My life - >1980

1-12 - <chave-1-sa-ce>< capa-4 >

O ESCRIBA

EM VÁRIOS ANDAMENTOS (*)

(*) Felizmente que ficaram inéditos (a maior parte). É um chorrilho de indisposições com incidência no charco português e algumas das suas figuras emproadas em destaque na época (1981? 1980?).

Belo tempo perdido a passar ao scanner este lixo . Única vantagem: ver se me livro de uma miscelânea de papéis/rascunho e apontamentos (a rasgar, a rasgar logo) , num só file, que ocupa, apesar de tudo, menos espaço no armazém de secos e molhados, que continua a ser esta casa. Que grande frete, em qualquer caso e que belo domingo perdido com isto, com o gravador CD a fazer das dele e com o computador a não querer reiniciar como mal de raiz.

Confissões e desabafos que talvez servissem, na altura, de autoterapia mas que hoje são apenas papel para o lixo. E, no entanto, recuperei-os: ficam como tópicos , se um dia quiser escrever as minhas memórias póstumas, ideia de que me tenho vindo a desligar lenta mas paulatinamente.

Mete crítica de cinema, quesília com o jornalista António Borga d’ O Diário , chatices com isto e com aquilo: mas tudo para quê e porquê?

Porque só queria, como sempre quis, salvar o mundo. O que implica o travesti de herói, de querer armar ao herói – a que na época chamava humildemente franco-atirador- , lamentando que não se «possam» criticar – tocar – os intocáveis de todos os feitios.

Esta mania de reformar, de criticar, saiu-lhe cara e foi bem feito. Foi sempre uma reles imitação dos heróis de Frank Capra ou do mestre ensaísta que o induziu, o António Sérgio.

Não contente em ter ladrado o que ladrou, nestes papéis inéditos, achou por bem editar (!) um caderno só sobre as mesmas aflições do jornalista, coitadinho, rodeado de censuras de esquerda e de direita, por todos os lados. Não querem lá ver que até se tomava a sério no papel de jornalista? Espero bem que muitos destes dislates não tenham afinal sido publicados nesse opúsculo sobre informação.

Afonso Cautela

5/5/2001

Silêncios & Silenciamentos da Democracia portuguesa

O leit-motiv da descolonizacão cultural

Eco-fascismo, tema proibido

Os guardas do Gulag

Com a verdade me enganas

Carta ao Sindicato dos Jornalistas

Falar por metáfora

Desinformando o consumidor

Como se fabrica uma esquizofrenia de boa qualidade no campo de Auschwitz do jornal

Já chega de franco-atirador

 

ALGUNS SILÊNCIOS TACITAMENTE ADMITIDOS PARA DESCANSO DAS NOSSAS VIDAS E REPOUSO DAS NOSSAS ALMAS

 

MEMÓRIAS DA "FRENTE"

Variações sobre a palavra (proibida) fascismo

A linguagem que me "perdeu"

Os temas-tabu que enfrentei e o preço que ainda estou pagando por isso: como posso eu ter um emprego decente, com a linguagem "violenta" que emprego?

Censuras e auto-censuras

O Apocalipse e o planeta à beira do abismo será para ser tratado com linguagem suave e luva branca?

Não ter usado de boas maneiras e diplomacia é muito mais importante do que ter dado vida e anos de vida a defender a vida das pessoas contra todos os fascistas e criminosos.

Ora merda: comam os colibacilos que merecem.

Com tanta gente calma e porreira, o inimigo principal não é o imperialismo tecno-industrial, a Tecnocracia, o Tecnofascismo: o Inimigo Principal é o Afonso Cautela, que aos 52 anos consegue pesar 52 quilos.

OS INTOCÁVEIS

CHEGA DE FRANCO-ATIRADOR

Que a contestação aos produtos comprovadamente criminosos, não pode ser acção individual de franco-atirador, é um facto evidente.

Todos sabemos a conspiração de silêncio que envolve os assuntos consideradas tabu, de que maneira o jornalista é desviado deles para que o opinião continue adormecida e narcotizada.

Se o jornalista força a barra e procura denunciar situações que ninguém se atreve a denunciar, depressa irá defrontar-se com toda a espécie de travões, pressões, boicotes. Depressa, inclusive, irá ser chamado à realidade por misteriosos telefonemas anónimos ou mesmo por "avisos", menos anónimos, vindos das entidades e autoridades.

É cómodo, por outro lado, para a engrenagem fazer do jornalista o bode expiatório dos silêncios que e engrenagem impõe : o jornalista é então muito criticado porque não toma, no dia a dia da sua profissão, partido pela defesa do consumidor ou do cidadão em geral e portanto o partido da verdade contra as propagandas.

Se alguma vez o jornalista tenta tomar partido pela verdade contra as propagandas, aqui d'el rei porque pisou o risco e se meteu onde a deontologia profissional lhe não permite... Pode ser mesmo que venha como um raio e lhe caia em cima, uma carta timbrada, da firma ou da empresa em causa, eventualmente visada pela critica intolerável do dito jornalista.

Preso por ter cão e preso por não ter.

VIRTUALMENTE SUICIDA

(Já teclado, algures, em outro file do scanner) - Se a situação do jornalista como franco-atirador é virtualmente suicida - exposto que fica à voracidade das harpias multinacionais quem se dispuser a enfrentá-las - não se julgue que os grandes movimentos sociais estejam completamente imunes à réplica ameaçadora dessas poderosas empresas.

Ficou célebre o caso da maré negra causada , nas costas da Bretanha, pelo petroleiro Amoco Cadiz: como a revista "Mil Consumidoes" propusesse o boicote à empresa responsável, esta respondeu à revista francesa, contra-atacando e processando-a.

Se elas ousam semelhante cinismo relativamente a poderosas organizações de consumidores, o que fará em relação ao jornalista isolado e franco-atirador, sem ninguém nem nenhuma entidade a cobrir-lhe a retirada ou a escudá-lo na retaguarda.

É tempo de acabar com o franco-atiradorismo, ingénuo e romântico, quando pela frente se perfilam e mobilizam as multinacionais da Morte, do Crime e do Holocausto.

FALAR POR MÚSICA (IN CPT?)

Avisar o cidadão do que mais lhe importaria saber para sua própria defesa e segurança, é cada vez mais uma mensagem cifrada, que se serve de metáforas ou fábulas para poder ser escrita e publicada.

Voltamos sempre aos tempos áureos da alegoria, quando as censuras e inquisições se tornam mais fortes.

A informação ao consumidor, água chilra ou capilé para refrescar meninges, é cada vez mais uma metáfora, com leituras de segundo e terceiro sentido.

A poesia volta a estar na ordem do dia para o jornalista, obrigado a pintar a manta, a escrever nas entrelinhas, a inventar histórias da Carochinha das quais o leitor, se quiser, retirará as lições- ilações que à sua própria segurança respeitam.

Entre uma engrenagem criminogénea que instalou raízes na sociedade portuguesa e a grande "massa" dos cidadãos ("massa" é a palavra-chave), obrigados a votar, obrigados a consumir, obrigados a pagar, obrigados a trabalhar, obrigados a adoecer, obrigados a viver, - o abismo alarga-se e afunda-se.

Várias vezes nos temos congratulado com a crescente Bipolarização, que só vem reforçar e clarificar a luta de classes. É possivelmente a esta Bipolarização saudável, a este abismo aberto entre massas e Poder que se chama a "garganta funda" portuguesa.

O sentimento de frustração e niilismo vem do Poder e avassala as massas, por ele contagiadas.

Mas os que aguentam, do outro lado do Abismo, nada têm a ver com o Desespero, o Niilismo, a Frustração e o Suicídio, que são produtos da Abastança ou indigestão do Poder.

Os da massa anónima, assim rotulados sem que tivessem sido para o efeito consultados, resistem, firme e heroicamente, escutam as mensagens cifradas que a informação tenta lançar-lhes, fazem das tripas coração e sabem, acima de tudo sabem, que quanto mais espoliados e oprimidos pelas engrenagens da alienação moderna, da doença e da morte, maior é o investimento no futuro e na "salvação das suas almas".

Moral da fábula: vale a pena resistir e não colaborar com os invasores.

RESISTIR ATÉ DESISTIR

Quando se escrever um dia a história das lutas jurídicas em defesa do cidadão em geral e do consumidor em particular, ver-se-á um panorama triste que a bem pouco se reduz: os gigantes da poluição, da destruição e do crime são os únicos a continuar de boa saúde, enquanto continuam envenenando, adoecendo e matando os consumidores.

Os interesses dos gigantes económicos (nacionais e multinacionais), os lucros das empresas, a hipocrisia dos organismos de Estado que dizem defender o cidadão mas só servem para o sugar, continuam sobrepondo-se aos direitos do cidadão .

Datas e figuras como Ralph Nader, indicadas como «faróis de esperança" nesta noite escura do consumidor, logo se verifica que nada significam.

Mesmo quando se assinalam algumas vitórias, elas são em breve abafadas ou apagadas pelo "retorno dos monstros", pois, como diz mestre Ambrósio, o dinheiro compra tudo, incluindo consciências, jornalistas e ministros. O dinheiro pode, em suma, comprar o silêncio dos que , como Ralph Nader, se mostrem porventura mais relutantes em calar-se.

O conhecido advogado norte-americano, que em 1967 empreendeu a luta contra a maior empresa da indústria automóvel, formulava em Paris, ao "L'Express", cinco anos depois, em Outubro de 1972, esta pergunta inquietante e reveladora:

" Que quer - perguntava Nader - que o Estado americano faça contra a General Motors. Ela pode dizer-lhe: "Se me aborrecem muito, instalo as minhas fábricas no Japão ou no Brasil." O Governo recuará perante a ameaça de desemprego."

Estas afirmações do mais conhecido lutador contra o imperialismo industrial do consumo, são reveladoras em vários sentidos:

  1. Depois de enfrentar, ele próprio, esses impérios, Ralph Nader conclui que nem o Governo, nem o Estado, pode nada contra uma multinacional, que faz o "ninho" onde muito bem quer e que ameaçará deslocar as fábricas para um país do 2°-, 3°- ou 4º mundo
  2. Portugal estaria, nesse contexto, particularmente e duplamente amolado: mais vulnerável às chantagens do desemprego, não haveria aqui nenhum movimento de cidadãos e consumidores com a força dos norte-americanos, nem um advogado teso como Ralph Nader, apesar de termos por cá um Beja Santos...

c) Desse "Requiem" que são as declarações de Nader em França, conclui-se ainda que a lei nada pode contra o poder económico, que se situa não só para lá do bem e do mal, das pátrias e das fronteiras (instalando-se onde quer) mas também para lá das leis e dos tribunais

EM PORTUGAL AINDA REFINA

Esta "lei da selva" em Portugal ainda refina: aos factores apontados que são internacionais e comuns a todo o imperialismo industrial apátrida, junta-se a mesquinhez e o masoquismo típicos da nossa raça.

Aqui a ilegalidade e os fora-da-lei têm um infinito campo de manobra, gozam de absoluta impunidade e dos favores oficiais, como o recente surto de "lepra emocional" mais uma vez confirmou.

Como se viu, ouviu e cheirou, aqui não são apenas as multinacionais que arrotam grosso ou ameaçam os defensores do consumidor e do Ambiente.

Todos os bem-pensantes , obrem ou não artigos editoriais em diários e semanários, se coligaram para abominar as declarações do Ministro Sousa Tavares sobre salmonelas em Albufeira , Colibacilos no Estoril e poluição em geral.

Como diria um articulista, "a poluição não é grave, gravíssimo, sim, é que publicamente se fale dela".

Poucas vazes, entretanto, surgiram e se insurgiram contra a desvergonha, a safadeza e a hipocrisia de comissões de turismo, direcções gerais, editorialistas precoces e até colegas ministros do ministro alvejado.

Se o mais grave, portanto, não é a Salmonela mas a proclamação pública de que serviços e departamentos nos assassinam diariamente, poderá concluir-se a tese que há muito temos vindo a defender nestas crónicas: o mais grave, de facto, não é a Salmonela e a M. em geral, mas a diarreia mental e moral que prolifera e há muito avassalou o espírito dos portugueses, nomeadamente os que ocupam lugares de mando na Administração.

Grave não são as salmonelas, mas a lepra moral dos que as comem e querem obrigar-nos a comer também.

Existem, segundo sabemos, verbas em moeda europeia para obras de saneamento, solução radical para o problema.

Grave é ninguém saber para onde foram as verbas que o Estrangeiro emprestou para a gente se limpar. Graves são, de facto, as salmonelas morais que vivem de nos ir matando e, que, não contentes da irresponsabilidade, da incompetência e da corrupção. Não contentes em terem metido sabe-se lá onde, o dinheiro que ao saneamento básico se destinava, ainda vituperam o Ministro que falou, ainda fazem ameaças soezes, ainda nos culpam, a nós, vítimas da Porcaria delas, de estarmos a estragar o Negócio do Turismo.

Neste faroeste a Oeste da Europa, a lei já não vai a tempo de fazer nada. Casos que já nem de polícia são, só atiçando-lhes cães, que melhor farejam os da sua própria raça.

AS AMEAÇAS COM QUE ELES NOS CHATEIAM

Entre os temas que queremos abordar criticamente, a partir dos dados que possuímos em arquivo, cita-se o das Ameaças, Alarmes e Aldrabices, com que eles, tecno-fascistas, pretendem esmagar a liberdade humana.

Sendo eles os principais autores do Apocalipse, eis que nos ameaçam com falsos apocalipses para nos obrigarem a esquecer os reais. Com as ameaças para amanhã, querem fazer-nos esquecer as mentiras de hoje.

Para dar aos nossos amigos uma ideia das interferências abrangidas por essa verdadeira guerra de nervos - na qual fundamentalmente se apoia a guerra ecológica - vamos citar títulos com que os jornais, veiculo de ideologias e propagandas, lavam diariamente o cérebro da humanidade.

Repete-se: Ecologia é um esforço para ver a verdade, no meio do nevoeiro das propagandas.

PORQUE SOU INTRATÁVEL

Porque sou intratável, inconveniente, malcriado, analfabeto, auto-didacta, sujo, nada gentil para senhoras,

Todos me diziam, com um ar compungido, que a linguagem das minhas crónicas era inconveniente e que eu me comportava sem gentileza nos gestos nem polimento nas palavras.

Acima de tudo, as palavras, era o que mais incomodava os diligentes críticos da minha prosa em geral e das minhas incursões ditas ecologistas em particular.

Afigurando-se-me que sempre fui gentil de maneiras (para senhoras e crianças) e de palavras brandas ainda quando entusiásticas, fui averiguar, em retrospectiva, o que mais terá magoado a fina sensibilidade dos meus carinhosos críticos.

E creio que encontrei a explicação do escândalo. Ao que parece, residia aí a minha fama de intratável, de radical, de extremista, de Sá Carneiro da ecologia (como me chamou Artur Tomé), de malcriado e mal-educado, etc.

Há coisas que não se pensam e eu, além de as pensar, disse-as. Além de as dizer, escrevi-as.

Por exemplo:

ESCOLA IMPOLUTA ALIA-SE À POLUIÇÃO

Quem iria pensar a impoluta instituição do Ensino tão estreitamente ligada aos tecno-fascistas mais repelentes?

"Universidade Nova de Lisboa coopera com a Companhia de Petroquímica e Gás» - segundo um protocolo assinado em princípios de Março de 1981.

Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa irá assinar dois contratos de pesquisa no âmbito deste protocolo.

ENSINAR ECOLOGIA NA UNIVERSIDADE NOVA

O curso de pós-graduação em Ecologia Humana, ministrado na Universidade de Évora, é reconhecido pela secção europeia da Organização Mundial de Saúde, mais conhecida por OMS.

Exclamação à margem: como os criminosos se amparam bem uns aos outros - ou como o Afonso Cautela continuará a ser odiado por graduados e pós graduados, enquanto considerar a O.M.S. a catedral do fascismo e outras coisas que tais?

O ESCAPE

«GOZANDO A VIDA» OU COMO OS VAMPIROS VÃO SUGANDO O POVO PORTUGUÊS

1981 (?) - O fundo sado-masoquista e a vocação suicida do português encontra confirmação em algumas máximas correntes, que as vítimas repetem convencidas da sua "razão" inalienável. Mas esses rifões e ditados apenas traduzem uma razão "alienada", uma alienação colectiva que da inquisição aos fascismos e neo-fascismos tem sido uma constante do nosso povo.

Por exemplo: " mais vale um gosto na boca, do que duas bruceloses (febre de malta) nos intestinos."

Este pseudo-hedonismo está na base dos maiores atentados que uma sociedade pode praticar contra si própria.

E repete-se em dezenas de circunstâncias da vida quotidiana.

Os políticos de vocação totalitária esfregam as mãos e exploram a fundo este fundo sado-masoquista da idiossincrasia colectiva portuguesa.

O complexo de castração e auto-humilhação nacional radica no mesmo fenómeno de psicopatologia colectiva.

Dos intelectuais aos jornalistas, passando por políticos e economistas, todos são unânimes em considerar o país uma desgraça, uma tristeza, uma bancarrota, uma decadência, um caos, uma crise, um desespero, etc.

Bem batido, todos os dias, por esta auto-consagração da mediocridade, o português convence-se mesmo que só na auto-flagelação encontra caminho.

Daí que os governos e oposições não façam outra coisa do que accionar este nosso ancestral desgosto por nós próprios.

O que vai originar, por sua vez, o agravamento estrutural da nossa vida comunitária, auto-aviltada e que só no auto-aviltamento encontra gozo.

Se o sado-masoquismo é a expressão mais requintada do hedonismo, eis o que está ainda por resolver nas gavetas de Freud e Wilhelm Reich.

Mas que há povos, como o português, fadados para encontrar o espasmo paradisíaco na sua própria auto-destruição, eis o que me parece hoje uma evidência diária. Diariamente aproveitada pelos aparelhos partidários que encontram, nesse fundo sado-masoquista, bom terreno onde se sovar e onde cevar o ódio que já institucionalizaram .

Basta olhar, se é que ainda se pode olhar para este país em degradação acelerada e acelerada marcha para o abismo.

Quem vai ganhar - ou quem julga que vai ganhar com a derrota do povo portugués?

A PACOVIADA MÉDICO-PARMACÊUTICA

A pacoviada médica ajuda evidentemente a piorar esta psicopatologia hereditária e endémica. Ou não fossem os médicos uma das classes mais sanguinárias que vampirizam este país.

- " Coma de tudo" diz o folião do Esculápio, aproveitando o gosto sado-masoquista do doente para se mandar desta para melhor, convencido de que morreu de gozo."

O triste desta folia, porém, não é que o médico convide o doente a suicidar-se - lentamente, porém, para que o negócio não lhe fuja, prestes, da mão. O triste desta anedota é que mais uma vez o doente, o paciente, a vítima, em suma, o português, não se apercebe de que lhe estão a comer as papas na cabeça. E de que está a servir de alimento aos vampiros sanguinários de toda a classe.

Embebedam-se com a doce ilusão do machismo na variante portuguesa do machismo - outro mito do nosso folclore nacional, da nossa doença nacional, caldo onde todos os fascismos e neo-fascismos se vão retemperar.

Sardinhada e vinho tinto,  e linguiça assada é, no fundo, a moralidade que assiste a este tipo de alegre suicídio nacional, em estilo de "grande farra".

" Vale mais baquear com uma indigestão aos trinta do que andar a fazer dieta sessenta anos."

"Gozar a vida" é o lema que traduz toda esta amálgama de complexos, frustrações, auto-compensações em que a mentalidade fadista do português se encontra condicionada.

Condicionamento que, como a teoria pavloviana. do reflexo condicionado ensina, abre campo a novas lavagens do cérebro - como diariamente se pode comprovar pelos críticos de TV e vice-versa.

O FASCISMO INFORMATIVO/INFORMÁTICO

Este tipo de engrenagem surge com um fácies canibalesco ou antropofágico : devora-se a si mesma e os indivíduos fazem exactamente (e com mais fúria) aquilo que os destroi, adoece, envilece e mata. Uma sociedade auto-destrutiva é o reflexo de uma engrenagem auto-contraditória.

A terapêutica nazi caracterizava-se exactamente pela virtude "depuradora" do sistema , que conseguiu milhões de adeptos dizendo que torturava os corpos para salvação das almas.

Daí que, num contexto canibalesco, o comportamento lógico e racional surja como aberração e logo o seu agente seja motivo de perseguição.

De todas as virtudes que a propaganda informática se auto-glorifica, nunca ninguém disse a maior virtude de todas : vai provocar o desemprego maciço.

Não só os futuros desempregados já veneram o grande progresso informático mas continuarão a adorá-lo quando já morderem lama e pó, quando estiveram lançados no desemprego. A técnica que hoje adoramos, será a que nos há-de triturar e torturar. Para salvação da nossa alma.

MICHEL BOSQUET: «ATENÇÃO AOS ECO-FASCISMOS»

Michel Bosquet, em artigo publicado na "Seara Nova", chamava a atenção para o que ele designa de "Eco-fascismos".

E entre os mais frequentes mas menos notados da opinião pública, citamos o dos anúncios que se servem da Natureza para impingir a anti-natureza de produtos cada vez mais cancerígenos. Citava os "clubes de férias" que exaltam os bons espaços livres, despoluídos e verdes, quando são as próprias empresas deles accionistas que concorrem em boa parte para poluir e destruir as belezas naturais que restam.

O próprio turismo como poluição urbanística de muitos litorais, entra na categoria de uma eco-propaganda .

Mas nada é de admirar num tempo em que a Paz é constantemente invocada pelos fautores da Guerra, o socialismo é propalado pelos que se aliam a todos os fascismos quotidianos, e a qualidade de vida serve de slogan a quantos ministérios da indústria concorrem para nos fazer a vida mais chata, mais dura, mais porca e mais desclassificada.

De cada vez que nos prometem saúde as respectivas instituições, a gente já sabe que é para ganharem dinheiro com o incremento da nossa doença que eles próprios a ajudaram a provocar e a manter.

De cada vez que nos anunciam segurança, já se sabe que empresas estão interessadas em explorar a nossa insegurança e em manter um permanente estado de choque nas casas, nas ruas, nas consciências.

Não admira , pois, que a Natureza seja hoje parte integrante da propaganda  dos que melhor e mais assiduamente a assassinam.

Mais alguns exemplos do quotidiano, a não perder de vistas

SILÊNCIOS

Indefinidamente adiada para as calendas qualquer pequena melhoria da vida e da qualidade de vida dos portugueses, a propaganda "salvadora", quer do Governo (de a a z) quer das oposições, soa cada vez mais a rachado e a falso. A fraude.

O trabalho pedagógico de emancipação cívica dos portugueses, que se esperava do 25 de Abril, veio sendo gradualmente destruído pelo crescente sectarismo das forças ditas da direita como as ditas de esquerda. Ditas e duras.

A pretexto das prioridades materiais, consolida-se , com a expedita conivência dos "mass media", o monstruoso aparelho de alienação herdado de um regime totalitário.

Nesse monstruoso aparelho de alienação colaboram hoje todos os propagandistas da banha da cobra - que vão conquistando, passo a passo, o terreno para os seus domínios feudais.

Na zona A do país domina o partido R, na zona H domina o partido P, na zona X o partido Y, etc. etc.

Serviços públicos e empresas estatizadas, fazem larga e intensiva publicidade nos jornais e nos órgãos de Comunicação Social em geral.

Estranho fenómeno este.

Quando se supunha que a publicidade era entre concorrentes particulares, empresas que procuravam vender o seu produto melhor do que o rival, a publicidade de grandes empresas Monopolistas - como a EDP, a Quimigal, a Portucel, a Rodoviária Nacional e tantas outras, - é o grande enigma proposto neste país de enigmas que já ninguém nota nem discute.

Mas claro que a gente percebe porquê.

A Rodoviária Nacional serve mel e porcamente a clientela, é lastimoso o serviço público que presta. E com uma boa oferta de anúncios evita que a Imprensa a incomode com críticas.

O público, abafado nos seus protestos, aguentará mais uma vez como tem aguentado sempre.

A empresa nacionalizada, já intocável, mais intocável se torna com a publicidade que, clara e obviamente, compre o silêncio dos jornais.

É o circulo vicioso da mentira, como alerta o filme de Schlondorf .

A manifesta aversão das populações pela Empresa Pública Electricidade de Portugal parece inspirada por um atávico instinto de auto-defesa.

As intocáveis como a EDP, regra geral, mediante lautos anúncios nos jornais e toda uma propaganda auto-elogiativa, conseguem criar uma imagem de marca que põe as populações em respeito.

Com a EDP, porem, não lhe tem valido as campanhas de autopromoção, com anúncios de página nos jornais. O povo detesta-a.

BOLAS PRÓ ESCARAVELHO

28/8/1979 - Embora não compartilhe a paixão necrófila que anima o camarada António Borga, nem seja do meu gosto mexer em excrementos como ele tão cuidadosamente faz, em artigo de O Diário (28.Agosto.1979), não deixo de concordar que é sempre oportuno fazer a história da resistência à ditadura, descobrir mais alguns documentos que estavam escondidos, evidenciar, casos de heroísmo e de anónimo sacrifício pela liberdade, nesses tempos tão negros da tirania.

Considero mesmo um acto de elementar justiça, evocar casos como o de Correia da Fonseca, que, enquanto crítico de televisão no diário A Capital, e devido á sua corajosa independência, se tornou necessariamente alvo dos ódios, perseguições e saneamentos praticados pelas autoridades marcelistas.

Cada um diverte-se como entende e este jogo de escaravelho (mexer em excrementos) tem , pelos vistos., muitos apaixonados entre nós. Por outro lado, certas forças políticas e seus órgãos de informação, têm absoluta necessidade de manter r vivo o fascismo, pois a sua estratégia reside unica e exclusivamente na luta anti-fulano ou anti-beltrano, sem qualquer alternativa revolucionária autêntica a propor.

Num momento em que , por acasos da conjuntura, não há um alvo Beltrano ou Sicrano, um Mota Pinto, um Cardia, um Barreto, um Gonelha, um Qualquer-Coisa " a abater" e flagelar dia e noite (alimentando assim, com alguma comida, as massas trabalhadoras e a clientela do respectivo partido completamente desmotivada e desmobilizada), eis que há a necessidade cíclica de voltar aos "alvos" históricos de antes do 25 de Abril.

Aos cadáveres. E remexer, remexer neles, para manter "viva" a chama. Como dizia Artaud, os mortos são necessários: aos vivos para que vivam...

Quer dizer, sem anti-isto, anti-aquilo, anti-fulano ou anti-beltrano, há partidos que desapareciam literal e absolutamente de cena. Naufragavam. Deixavam de existir politicamente

Por esta e outras razões, compreende-se, portanto, o relevo que O Diário dá ao artigo de António Borga sobre as relações epistolares entre Ramiro Valadão, chefe mor da Televisão de então e Homem de Melo, que além de possuir uma quinta da Aguieira muito confortável (e que muitos neo-realistas de então certamente lhe invejariam, por as quintas deles não serem tão frescas) ascendeu, por bons serviços prestados ao regime, a director do jornal A Capital.

O jornal onde precisamente se desenrolam alguns capítulos da história da censura desses tempos, capítulos ou excrementos meticulosamente mastigados no artigo de Borga.

Só que o rigor arqueológico-excrementício do camarada António Borga só vai onde politicamente lhe convém ir. Quer dizer: onde retira louros e glórias para os da sua cor, tudo o resto ficando no limbo e no nada da capitulação jornalística.

Já disse que evocar a luta crítica de Correia da Fonseca é de elementar justiça mas não é isso que está em causa. Está em causa, sim, registar as omissões que, voluntárias ou involuntárias, são francamente facciosas, ou ainda pior.

Primeira omissão: nunca diz o artigo que, se Correia da Fonseca durante muito tempo se manteve na crítica de televisão da «A Capital» e se não há que lhe regatear méritos por isso, em boa e grande parte isso se deve também ao Rudolfo Iriarte, chefe de redacção, sempre pronto a defender, até onde lhe era e é humanamente possível, a independência de escrita dos seus colaboradores.

Se os historiadores da censura em Portugal são tão zelosos em coleccionar heróis anti fascistas, talvez não fosse má ideia lembrar, ao menos uma vez, um dos homens que mais ferozmente tem defendido a classe dos jornalistas e o nosso trabalho profissional, contra todas as pressões de melos, valadões, moreiras baptistas, ministros de ontem e de hoje, badamecos disto e daquilo, censuras pretas, azuis, vermelhas, às riscas .

Esse homem é Rudolfo Iriarte: é esta a primeira omissão sectária e obtusa do senhor Borga.

O problema da colaboradora de teatro, Dá Mesquita, é citado por Borga mas apenas porque lhe interessa , com isso, fazer mais recente chicana antí-proencista de carvalho. De contrário, tê lo-ia omitido também. Não servia directamente ao bando da sua cor.

Mas agora venho eu. Quando o historiador Borga transcreve a carta onde o sr. Valadão convidava a despedir alguns críticos de então d’A Capital, fala também no de cinema. E o de cinema era então o Afonso Cautela, que por lá estava e esteve por vontade e boa vontade do Rudolfo Iriarte. Era um crítico incómodo, mas não era evidentemente uma vedeta do antifascismo...Portanto, o camarada Borga omite.

A verdade, porém, é que o Iriarte foi pressionado para que eu saísse da crítica. E a única solução de compromisso que encontrámos, mas também por pouco tempo, foi um "pseudónimo". Homem de Melo, incitado por Valadão, deve-se ter apressado a sanear os críticos incómodos que Iriarte gostava de ter como seus colaboradores .

O crítico de cinema Afonso Cautela, portanto, como não era neo-realista, aguentou sempre, ao longo dos longos anos, não só as censuras oficiais que se abatiam sobre os "antifascistas" mas todas as censuras "intelectuais" que se abatiam e abatem sobre quantos não estiverem filiados no partido, condição para se ter todas as virtudes políticas e para se ser o eterno herói de todas as resistências.

A ROTINA DA REDACÇÃO

O contacto com os serviços responsáveis não é fácil.

A começar nos telefones sistematicamente interrompidos, raramente respondem quando alguém necessita.

Fiz a experiência enquanto jornalista à procura de notícia.

E julgo deixar aqui uma lista dos contactos nesta área, aqueles de que tiver conhecimento.

Os vinte pontos do nosso inquérito foram enviados a todos esses serviços. Aguardámos que nos respondessem ou que solicitassem a nossa presença pessoal para mais detalhados esclarecimentos sobre o respectivo serviço ou departamento e continuaremos a aguardar. Este inquérito continua em aberto. Registamos os serviços contactados.

- - - - -

(*) Felizmente que ficaram inéditos (a maior parte). É um chorrilho de indisposições com incidência no charco português e algumas das suas figuras emproadas em destaque na época (1981? 1980?).

Belo tempo perdido a passar ao scanner este lixo . Única vantagem: ver se me livro de uma miscelânea de papéis/rascunho e apontamentos (a rasgar, a rasgar logo) , num só file, que ocupa, apesar de tudo, menos espaço no armazém de secos e molhados, que continua a ser esta casa. Que grande frete, em qualquer caso e que belo domingo perdido com isto, com o gravador CD a fazer das dele e com o computador a não querer reiniciar como mal de raiz.

Confissões e desabafos que talvez servissem, na altura, de autoterapia mas que hoje são apenas papel para o lixo. E, no entanto, recuperei-os: ficam como tópicos , se um dia quiser escrever as minhas memórias póstumas, ideia de que me tenho vindo a desligar lenta mas paulatinamente.

Mete crítica de cinema, quesília com o jornalista António Borga d’ O Diário , chatices com isto e com aquilo: mas tudo para quê e porquê?

Porque só queria, como sempre quis, salvar o mundo. O que implica o travesti de herói, de querer armar ao herói – a que na época chamava humildemente franco-atirador- , lamentando que não se «possam» criticar – tocar – os intocáveis de todos os feitios.

Esta mania de reformar, de criticar, saiu-lhe cara e foi bem feito. Foi sempre uma reles imitação dos heróis de Frank Capra ou do mestre ensaísta que o induziu, o António Sérgio.

Não contente em ter ladrado o que ladrou, nestes papéis inéditos, achou por bem editar (!) um caderno só sobre as mesmas aflições do jornalista, coitadinho, rodeado de censuras de esquerda e de direita, por todos os lados. Não querem lá ver que até se tomava a sério no papel de jornalista? Espero bem que muitos destes dislates não tenham afinal sido publicados nesse opúsculo sobre informação.

5/5/2001■