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Posted by Big-Bang - sexta-feira, 31 de Outubro de 2003

Retrovisor (1964-1996) ->Day by day
32 anos de memórias

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<abstenção-1-pp> = ping pong das polémicas

 

POLÉMICA OU ABSTENÇÃO (*)

 

(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «Notícias da Amadora, 31-10-1964, suplemento literário «Artes e Letras», coordenado por Joaquim Benite e colaborado por Deodato Santos, Vítor Anjos, Fernando Cabrita, Mário Dionísio

31-10-1964

Talvez haja saída (no Sud, quanto antes...) mas parece não haver outra alternativa. Aqui, parece que não: ou polémica (na acepção pejorativa da palavra) ou abstenção. Ou permanecer mudo e quedo, ou intervir, publicar, agir mas sabendo que as melhores energias se irão desgastar numa pugna inglória, numa polémica de baixo estofo, numa luta que não é luta mas mero arremesso de palavras.

Na selva sem fim de uma cultura que é incultura, de uma vida que é morte literária, de umas artes que são malazartes, - a fatuidade, o bafio, a sobresufiência dogmática, o doutor travestido de poeta e o poeta travestido de doutor, a falta de sentido do "que importa", a falta absoluta do verdadeiro "connaitre" que é nascer com e de dentro (e não apanhar de fora e a frio), a falta de intuição, de imaginação e até de "charme", a falta de verdadeiro amor pelas ideias em vez de tanto amor próprio - tudo isto deixa pouca margem à respiração de quem respira, ainda respira.

Querer abria as janelas e dizer que há mundo, impossível. Querer andar para a frente e dizer que há futuro, impossível. Querer ter esperança e acreditar, impossível. Porque logo surge a má fé, a má vontade, a má consciência e, se a polémica há-de estalar saudável, higiénica, civilizada, o que estala é o insulto, o ponteiro da autoridade, a palmatória de cinco olhinhos revirados para o que ousou sair para a rua - com um livro ou um artigo - em absoluta independência e disponibilidade de espírito, sem as "costas quentes" por nenhuma autoridade, força, instituição ou ideologia, apenas ele e mais nada.

Ah! se fosse possível dialogar! Se fosse possível conhecer serenamente as razões de cada qual e com razões responder! Se fosse possível civilizarmo-nos, mesmo sem ir a Paris! Se fosse possível um esforço heróico de vontade para abater barreiras e barreiras de equívocos que nos lançam, cega, absurdamente, uns contra os outros! Se fosse possível uma nesga de fraternidade neste inferno! Se fosse possível um raio de ( sol) que rasgasse este espesso, extenso, inultrapassável, asfixiante nevoeiro!
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «Notícias da Amadora, 31-10-1964, suplemento literário «Artes e Letras», coordenado por Joaquim Benite e colaborado por Deodato Santos, Vítor Anjos, Fernando Cabrita, Mário Dionísio

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1-1<70-10-31-ls> leituras do afonso

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[(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «Notícias da Amadora», 31-10-1970 ]

9-10-1970 - A consulta dos clássicos pode, assim, ser útil, se vier repor questões actuais. A «Arte de Amar» indica-nos, por exemplo, que o marialvismo não é exclusivo da tradição portuguesa e que pode radicar-se já nesse paganismo de um autor que nasce 43 anos antes de Cristo e morre 17 anos depois. Estabeleceu-se então uma antinomia que ainda hoje vigora: ao paganismo romano, ao marialvismo «avant la lettre» de que Ovidío é alegre representante entre as cortesãs da época, ter-se-ia contraposto, com o advento do cristianismo e sua moral «espartana» sobre sexo, uma concepção idealista, monástica, moralista e puritana do amor. Sempre que se reagia contra esta concepção, era em nome do paganismo e do neo-paganismo. Ainda hoje as discussões sobre «os sentidos do império» parecem não conhecer outra dicotomia: ou tudo ou nada, mulher do diabo. Mesmo Sade, mesmo os libertinos do século XIX, mesmo os marialvistas portugueses até ao século vinte (Eça pode paradigmatizá-los, mas não faltam na nossa literatura os Teixeira Gomes de várias épocas e extracções) é sempre de um neo-paganismo que se dizem e fazem paladinos.

Ora como demonstram alguns poetas contemporâneos do futuro, que deram cartas em matéria tão delicada - Henry Miller, D.H. Lawrence, Walt Whitman, Paul Éluard, Prévert, Cassiano Ricardo, Drummond de Andrade - essa antinomia deixou de ser definitiva. A arte da dialéctica consiste precisamente em ultrapassar antinomias ultrapassadas. Nem paganismo nem cristianismo, ou paganismo e cristianismo, algo em que só os poetas e visionários estão trabalhando desde ontem para que nasça amanhã: uma nova axiologia a que alguns já começaram a chamar um novo paradigma.

É esse o trabalho do poeta, mesmo que não escreva versos. Modernidade, neste contexto e neste sentido, é sinónimo de mutação para o terceiro termo da alternativa, nem sim, nem sopas. Quem observe ainda hoje as manifestações muito portuguesas de marialvismo na literatura e na vida quotidiana - algumas sob a forma de antimarialvismo - , não deve pensar que fazer-lhe uma crítica pertinente corresponde a uma adopção de esquemas idealistas e românticos: as antinomias passadas só interessam se forem (dialecticamente) ultrapassadas. Escrever e pensar significa escrever e pensar a síntese que natural e inevitavelmente se segue à tese versus antítese.

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «Notícias da Amadora», 31-10-1970

 

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[Ver <lavier> - diário de um leitor - diário de um aprendiz ]

 

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O BINÁRIO YIN-YANG

PARÂMETRO QUANTITATIVO DAS ENERGIAS

31/10/1996 - O sistema binário do yin-yang alimentar - conhecido no Ocidente por Macrobiótica Zen (*) a partir dos esforços do japonês Jorge Oshawa - aplica-se ao prato mas nem só.

Pode servir de bússola em várias circunstâncias da nossa vida quotidiana. Isto desde que:

a) Não se transforme, de meio que é, em fim que não pretende ser

b) Não se confine a um jogo dualista entre contrários - podendo e devendo alargar-se a outros sistemas energéticos de N variáveis

c) Não se lhe exija mais do que o yin-yang é e representa: o parâmetro quantitativo das energias

d) Caso queiramos, além do parâmetro quantitativo, trabalhar também no qualitativo (ou frequências vibratórias) das energias, deveremos complementar o yin-yang com um sistema de N variáveis que detecte a qualidade das energias: e só o sistema da radiestesia holística pode detectar o parâmetro qualitativo (frequência vibratória) das energias.

2 - Entre os sistemas de energia de N variáveis , também estudados pelo Taoísmo, destaca-se o dos 5 elementos:

Fogo

Terra (solo)

Madeira

Água

Metal

que, em combinação com o binário yin-yang, se torna um método de leitura das energias quase imbatível.

J.A. Lavier, na sua obra fundamental «Bio-Energétique Chinoise», (file <lavier-1>), além do sistema duodenário, estuda as peridromias e alodromias, sistemas a N variáveis.

3 - Falando em ler as energias, 2 outras aplicações do sistema binário e do sistema pentanário se apresentam de imediato:

a) Diagnóstico

b) Terapia

4- Para quem considera o yin-yang uma brincadeira infantil, um mero divertimeto lúdico, devemos lembrar que o venerável computador - esse animal dócil e insuportável - se baseia no mesmo sistema binário. E para quem ache a radiestesia holística outra brincadeira - porque também o pêndulo não faz outra coisa do que oscilar cá-e-lá - devemos lembrar que, em termos de energia global ou de continuum energético, esse oscilar (do pêndulo) é a respiração do universo.

Basta pensar se a respiração em cada um de nós tem ou não tem importância. E, já agora, o ritmo cardíaco, também binário. Quem puder dispensar um e outro, estará autorizado a considerar o yin-yang uma brincadeira sem consequências.

A propósito de respiração cósmica, recorde-se que Jorge Oshawa e Michio Kushi falam do yin-yang como do princípio único que regula a ordem do universo.

Consequências deste axioma:

a) O yin-yang é uma forma de ler o macrocosmos no microcosmos quotidiano (e vice-ersa)

b) o yin-yang ajuda-nos a respirar (energeticamente falando) em sintonia com a ordem ou lei cósmica

c) o yin-yang serve-nos de bússola na viagem pelo continuum energético, que é espiralado e labiríntico, e nas nossas opções dentro desse labirinto.

5 - Quem consultar o «Livro da Macrobiótica» assinado por Michio Kushi e traduzido em português pela editora Escorpião, do Porto, poderá sublinhar aspectos interessantes que demarcam a dialéctica yin-yang taoísta de outras escolas energéticas antigas e modernas

a) Uma boa parte do livro ocupa-se de princípios morais inspirados em Confúcio, nomeadamente os que falam do «couple» homem/mulher ou das relações Pais/Filhos, Avós/Netos, etc.

Esta concessão confuciona de Michio poderá entender-se como uma chapelada à moral judaico-cristã, predominante no público norte-americano para quem ele fala

b) O yin-yang taoísta, como se pode verificar pela bíblia chamada Tao Te King, contém um ensinamento muito mais distanciado do moralismo confuciano

c) A arte do paradoxo - de que o Tao Te King é a obra-prima - nada tem a ver com o espírito judicativo que viria a cerregar a herança de inspiração judaico-cristã, mas com uma visão lúdica do transcendente

d) É curioso que Michio, nesse livro, dá várias citações dos Evangelhos cristãos, sabendo ele que fala principalmente para o público norte-americano e que deve, portanto, adaptar o espírito taoísta aos costumes do lugar.

6 - Em função da prolixidade que, normalmente, ocupa os livros de Macrobiótica, convém que o aprendiz, para ganhar tempo (e tempo é energia), atente principalmente nos quadros sinópticos. Diria mesmo que um «breviário do yin-yang», para andar connosco no bolso, tão importante como uma agenda pessoal ou uma lista telefónica, poderia começar por ser uma antologia desses quadros, tão claros são eles.

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(*) Lavier , na obra citada em file <lavier-1>, dá uma explicação histórica de o Taoísmo ser designado Zen (palavra japonesa) ■