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Lisboa, 12/5/1992

Ficções

«Não escrevi um romance, mas escrevi um DIÁRIO.»

Nenhuma instituição multinacional ou internacional e muito menos entidade ou individualidade, pública ou privada, me parece suficientemente segura para guardar este precioso espólio de ouro puro de sete quilates que são os 666 nomes da cena política, cultural, turística e económica durante os anos 40, 60,70, 80 e 90, mesclados propositadamente nestas páginas de horror e beleza que são os meus desabafos .

O que torna este DIÁRIO  trinta vezes mais infernal do que todos os do Andy Wahrol é que mistura inéditos com publicados, público com privado,  confidencial com inconfidencial, clandestino com legal, casos de polícia com casos de consciência, desabafos com truques de bastidores, segredos da criação poética com segredos de Estado (curiosamente ainda em bom estado), segredos pessoais com ficções e enredos de ficção, esquemas de artigos com apontamentos tomados em bilhete de eléctrico, afirmações factualmente documentadas com delirantes hipóteses de trabalho, suposições dignas de babilónicas bibliotecas de severos jorges luises borges. O que torna este DIÁRIO APOCALíPTICO um sereno lago de Fogo brando, um verdadeiro inferno com ar de piscina azul ferrete, é dizer tudo ou nada a partir de coisa nenhuma.

aqui se contam mistérios incríveis deste país marcado pelos punhais da ambição e por Nossa Senhora de Fátima:

(...)

Só em Clips e Agrafos, Meu Deus, quantos 5 mil escudos não gastei ao longo destes anos alucinantes deste DIÁRIO ALUCINANTE. E em furos de furadores para furar papéis, quantos milhares de minutos e milhões de segundos não se escoaram como a areia do tempo por uma Ampulheta. E em papel A4, de 80 gramas, inapa, branqueadinho a cloro, quantas caixas, como se pode comprovar no espólio deixado dentro delas, em ostensiva manifestação de economia da reciclagem?

Mas parece-me. finalmente, ter chegado ao fim desta ingente tarefa que me impus como um Dever militante de ter nascido, não ao fim mas ao fim da sua fase mais decisiva: a ordenação deste DIÁRIO INDISCRETO E INSUPORTÁVEL, deste DIÁRIO DE MORTE, deste DIÁRIO DE COBRAS E LAGARTOS, que me ocupou três caixas e meia de bananas Turbana, quando eu preferia que se me tivesse contido nas três, que é a conta que Deus fez. Mas também não ia jogar fóra os restos da década de noventa, que tem, como década, tanto direito como as outras a figurar neste DIÁRIO TURBANA que tem tudo como na Drogaria, desde o início, desde o meu recuado ano dos anos 40, desde os meus sete anos de idade, em que um Ciclone, mesmo no dia dos meus anos, me colocou o Mundo do Avesso e me fez ver como eu estava predestinado para grande feitos e ventanias. E como eu estava e ficar velho. Vejo agora, 59/60 anos volvidos, que, entre outros menores, o meu maior Feito é este meu DIÁRIO DAS HORAS BOAS E MÁS, é este meu DIÁRIO DE AVATARES E ALMAS DO OUTRO MUNDO, de avós e bisavós, de amigos e inimigos, de adversários e cúmplices, de Canalha e de gente piedosa (...)

Ele - DIÁRIO ESCRITO QUASE TODOS OS DIAS - remete para recortes, livros, documentos, que também  deixo, caso a Junta de freguesia continuar, social-democraticamente, muda e queda sem dar resposta ao meu instante pedido de aceitar o meu Legado. E agora posso ir descansado: acho que a tarefa mais chata, a pior, já está feita. O Cabo dos Trabalhos está ultrapassado e já dá para consultar ou ler em posição normal, sem sacos de plástico a atrapalhar. Formatizado, parece-me que o DIARINHO NAIF DE UMA ALMA NAIF - a minha -  poderá dar a ninguém algum gozo e proveito. Penso só no investimento; milhares de páginas, milhares de horas, milhares de energias (vibrações por minuto). Passei o das Tormentas, agora são apenas pequenos cabos pró resto da viagem e da peregrinação. Agora, pronto, trata-se só de desenvolver e pormenorizar, (durante os anos, dias e minutos que me restarem) este Núcleo Inicial de Três Caixas Turbana e meia, núcleo do qual se foram destacando alguns ramos: o diário poético (versos), o diário lírico-sentimental (uma pázada de cartas de amor), o diário (...), os grandes inéditos, e os agrupamentos temáticos de vária ordem.

Além destas três caixas Turbana,  há caixas do Correio A4 e algumas de formato máximo. Mas o ponto de partida, o núcleo dourado destes anos de Chumbo, é mesmo este DIÁRIO INCOMENSURÁVEL que hoje aprontei, quando me parece que cheguei ao fim para começar tudo de novo outra vez, é esta Rosa dos Ventos da minha (des)Orientação, esta sagrada Mandala da minha iniciação. Tudo o que desenvolvi depois em papeis particularizados está em (im) potência neste DIÁRIO MALDITO, neste pobre diário de um homem pobre. Neste Espírito Pobre de um Pobre de Espírito.

Lisboa, 12/6/1992