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27-12-1997

PENSAMENTOS DE MAURICE MERLEAU-PONTY

AVENTURAS DA DIALÉCTICA

O filósofo conhece-se pela posse inseparável do gosto da evidência e do sentido da ambiguidade.

Maurice Merleau-Ponty

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Não teríamos razão para crer, como Bergson, no entanto, escreveu, que o filósofo fala durante toda a vida à falta de poder dizer aquela «coisa infinitamente simples» que desde sempre se encontra «num ponto único» de si próprio: fala também para dizê-la, porque ela não existe plenamente antes de ser dita. É inteiramente verdade que cada filósofo, cada pintor considera aquilo a que os outros chamam a sua obra como o simples esboço de uma obra que fica sempre por fazer, o que não quer dizer que essa obra exista algures acima deles próprios, que para a atingirem precisariam unicamente de a desvelar.

MMP

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O filósofo pode contentar-se com argumentos deste género (os argumentos da teodiceia clássica que fazem do mal um bem menor) no silêncio do seu gabinete: mas o que pensará diante de uma mãe que acaba de ver morrer o seu filho? (Bergson citado por MMP)

Na teologia bergsoniana, como talvez em toda a teologia posterior ao cristianismo, há qualquer coisa de «movediço» que faz que não se saiba nunca se é Deus que sustenta os homens no seu ser humano ou se se dá o inverso, pois, para reconhecer a sua existência, é preciso pasar pela nossa, não sendo isto um desvio.

MMP

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Ora, a filosofia livresca deixou de interrogar os homens. O que nela há de insólito e de quase insuportável está escondido na vida decente dos grandes sistemas. Para reencontrarmos a função integral do filósofo precisamos lembrar-nos de que até os filósofos-autores que lemos e somos, nunca deixaram de reconhecer como mestre um homem que não escrevia, que não ensinava -- pelo menos nas cátedras do Estado -- que se dirigia àqueles que encontrava na rua e que teve dificuldades com a opinião pública e com os poderosos, precisamos lembrar-nos de Sócrates.

MMP

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Porque, enfim, cada um de nós sabe que, excepção feita ao nosso caso, o mundo tal como está é inaceitável; gostamos que isto se escreva, para honra da humanidade, e para o podermos esquecer depois, quando regressarmos aos nosso afazeres. Por isso a revolta nos não desagrada.

MMP

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A mesma volubilidade que evita qualquer religião da humanidade, retira também os seus esteios à teologia.

MMP

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A novidade de Marx, como crítico de Hegel, não está, pois, em ter feito da produtividade humana o motor da história e em considerar a filosofia um reflexo do seu movimento, mas em haver denunciado o artifício pelo qual a filosofia introduzia o sistema na história, para depois o encontrar lá e reafirmar a sua omnipotência quando parecia renunciar a ela . O próprio privilégio da filosofia especulativa, a pretensão da própria existência filosófica de esgotar todas as outras formas de existência, como dizia o jovem Marx, é em si própria um facto histórico, não é um facto gerador de história.

MMP

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Lembremo-nos de que Marx insiste na impossibilidade de pensar o futuro.

MMP

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Recusando ao pensamento filosófico o poder de exaustão, Marx não pode, pois, como julgaram os seus sucessores e como ele próprio talvez tenha julgado, transformar a dialéctica da consciência em dialéctica da matéria ou das coisas: quando se diz que há uma dialéctica nas coisas, não pode ser senão nas coisas enquanto pensadas, de modo que, ao fim e ao cabo, esta objectividade é o cúmulo do subjectivismo, como tinha sido mostrado pelo exemplo de Hegel. Por isso, Marx não desloca a dialéctica para as coisas mas sim para os homens, considerados, bem entendido, com todo o seu ingrediente humano e enquanto empenhados pelo trabalho e pela cultura, numa empresa que transforma a natureza e as relações sociais. A filosofia não é uma ilusão: é a álgebra da história.

MMP

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Assim como o Deus exterior é um Deus falso, também a história exterior já não é história. Os dois absolutos rivais vivem apenas se, no meio do ser, se instala um projecto humano que os recuse, e é na história que o filósofo aprende a conhecer esta negatividade filosófica a que se opõe em vão a plenitude da história.

MMP

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O filósofo da acção é talvez o mais afastado da acção, falar de acção, mesmo com rigor e profundidade, é declarar que não se pretende agir. Maquiavel é o oposto a um maquiavélico, pois descreve as manhas do poder, pois, como se disse, «divulga um segredo».

MMP

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O mesmo escritor que disse que toda a acção é maniqueísta, tendo depois entrado na acção, respondia familiarmente a um jornalista que lhe lembrava: «toda a acção é maniqueia, mas não devemos reconhecê-lo».

MMP

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Quanto aos homens simplesmente homens, que não são profissionais de acção...

MMP

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(*) M. Merleau-Ponty, «Las Aventuras de la Dialéctica", Ediciones Leviatan e «Sinais», Ed. Minotauro, Lisboa©©©