carambola a posso lixar a ela (e isso é um pouco mais chato). Vejo agora onde foi que me afundei e porque consegui cair em total desgraça.

Há uma certa piedade, entretanto, e no entanto, pelo facto de eu ter 59 anos e estar quase a fazer tijolo. Na expectativa de que não serei portanto impedimento à EXPO 98, toleram-me. Desde que evidentemente não escreva (demais). Invejo os amigos que escrevem e têm onde escrever mas não deixo de me sentir bem neste estado de pré-reforma, de terceira idade tolerada à espera de vir um Primeiro Ministro com coragem de meter os velhos à frente de um pelotão de fuzilamento.

Foi o que a baixa por doença me permitiu: perceber melhor a relatividade de tudo e que tudo está sempre no mesmo sítio. Emocionou-me a colecção que foste exumar: «Livros sem editor». Onde é que eu já li isto? São as gratas surpresas que a vida nos traz.

Olha, Zé: está tudo bem contigo? Enterneceu-me muito o vídeo que fizeste em Cabo Verde. Há afinal uma zona de comunicação dentro do incomunicável - e isso é relativamente relaxante.

Como vou pôr anúncio para vender esse conjunto documental, aproveito para te falar de um dos últimos investimentos que fiz e me saíram totalmente frustrados. Há cerca de um ano, havia promessas mil, no Cabo, de que me deixariam fazer aqui, no jornal, uma secção de vídeo: «Dos Livros aos Filmes». Durante meses preparei-me. Equipei-me com enciclopédias (!!!!) em que, no conjunto, gastei à volta de 100 contos, quase o que ganho por mês, fora os milhares de fichas e listas temáticas que elaborei, com a minha mania das fichas e de me meter bem documentado (?) nas coisas em que me meto.

Claro: não percebera, mais uma vez, que estava a sonhar alto e a ser enganado com promessas. A secção nunca sairia, como nunca mais voltaria a sair a de livros, que suspensa se encontra há mais de um ano. Mas o que quero eu dizer com esta fiada conversa? Que vou pôr anúncio no «DN», assim:

Crítico de cinema reforma-se

Fundo documental ( incluindo enciclopédias e milhares de recortes) vende-se por 100 mil escudos. O crítico é de borla.

Sabes de alguém que queira comprar?

Zé: um dia destes a gente encontra-se. E vamos sintonizar o Sky Chanell que só a gente conhece. Teu irmão Afonso.

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<????>

Lisboa, 14.7.1992

F.T. da M., Meu Prezado Amigo [ desculpa mas a impressora teima em não pôr o til, acho que aderiu já ao novo acordo ortográfico]: Voltei ao jornal, após seis meses de baixa médica, e venho encontrar o teu livro, que amavelmente me foi enviado pela Contexto.

Devo explicar, portanto, o meu silêncio, para que não penses que foi negligência minha ou desinteresse. Ou mesmo ingratidão. Nunca é demais sublinhar como te estou grato e como do coração te agradeço a ajuda que me prestaste. És mesmo um dos responsáveis por uma das maiores catástrofes ecológicas (como agora se diz): eu continuar vivo, embora mais sobrevivente que vivo.

O tio Sarabando, que além de ter sido minha testemunha é meu amigo e director do jornal, chama-me «múmia» e decreta-me, com isso, uma indesejável vida eterna. Recebeu-me cordialmente, na volta da minha doença, e chama «recaída» ao meu regresso. De facto, voltar à câmara de gás de Lisboa, ao Aushwitz de Cabo Ruivo, é recaída.

Mas que há-de um jornalista sem préstimo fazer? Do teu livro já tivera notícias, pois, embora por medida profiláctica, cortasse com jornais e telejornais nestes seis meses de tratamento, «O Independente» é semanário que não deixei de ler. Aqueles rapazes são capazes de trocar a mãe por um bom trocadilho (título) e só André Breton sabe quanto eu gosto de trocadilhos.

Quando apareceu a tua entrevista, apreciei, para lá do mais, a forma como deste a volta à pespeneta da jornalista, que ia toda feita para ver se escorregavas mas que deve ter saído a ganir. Senti-me vingado de um estilo de jornalismo que francamente já não consigo perceber. Sinceramente e sem lisonja, gostei da forma como disseste o essencial e de dois pormenores me lembro que particularmente me agradaram, como apaixonado que sou das pequenas grandes coisas. Um deles foi o carinho com que falaste do Gengibre, essa criatura maravilhosa. O outro, o que disseste dos queijos e da respectiva qualidade: bem gostava eu, que também como queijo, de distinguir o pior do mau mas não sou capaz.

Só te vou maçar com mais alguns pormenores, para que vejas melhor o contexto de tolerado em que me mantenho, por caridade, no jornal. Há precisamente um ano, quando começou o suplemento de Verão, a página semanal de livros que me estava confiada foi suspensa. E até hoje não foi retomada, sem que alguém da chefia me tivesse dado a mais mínima das mínimas explicações. Quem abre o jornal, aliás, verá que a exuberante publicidade pouco espaço deixa para entrevistas e muito menos para notícias de livros.

Nunca fui nada no jornalismo mas, como podes calcular, sou menos que nada neste momento. Sobrevivo de esmolas, e de um certo carinho que se dedica aos velhos. Eles aguardam o momento, entre todos feliz, de se ver livres de mim e eu o momento de os ver felizes. A isto se chama «entente cordiale», «aggiornamento» ou «compromisso histórico».

Pode ser que até à minha reforma - 1994 - o Cavaco encontre solução para os velhos sem solução e tenha a coragem de os meter à frente de um pelotão de fuzilamento: isto, e o direito a trazer comigo uma pastilha de cianeto, são hoje as minhas únicas e últimas reivindicações face à Grande Europa que se avizinha. Não peço mesmo outra coisa nas minhas orações a Nossa Senhora das Dores. Só me falta saber duas coisas: como é que se pede (e onde) para ser cremado e como se faz (e onde) testamento. Não estou a brincar, é mesmo a sério: se a tua amizade quiser e puder sobre estes (três) assuntos dar-me, um dia destes, uma informação, do coração, mais uma vez, te agradeço.

Em troca, uma informação-confidência para ti que sintonizas a astrologia: no mais fundo do poço (outros chamam-lhe túnel) fui encontrar um livro que é assim como a sílaba AUM no caos das palavras: chama-se «L'Alchimie de la Vie», é escrito por um biólogo francês Etienne Guillé que, no meu pitosguismo filosófico, me parece o supremo profeta de algo que está a nascer sem que o Ruído da Morte nos permita percebê-lo. Não ando a dizer isto a toda a gente: é uma forma que eu tenho de ser grato aos meus verdadeiros amigos, todos quantos me ajudaram quando pedi socorro. Se queres saber, Guillé foi, para mim, e sem eu ter feito nada por isso (a não ser uns pequenos exercícios de karma yoga) a minha Sorte Grande. Como agora se diz, o Jackpot.

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1601 caracteres <chave-7><legado> <alteres><heteros><vozes>

GUIAS DE MARCHA PARA LER O LEGADO PAPELÍFERO DO AFONSO

O suado legado tem que se lhe diga. Quem ficar, fica com as guias indispensáveis para dar ordem à ordenada papelada (feita em ordenador, que é como os franceses chamam ao robot-computador).

Ideia que certamente irei explorar em vários tons e registos, é a que surgiu há semanas: no diário (seis caixas de bananas em pilha na cozinha), há diversas vozes dentro da mesma voz. Quer dizer que estão aí as minhas ficções, os delírios heteronómicos de que fui capaz e não sou, nem de longe, tão esquizofrénico como o Fernando Pessoa. Mas tenho direito de usar o mesmo truque que ele usou: o dos heterónimos.

Vamos então a sugestões práticas: os extractos heterónimos do Diário (os vários demónios que há em mim, como diria o psiquiatra Afonso de Albuquerque) podem seguir as seguintes linhas lógicas, que correspondem a outros tantos títulos:

CARTAS