1-5 <arrabal-md-1-3-ol>

<arrabal> diário de um espectador de filmes - 9564 caracteres <compact><emcurso><livros-filme> - inédito ac de 1974

 

[9/Outubro/1974] - Mais religiosa do que histórica, mais mitológica do que lógica, mais metafísica do que dialéctica, a visão «pânica» do mundo que Arrabal sustenta e de que o filme «Viva La Muerte»(*) , baseado no seu romance «Baal Babilónia», é o mais completo compêndio, dificilmente se poderá inserir nos esquemas de análise correntes.

Relapso a sistemas prévios, a uma ideologia que não seja a da sua própria exuberância existencial, a história que Arrabal narra é a sua e não queira ver-se na época ou nas alusões a uma concreta geografia política, mais do que cenários onde a cerimónia «pânica» decorre.

A cerimónia da crueldade e da inocência. Da tortura e da expiação. Do canibalismo e da autofagia. Do excesso e da fome. Do sangue e dos excrementos. Do sublime e do abjecto.

AUTOFAGIA E CANIBALISMO, PORQUÊ?

A humanidade de Arrabal (fielmente traduzida pelos desenhos de Topor que ocupam o genérico, aliás tão notável quanto o filme) consome-se numa perpétua autofagia, num canibalismo crónico que vem desde o princípio dos séculos (no princípio era a tortura, dirá a bíblia pânica...) e aponta escatologicamente para o fim dos tempos.

Visão mítica, certamente circular, desesperada e sem alternativa, por isso pouco ou nada dialéctica (a espiral taoísta encontra-se arredada da cosmovisão de Arrabal) não vejo porque havemos de censurá-lo pela franqueza de confessar uma fraqueza que é dele e nossa, a coragem com que nos põe e propõe o que outros talvez sintam e pensem mas não ousam, por compromissos ideológicos pré-assumidos, dizer em voz alta.

Franco-atirador, Arrabal está à vontade para desatender os compromissos a que nunca se enfeudou...

Crer ou não crer no destino do homem, acreditar ou não na sua intrínseca crueldade (ou bondade), é um direito fundamental do homem e, sob nenhum pretexto, ideológico ou pragmático, didáctico ou cívico, se poderá negar esse direito.

Se, como no caso de Arrabal, há indiscutível talento estético (que chega a roçar, na pior das hipóteses, o precioso e o alambicado), afigura-se-me higiénico, de vez em quando, alguém sondar os abismos da espécie humana, seus desvãos e cavernas, parece-me útil estas «viagens ao fim da noite» onde o grande pavor (o grande pânico...), o grande horror se mostra como a outra e real dimensão do homem.

Realismo não é só o que relata, descreve, pinta as superfícies diurnas, as planícies solares e os contornos sem ambiguidade das relações lógicas, sociais, racionais.

Realismo é também o que prescruta túneis e cavernas, labirintos e «babilónias», enfim, aquela realidade nocturna, irracional, para-lógica e surreal dificilmente devassável por olhos conformistas.

Arrabal é um espeleólogo daquele inconsciente colectivo que Jung teorizou, um mergulhador nas profundidades oceânicas onde se encontra a parte imensa e imersa do «iceberg». Não sendo o único poeta, o único profeta a explorar essas águas, Arrabal é, com certeza, um dos que têm obtido maior êxito público com a aventura... E continua obtendo.

ESPELEÓLOGOS DO POSSÍVEL/IMPOSSÍVEL

Uma ética pouco exigente classificará de «pessimista» a visão lúcida, exigente, incorrupta desses espeleólogos do possível/impossível. Como todos os rótulos, esse é mais uma esquematização inadmissível de uma realidade complexa. O homem não é um mecanismo tão inteiriço como as ideologias, para comodidade partidária, o fazem. Guarda contradições de dimensão imprevisível e quase monstruosa. Libertar os monstros desses subterrâneos -- como Arrabal faz em «Viva La Muerte» -- até que todos se devorem entre si, tem sido a função de uma arte que, designada fantástica, apenas se limita a relatar estratos do real que, por norma, escapam às ópticas diurnas e de superfície. Quando o homem dorme, abrem-se os portões para o mundo que os poetas conhecem.

Sensível, no filme de Arrabal, são os estratos culturais (religiosos) sobrepostos mas distintos que se podem divisar: se a referência ao estrato mais antigo, a cultura púnica, é evidente logo no título que o romance original ostenta (lembremos que a obra se chama «Baal Babilónia» e lembremos que o Deus Baal é, pelos autores clássicos, identificado com Cronos ou Saturno, deus que devora os seus próprios filhos) -- vem depois a herança católica e judaico-cristã mas, distinguindo-se desta, o contributo propriamente hispânico.

Os hábitos da tradição hispânica -- semana santa, verbena de la paloma, touros e touradas -- explicitam-se em contornos diferenciados dos hábitos que, mais antigos e enraizados mas antecedentes ancestrais, não deixam de constituir o seu melhor pano de fundo.

O que Arrabal nos diz, sem sombra de dúvida, é que a «guerra civil», por muitas causas próximas que tivesse a defini-la e a diferenciá-la, vem detrás, vem desse magma infernal onde nascem todas as religiões, a crueldade e a inocência, a pureza e a hediondez de todas as religiões. Afinal, do homem.

As imagens de sacrifício e as situações de tortura não deixam de se sobrepor neste filme que é talvez a súmula do homem como torturador congénito, como torcionário incurável de si próprio, como lobo do homem : os carneiros no matadouro (em cujo charco de sangue a mãe de Fando se banha voluptuosamente...), a ventosa que o barbeiro aplica na cabeça do cliente, a avó que queima o dedo do neto para o «educar», a freira que manda o aluno ficar de pé com dois pesados dicionários nos braços, eis que em todos os momentos a tortura se mostra a constante do homem (na visão de Arrabal) e, por isso, eminentemente teatral ou cénica, já que o cinema de Arrabal é fundamentalmente espectáculo-cerimónia-teatro. E já que o teatro é, na sua visão, a essência do homem.

UM BAAL IBÉRICO

Se, para Arrabal, o teatro não anda longe da cerimónia, da liturgia, do sacrifício e do ritual, é sempre a um deus sangrento e devorador dos seus próprios filhos (um Baal ibérico) que Arrabal se entrega, com toda a alegria que pode haver no sofrimento.

Fando é a infância de Arrabal, a sua inocência massacrada, a fase iniciática do grande banquete de sangue e morte da existência. Em outra sensibilidade que não a deste rapazinho de Ciudad Rodrigo talvez não tivessem ficado as marcas desses terríveis dias da guerra civil em que Franco assegurava estar disposto a matar metade do País, se tal fosse necessário para manter a ordem... Mas na sensibilidade de um poeta, de um homem em revolta, resultaram fatalmente em uma maneira de ver o mundo, de o odiar, de nele escarrar até às fezes. É da infância, anterior à consciência da traição, anterior ao nojo e à náusea, anterior à tuberculose e ao paroxismo da humilhação, que pertencem as imagens serenas, líricas, límpidas que o filme contém. Desta matança que é a cerimónia pânica, algo sai ileso: um pouco de amor filial, um pouco do jogo infantil e pouco mais. Baal, o deus sangrento, irá em breve devorar os filhos, não mais lhe deixando um segundo de tréguas. O que torna o filme obcecante é essa guerra (civil) perpétua, essa voragem autofágica, esse insaciável canibalismo.

Nada é solene, nada é sagrado ou sério para a cerimónia pânica, porque o absurdo fundamental da vida, da história, do homem torturador do homem, jamais o consentem. Nem a morte, nem a inocência, nem a beleza, nem a maternidade escapam ao hálito infernal: tudo sai corrompido e vil desta visão impiedosa que totaliza e torna indivisível, embora em guerra civil, a espécie humana.

Para a escola pânica, a guerra civil é de sempre e vem, como o canibalismo, como a autofagia, de idades míticas em que, prostrados, todos adoravam o Deus Baal. Se a morfologia histórica de uma guerra civil e seus pelotões de fuzilamento pode fazer esquecer momentaneamente essas raízes míticas, a cerimónia pânica recorda-o de novo, pelo silício, pela blasfémia, pelo anátema e pelo sacrilégio.

As crianças comem sanduíche de escaravelho, depois de minuciosamente o escortejarem com uma lâmina... Pequeno e rápido apontamento de uma lei geral, permanente: a tortura infligida pelos seres, constante e continuamente, é a «guerra civil» de que Arrabal narra a crónica e onde a outra -- a de Franco, a dos fascistas contra comunistas, a da resistência e da prisão de Burgos -- passa apenas a eco ou reflexo.

Quando os soldados de Franco vão pelas serranias de Castela proclamando o grito de guerra franquista -- «Viva la Muerte» -- e assegurando que, se necessário for, matarão metade da população de Espanha, o fenómeno histórico é claramente um eco do nómeno ôntico...

Quando, na apanha da uva, vemos os trabalhadores obrigados a usar açaimo para não comerem a fruta que apanham, é apenas a nota quotidiana, gritante de um princípio geral -- a humilhação que preside à exploração do homem pelo homem.

Os próprios preconceitos de um catolicismo bárbaro têm um sabor a torturas celtibéricas: a avó que queima o dedo do neto por este pôr a pilinha à direita, «feito maricas»; a tia de Fando pedindo-lhe que a fustigue com um látego, para que o avô, ao expiar os múltiplos pecados, sofra menos no outro mundo; a freira-professora submetendo os alunos a constantes torturas; mesmo Fando, quando puxa os cabelos da sua pequena companheira, é um inevitável sintoma do que nele já existe de satânico -- de pânico. E quando a histeria religiosa, aproveitando a sangrenta repressão política, estigmatiza de «revolucionário vermelho» aquele que não acredita no deus católico, temos aí apenas outra forma que a imensa morfologia do Mal encontra para se revelar entre os homens.

-------

(*) Filme distribuído pela Animatógrafo

 

+

 

1-4 - <arrabal-2-bd>hemeroteca pessoal - sábado, 10 de Maio de 2003-novo word

(*) Este entrevista realizada por Afonso Cautela, foi publicada no jornal «O Século», 3-9-1973

[3-9-1973]

Fernando Arrabal foi o autor de teatro mais representado no Mundo, durante o ano de 1972 - segundo informa a Sociedade Francesa de Autores, em Fevereiro do ano corrente, 1973.

No entanto, instado para que nos revelasse o seu actual rendimento em direitos de autor, insistiu num número que nos parece improvável: 400 dólares por mês, cerca de 11 mil escudos ...

- É, então, um autor universal, neste momento, mas não fabulosamente rico como daí se deveria imediatamente depreender?

- É uma sorte, não porque o mereça – diz-nos este homem de 41 anos, com 50 peças escritas, dois filmes escritos e realizados. Obras completas editadas em França: 10 volumes, O seu último filme estreará em Outubro, em Paris. O anterior, «Viva La Muerte», baseado na sua novela «Baal-Babilónia» foi considerado por muitos críticos ao lado de « L'Age D'Or» (Buñuel) e Potemkine (Eisenstein).

Infelizmente, ignoramos em Portugal o cinema de Arrabal, e ele também o lamenta, embora o seu teatro já tenha aqui alguma divulgação: Fando e Lis, há anos, na Casa da Comédia e agora Cemitério de Automóveis, pela Companhia Brasileira de Ruth Escobar, em Cascais.

É com ironia que ele nos fala das 50 teses (algumas em livro) que já foram consagradas à sua obra, à exegese da sua obra. Ele não compreende o que os críticos inventam... Como lhe atribuem um fundo de crueldade, de violência, de horror e de pesadelo, quando se considera (às vezes) um anjo, ou gosta que o considerem, quando o seu olhar sobre o mundo e a existência é mais o de uma criança do que o de um desesperado, ou um «desalmado».

- Escreve sempre em francês?

- Escrevo mal o francês, mas minha mulher corrige.

A esposa de Arrabal é Luce (nela se inspirou para a personagem Lis, de Fando e Lis) Moreau, catedrática da Sorbonne.

Arrabal recusa consagrações. Detesta o mito que os teóricos dele fazem. Mas aceita com a mesma mansidão e beatitude o mau e o bom que o destino lhe traz.

Conforme nos conta, fez publicar na Alemanha um livro com fotos pessoais, de tal modo «abjecto» que o impeça de vir a ganhar o Prémio Nobel ou qualquer outro galardão. Tem uma dedicatória expressa nesse sentido. E publicou-o na Alemanha, porque a censura francesa não o permitiria.

É assim Arrabal. Um provocador nato. Um indisciplinador de almas (e de corpos). Não por maldade (acusaram-no de vicioso - mas que sentido tem essa palavra, numa voz que raia tantas vezes os limites místicos da ternura e da mais mirífica, ingénua, pureza?) não por gosto sádico de fazer ou provocar o mal - faz questão de frisar - mas porque importa acima de tudo salvaguardar a liberdade.

- Todo o espírito da minha obra vem de eu ser espanhol. O que nela encontram de vanguarda é apenas, quanto a mim, o que nela há de espanhol e o que em mim persiste dessa telúrica condição, dessa fidelidade às raízes ancestrais.

Os exegetas são unânimes em considerá-lo quase sempre autobiográfico. Não desmente.

- Quando cheguei a França em 1953, estive doente, dois anos tuberculoso. Mas eu acho que todas as doenças são psíquicas. As doenças são o reflexo do estado espiritual de uma pessoa. Por mais extenuante que seja o amor ou o trabalho, nunca se adoece quando se existe Por amor. Adoeci, porque não Podia respirar espiritual, intelectual e moralmente. Tinha 10 peças escritas e não podia publicar nenhuma. Abafava. Queria publicar e escrevia para a gaveta. Insuportável. A comunicação é imprescindível, é como respirar.

Impossível enumerar os países e cidades onde neste momento se representam peças de Arrabal. Nem Jean Anouilh, nem Neil Simon o conseguiram ultrapassar em 1972. Praticamente, em todo o mundo se representa Arrabal, mas principalmente a cargo de grupos de vanguarda, que o elegem profeta e deus favorito, tutelar.

Fala-nos, entre outras, das representações em Nova York de «E Puseram Algemas às Flores», título que foi buscar a Garcia Lorca, sua evidente homenagem ao poeta andaluz.

Nascido no Marrocos espanhol, Francisco Arrabal é de Ciudad Rodrigo, que guarda as mais intensas recordações de infância. Seu pai evadiu-se da Prisão de Burgos e ainda hoje não sabe se ele é ou não vivo.

Londres, Atenas e Praga, são outras cidades que neste momento têm peças de Arrabal em cena. Teatro que é ritual teatro que participa do mágico e do catárctico.

Diz não compreender a dialéctica das influências em que os críticos falam. Aconteceu-lhe ouvir citar Beckett e supôs tratar-se do poeta Bequer, romântico espanhol, tomado como bandeira da reacção. Ficou ofendidíssimo e só depois soube tratar-se de Samuel Beckett, que leria, mais tarde, antes de ter sido «ofendido» com o Prémio Nobel. Acusava «influências» de um autor que só leria largos anos mais tarde...

Não nega, no entanto, que haja identidade, um mesmo clima e que caminham em direcções análogas. E, segundo ele, o espírito do tempo, que só alguns sintonizam.

Com a naturalidade das coisas inevitáveis, lembra que 1967 foi para ele um mês de cárcere, após um julgammento de retumbância mundial, em que era acusado de injúrias à pátria e em que Samuel Becket escreveu uma carta aos juízes, onde dizia: «O sofrimento de um poeta não acrescenta nada à sua pena».

- O facto de ser muito conhecido contribuiu para me suavizarem a pena. Apenas um mês... Beneficiei de clemência.

Pode por isso agora viver num quinto andar de Paris, trabalhar e amar, que são - segundo ele - as formas de não adoecer.

Por isso o ruído não o molesta e pode trabalhar. Intensamente. Não para ganhar o Prémio Nobel, que «a priori» recusa, mas porque trabalha como respira.

Não podermos fazer o que queremos e gostamos é que é uma doença.

Quisemos saber se considera o seu teatro político:

- Não sou um homem político, no sentido em que não sou capaz de admitir um partido, um grupo sequer. Aderi ao grupo de André Breton, e em breve tive de me afastar porque não suportava as constante excomunhões. É inacreditável como alguém se pode arrogar em juiz de outrem Admiro como gente de tanto mérito se pode sujeitar a tal disciplina. De resto, já têm considerado o meu teatro político. Que hei-de eu dizer?

Damos uma novidade a Arrabal: há duas obras suas publicadas em português: «Baal-Babilónia», na revista «Plano 5» e «A Bicicleta do Condenado», numa antologia de Jacinto Ramos. Vai pôr-se em campo quanto a direitos.

Cita-me Arrabal a falsa dicotomia que durante muito tempo se implantou nos ditames estéticos. Segundo essa teoria, havia duas maneiras de enfocar a arte, tratando a realidade, ou tratando a parte onírica, espiritual da vida.

«De um lado haveria Samuel Becket, Artaud, Fernando Pessoa, que tratava do onírico, do sentimento; do outro, os escritores realistas, Bertolt Brecht, Peter Weiss, etc...

Eu creio que hoje surge uma outra classe de escritor, de autor, para o qual, como para mim, tudo está mesclado. A parte onírica, imaginativa, com a vida real. Não podemos separar uma coisa da outra. É como um icebergue: a parte oculta é tão importante como a parte que aparece. Graças aos sonhos, podemos registar as nossas recordações. Toda a doutrina, incluso política, nasce de sonhos, da imaginação.

O jornalista regista um «knockout» com Arrabal: não fui correspondido na pergunta fundamental que lhe queria fazer:

- Sendo a pesadelo uma entidade tão importante na sua obra, que opinião tem do mundo real que é hoje efectivamente o mundo de Pesadelo, como o dos automóveis e motorizadas que o seu cemitério bem demonstra?

Arrabal desvia o golpe:

- Em Cemitério de Automóveis, faço à minha maneira um resumo da Guerra Civil Espanhola.

Insistimos:

- Se fala da Guerra Civil Espanhola, é ainda um momento-limite, privilegiado, do paroxismo histórico. Gostaria mais que me falasse do quotidiano, aparentemente banal, calmo, normal de uma cidade mas, no fundo, de uma violência latente que é típica do tempo e mundo actual.

- O meu teatro trata das relações entre o quotidiano e o imaginário. Cemitério de Automóveis é uma peça dos meus 24 anos.

- E esse tema não voltou às suas preocupações?

Acentuando o sentido premonitório ou profético de todo o trabalho poético, furta-se, ainda:

- Como acontece sempre, quando escrevo certos temas, parecem fora da actualidade, mas depois vem a realidade confirmá-los. Serei Um pequeno poeta, mas não me resta mais remédio do que ser um percursor.

- Fala do Apocalipse?

- Mas quase todos os poetas hoje tratam esse tema.

- Quer dizer, então, que se banalizou?

Eram 19 horas e quinze, falávamos há duas horas num restaurante de Cascais, e Arrabal delicadamente deu a entender que teria de aparecer na casa de Ruth Escobar.

Havíamos falado muito. Arrabal tem pressa de viver. E de voltar, 24 horas após, a Paris, para terminar o filme que se estreará ainda em Outubro.

Em Cannes, quando ali foi estreado o filme de Arrabal, «Viva la Muerte», perguntaram a Buñuel o que pensava.

Resposta deste:

- Arrabal é espanhol e eu também, graças a Deus!■