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         10136 caracteres <cff-3 ><chave><cartas> carta de afonso cautela a carlos filipe preparando a nossa histórica entrevista – testamento – listas de recapitulação – chave ac para ideias ac -

OS DOSSIÊS DO SILÊNCIO

DO ANO 1989 PARA TRÁS

 

Lisboa, 30/Maio/1994 - Por ser o último ano em que publiquei a CPT (Crónica do Planeta Terra), uma revisão das CPT de 1989 pode ser um bom ponto de partida para a nossa entrevista.

Quase todos os pontos quentes do realismo ecológico por ali passaram, quase todos os temas polémicos e malditos, quase todas as teses incómodas e perigosas por ali fizeram escala. Foi também em 1989, na CPT de 1/Junho/, que citei o teu nome: «Três Vezes o Nome de Carlos - A Morte Anunciada».

Vendo mais de perto as CPT de 1989, constato que nunca escrevi tanta coisa para me meter no inferno. O Manifesto dos Silêncios - recordo - foi um dos projectos que alimentei e que continua a passar fome, pois pouca comida lhe tenho dado.

No centro das questões odiosas - as que o sistema particularmente odeia e me odeia por isso - está a do Cancro Ocupacional, eufemismo de Cancro profissional, que por sua vez é eufemismo de Cancro do Trabalho. Veja-se, portanto, «Carta Aberta a Elisa Damião - In Memorian para José Alfredo» e, quase da mesma data, «Bruxas & Curandeiros - A Farra dos Charlatães» ( 5/10/1989).

Quase tão odioso ao sistema como este tema do Cancro Medicamentoso ou Cancro Médico, vem o tema da Eucaliptomania que desertifica Portugal, em que reincidi várias vezes, ao longo do ano de 1989, sabendo embora muito bem que me metia cada vez mais numa camisa de onze varas. Insisti, por várias vezes, nomeadamente na CPT de 30 de Setembro de 1989, na catástrofe ecológica do Eucalipto e, principalmente, na minha tese pessoal e intransmissível, a mais particularmente polémica, da ligação entre Eucaliptos -Incêndios de Verão - Celuloses-Desertificação.

Em 20/10/1989, com «Lógica Perversa - Greves contra o Povo», volto a um dos temas mais perigosos.

Já em Setembro, num dos sábados de Setembro, a CPT «Restos Mortais de 89 - Cadeira Eléctrica para os Idosos», retomava o tema mais que polémico, e tabu por excelência, o tratamento dado à velhice e o modus faciendi dos organismos na questão dos direitos humanos dos velhos. «Cadeira Eléctrica para a 3ª Idade», dizia um subtítulo dessa CPT, que logo um bom chefe de família me terá classificado de exagero .

Num crescendo de me expor à fogueira das santas inquisições, o ano de 1989 culminaria com a CPT «O Avozinho», onde me permitia (também eu) a ousadia de me dirigir ao nosso PR, com todo o carinho que um PR deve merecer. Mas a propósito dos rebentamentos subterrâneos, na Muroroa, ordenados por «mon ami Mitterand» é que já não era nada carinhoso.

Em 20/12/1989, lembrava - pela segunda vez - que Sakharov foi, afinal, muito concretamente o construtor do poderio nuclear soviético e não aquele mártir e herói que os pronuclearistas quiseram fazer dele.

Ainda no Chafurdo, os mitos da cultura de elite, fizeram-me brotoeja mais uma vez : Depois da Cultura, o Dilúvio, Consumidor da Cultura Sofre, Deambulações numa Feira Deserta, foram títulos provisórios antes do definitivo «Índices de Inflação - Cultura em Férias»(CPT, 15/7/1989).

Não iria imaginar que as minhas teses ficassem na moda, em 1994, quando em 1989, denunciava o mito das europas e invertia o slogan oficial, proclamando o meu slogan: «Não é Portugal que vai entrar na Europa, mas a Europa dos lixos tóxicos e perigosos que vai entrar em Portugal». Acho que escrevi qualquer coisa, em 1989, contra o fascismo da eurocracia: «Eu por mim voto em mim - Uma no Cravo, outra na Ferradura» (CPT, 28/2/1989).

Indo ainda mais ao regional, alonguei-me de novo contra a cidade de Lisboa, porque havia eleições nesse ano, ao que parece. «Amêndoas aos que Saem - Ai de quem Ganhar a 17» ( CPT, Julho/1989)

Com «Barulhos da Cidade», ainda regressei em 1989 a campanhas que supunha já abandonadas e a causas completamente perdidas, como foi a do Ruído, uma das minhas mais antigas obsessões, pois até um livro - «A Indústria do Ruído» - me mereceu. De facto, manifestei mais uma vez a minha estranheza sobre o silêncio crónico que há mais de vinte anos se tem feito à volta do Ruído. Não sei se o meu manifesto dos silêncios não deveria mesmo começar com o do Ruído, talvez o silêncio mais eloquente de todos. Valia a pena indagar  porque é que o Ruído é um tema tão silenciado. Se não fosse o Ruído - «o vómito do Ruído» como cheguei a escrever um dia em título - creio que nunca teria descoberto a ecologia e que as agressões do Ambiente nunca me teriam incomodado. Creio que nunca teria feito a mais brilhante das minhas descobertas, a da Ecologia Humana, tão intrinsecamente ligada ao «ecorealismo» (também da minha autoria) e à radicalização do «ecologismo» que me opôs a todas as correntes reformistas e escutistas e campistas da ecologia.

Ainda a cidade e por causa das eleições desse ano, «Até Dezembro em Lisboa, Viver Melhor com os Nossos Buracos» (CPT, 5/8/1989), «Vaga de Asneiras submerge Lisboa - o Cadáver esquisito da «Frente Popular» (12/8/1989) CPT's para derramar o meu  ódio à cidade de Lisboa. Ou ainda «O Cadáver de Lisboa - Poder & Cultura, Ldª» (26/8/1989 )

Outros títulos de CPT 89 que podem conduzir a pistas da nossa entrevista:

Outros itens deste 1989: